Deputado do Bloco “devolveu” dinheiro das viagens a associação que integra

Paulino Ascenção fez uma doação de cinco mil euros a uma associação etnográfica. Enviou cópia do recibo para a imprensa, mas não referiu que integra os corpos sociais.

Paulino Ascenção deixou o Parlamento por causa da polémica das viagens
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Paulino Ascenção deixou o Parlamento por causa da polémica das viagens GREGÓRIO CUNHA

Quando a polémica sobre a duplicação de abonos de transporte para os deputados das regiões autónomas estalou, o deputado do Bloco de Esquerda, Paulino Ascenção, foi o primeiro a vir a público apresentar um “pedido de desculpa” e a anunciar a devolução da “totalidade” do valor do subsídio de mobilidade.

Na altura, o parlamentar eleito pela Madeira explicou que face à impossibilidade de devolver as verbas ao Estado, iria entregar o valor do subsídio de mobilidade (um apoio a que os residentes nas regiões autónomas têm direito) a instituições sociais do arquipélago. E assim fez.

No final de Abril, Ascenção, que lidera o Bloco na Madeira desde Março, emitiu uma nota de imprensa, dando conta da doação de cinco mil euros à Associação Grupo Cultural ‘Flores de Maio’. O comunicado, que é acompanhado pela imagem do recibo do donativo, elogia a referida a associação – “faz um trabalho muito meritório no ensino dos instrumentos tradicionais madeirenses” – ao mesmo tempo que lamenta que as associações culturais sejam o “parente pobre” no que respeita aos apoios públicos ao associativismo.

“Lamentavelmente, são privilegiados os clubes desportivos e as associações com ligações aos dirigentes políticos”, acrescenta o coordenador do bloco, sem referir que a ‘Flores de Maio’ também tem ligações a dirigentes políticos. No caso, a ele próprio.

Paulino Ascenção é vogal da mesa da assembleia-geral daquela associação etnográfica do Porto da Cruz, uma pequena vila no concelho de Machico de onde é natural. A ligação, avançada pelo jornal digital Funchal Notícias, e confirmada pelo PÚBLICO, consta do registo de interesses que o deputado entregou na Assembleia da República.

No capítulo de ‘Cargos Sociais’, Ascenção indica é vogal da mesa da assembleia-geral daquela associação desde 2007, mas na nota enviada no final da semana passada às redações não faz qualquer referência a esta proximidade. “Cumprindo a decisão de devolver a entidades socialmente úteis o montante do subsídio de mobilidade recebido pelas deslocações entre a Madeira e a Assembleia da República, concretizei um donativo de cinco mil euros à Associação Grupo Cultural ‘Flores de Maio’, com sede no Porto da Cruz, no passado dia 20 [de Abril], aquando da assembleia-geral anual da instituição”, escreveu na altura Paulino Ascenção.

Eleito coordenador regional em Março do ano passado, derrotando Roberto Almada que liderava o partido desde 2008, Ascenção foi o primeiro deputado do BE-Madeira a chegar a São Bento. O regresso à Madeira, por força das responsabilidades de coordenação do partido, já estava planeado, mesmo antes da polémica. “Não estava ainda decidido o momento para isso acontecer. Seria sempre uma questão de tempo, mas apenas seria pelo Verão ou depois do Orçamento do Estado”, confirmou na altura ao PÚBLICO.

Sobre o donativo à ‘Flores de Maio’, o antigo deputado desvaloriza. “Não tenho qualquer interesse económico naquela associação e o cargo que ocupo não é renumerado. É meramente simbólico”, argumenta.

O bloquista, que foi substituído em Lisboa por Ernesto Ferraz, foi o único a renunciar o mandato por este motivo. Sara Madruga da Costa, também da Madeira, mas eleita pelo PSD, anunciou também a devolução da verba recebida do subsídio de mobilidade, mas sem especificar o destino do dinheiro.