Viúva Lamego: os clássicos de “sempre” e os clássicos de amanhã

É uma das poucas sobreviventes das fábricas de azulejos de oitocentos e continua a usar práticas de manufactura artesanais, ao mesmo tempo que inova e se adapta às estéticas de cada época. Os artistas agradecem.

Benoît está concentrado, debruçado sobre o painel no chão, dezenas de azulejos alinhados num rectângulo gigante. Ocupa boa parte da largura do atelier industrial. É a sua “tela”: a chacota (azulejo cozido uma vez, sem a segunda cozedura que vidra) já apresenta algumas indisciplinadas clareiras de cores pálidas, pastéis. Pura ilusão: depois da cozedura será uma explosão. Benoît van Innis já a conhece bem — há 20 anos que frequenta “a” Viúva Lamego, desde que trabalhou na renovação da estação de MaalbeeK, em Bruxelas. O painel de azulejos “foi muito bem aceite” e daí surgiram novos projectos, com novos arquitectos. “Os arquitectos tinham esquecido os azulejos”, avalia. Contudo, o Norte da Europa está a “redescobrir os arts & crafts” e o azulejo está a reaparecer (assim como o papel de parede, compara).

É-lhe difícil tirar os olhos do painel que, quando estiver pronto, será uma estante cheia de livros. “É para a Faculdade de Direito da Universidade de Lovaina. Vai ficar perto da biblioteca e daí veio a inspiração. Pedi referências de livros a professores da universidade, a amigos...” Não sabe quanto tempo ficará ainda a trabalhar na Viúva Lamego, onde vem normalmente uma ou duas vezes por ano. “Conheço-os bem e eles a mim”, afirma. E isso é raro: “Mesmo em Portugal é raro encontrar uma fábrica que trabalhe com artistas.”

Para a Fábrica Viúva Lamego, contudo, essa relação, faz parte do ADN — “trabalhar com os artistas mais criativos de cada geração”, resume o director comercial, Miguel Almeida Mendes. Afinal, ironiza, já o pintor da fachada da fábrica original, no Intendente — imperdível, uma das mais espectaculares de Lisboa —, Ferreira das Tabuletas, se tornou director artístico da fábrica. O edifício do Intendente, construído entre 1849, ano da fundação, e 1865, continua a ser uma boa montra para o trabalho Viúva Lamego (pela fachada, autêntica peça publicitária, e pela loja da marca), que começou por fabricar peças utilitárias, azulejos e faiança, mas que na viragem para o século XX já tinha os azulejos como produto principal. Nesta altura também já tinha deixado de ser a Oficina de Olaria de António Costa Lamego para passar a ser a Fábrica Viúva Lamego e os ateliers para os artistas já eram uma realidade.

Esse é um legado de que Benoît desfruta (e Manuel Cargaleiro não dispensa — mantém um atelier na fábrica), em grande simbiose com os processos da Viúva Lamego. Agora na Abrunheira (Sintra), depois de ter passado por Palma de Baixo, a Viúva Lamego continua a usar práticas de manufactura tradicionais (o azulejo é manual, usa-se a técnica da majólica com pintura manual e duas cozeduras), sem deixar de inovar (formatos, cores, acabamentos) ou adaptar-se à estética de cada época.

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E, novamente, os artistas. “Vamos ouvindo muito os artistas porque eles sabem o que o mercado quer”, nota Miguel Almeida Mendes, e são eles que “puxam pelas marcas”. Com Maria Ana Vasco Costa, artista residente e recentemente premiada internacionalmente, têm fugido da quadratura e desenvolvido peças tridimensionais e novas cores; e com o islandês Erró têm chegado um pouco a todo o mundo — é uma espécie de embaixador formal da marca.

Na sala de pintura, onde 15 pintores habitualmente transitam entre o mais tradicional e o mais moderno, duas mesas ocupam-se, aliás, de dois painéis dele — super-heróis em abundância, por enquanto grande parte em contornos (“picado”), apenas. Diante de Belarmina e Ana Maria está um painel que tem “à volta de 80 cores” — as tonalidades são desenvolvidas aqui para irem ao encontro do desenho do artista. “Somos nós que fazemos a comparação até estar perfeito”, diz Ana Maria, que já não se deixa enganar pelo antes e depois: “Esta 13B em cru é branca, depois de cozido sai azul; e há uns beges que saem verdes.”

“Estamos sempre à espera quando sai do forno a ver como ficou”, confessa Belarmina, “às vezes é preciso fazer de novo, dar uma demão ou mesmo raspar para voltar a pôr cor”. É um “trabalho minucioso e repetitivo”, mas com um pincel na mão estão sempre bem, dizem. Belarmina é mais vocal, entusiasma-se a contar a sua história — sempre quis trabalhar na Viúva Lamego: tem 56 anos e trabalha aqui há 42. “Comecei a pisar Viúva Lamego com três anos, o meu pai e a minha mãe trabalhavam aqui. Estive à espera para entrar, tinha 14 anos. Ainda fiz um curso de dactilógrafa, mas não queria mais nada. Vim logo para a pintura, gostava de desenhar.” E gosta de pintar Erró, “é desafiante e bonito”, no seu traço tão específico, no contraste entre os contornos negros e a paleta colorida.

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O desafio também é técnico — como quando uma obra de Erró vai parar a um aeroporto islandês e é necessário encontrar chacotas e vidrados capazes de suportar as oscilações de temperatura no aeroporto da Islândia. Nesta situação (ou naquela em que foi necessário que um pavimento pintado à mão suportasse o desgaste da passagem de pessoas e rodas), as vertentes laboratorial e de pesquisa da Viúva Lamego podem fazer a diferença. Fernando Duarte está neste momento perante um quebra-cabeças, cortesia precisamente de Erró — explica-nos as questões de (falta) de absorção dos azulejos, mas, confessamos, não entendemos.

A área industrial da fábrica está tranquila nesta terça-feira à tarde. Apenas o longo tapete onde se pole e vidra azulejos funciona incansavelmente — o banho hoje é branco e, depois dele, o azulejo seca durante um dia, passa para a pintura manual e vai novamente ao forno para ficar com aspecto brilhante, explica Oleg, que vai controlando o processo. Para chegar até aí, o azulejo passou por várias etapas, desde a pasta (uma mistura secreta), à lastra, passando pela estufa e depois forno.

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Daqui saem os azulejos que vão dar corpo às colecções tradicionais Viúva Lamego (séculos XVII e XVIII, painéis e murais) e a todas as outras. “Não ficamos a repetir o que se fazia”, sublinha Miguel Almeida Mendes. Nem caem “no erro da massificação”. “Não é o nosso objectivo” — ainda que o mercado nacional azulejar esteja a viver um “renascimento”. Miguel Almeida Mendes aponta “as reconstruções de Lisboa e Porto, onde existe muito azulejo nas fachadas”, como um dos motivos. Outro será o interesse dos arquitectos. “O azulejo esteve proscrito da arquitectura durante uns anos”, contudo tal está a mudar.

Do Pavilhão de Portugal aos Terraços de Bragança, Siza Vieira não prescindiu de azulejo e agora novos arquitectos estão a aplicá-los, “mesmo em edifícios novos”. No resto do mundo, há dois “bons mercados”, os EUA e o Leste da Europa — de azulejos tradicionais pintados à mão (ainda recentemente um congressista norte-americano de ascendência lusa, James Costa, comprou para a sua casa californiana dois painéis de barcos, que ainda repousam na sala de catálogo) — mas a Viúva Lamego chega ao Japão e Austrália, sem falar em França, Inglaterra, Espanha. No Norte da Europa, é cada vez mais requisitada para obras de arte.

Benoit prossegue a sua azáfama de pintura de “lombadas” de livros — pinta, afasta-se, observa, volta a pintar. Agora está nos italianos: Pirandello, Pavese, Pasolini.