Tripula

Cumprir o sonho de viver a voar o mundo

Os tripulantes de cabine não se limitam a servir chá, café ou laranjada. Nem têm uma profissão que é só glamour. Passam por várias situações de stress e têm que estar à altura do desafio — porque deles pode depender a vida de outras pessoas. É o que aprendem nos cursos da European School for Cabin Crew. Fomos assistir a uma aula.

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“Há fumo a sair da casa de banho. Suspeita de incêndio.” Ao centro da sala, 16 alunos sentam-se aos pares em duas colunas alinhadas, com um corredor a meio, a imitar o interior de um avião. Quatro estão de pé, nas pontas, a assumir as posições dos tripulantes de cabine que um dia sonham ser. É o primeiro dia prático do curso de formação inicial da European School for Cabin Crew, em Barcarena, Oeiras, fundada em Novembro do ano passado. E a meio da manhã já se treinam situações de emergência.

“Das piores coisas que pode acontecer é um incêndio a bordo”, assume Gonçalo Sant’Ana de Miranda, director-geral da escola e o professor que hoje lidera a aula. “O stress apodera-se de nós, por isso temos de treinar o controlo e aprender como actuar se um dia acontecer alguma coisa.” Depois do incêndio na casa de banho, são os motores que falham e a equipa tem de preparar os passageiros para a aterragem de emergência e a evacuação. É uma simulação mas os nervos são reais e, ao primeiro dia, os procedimentos ainda não saem automáticos. Há dúvidas sobre qual o papel de cada um. “Não lidei bem com o stress”, admite mais tarde Frederico Sousa, o aluno encarregado de assumir a posição de firefighter junto à porta da casa de banho imaginária. “Mas estou aqui para aprender e ser capaz de, no momento, responder ao stress. Esperemos que sim. Eu acho que sim”, diz, confiante.

Num curso com a duração de cinco semanas, quatro semanas e meia são passadas a falar de possíveis emergências a bordo. Três delas a simular situações em aulas práticas. Para Gonçalo Sant’Ana de Miranda, é esta componente que distingue o curso aqui leccionado dos restantes no mercado. “Nós temos um dos melhores empregos que há, mas a responsabilidade é muitas vezes negligenciada”, vai alertando a turma, calculando que “90% dos tripulantes [actualmente empregados] não sabe o que fazer em caso de emergência”. “O conhecimento é muito teórico e, ao passarem por situações com alguma tensão associada, vi que certos tripulantes não estavam bem preparados”, afirma o responsável, que mantém o cargo de director de tripulantes de cabine na Orbest, com 18 anos de carreira e formador desde 2004.

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Do curso, apenas meia semana é destinada à componente comercial, de serviço ao passageiro e de vendas. Mas também de relações públicas. “Acabamos por ser a cara da empresa”, assume Gonçalo. E na era dos smartphones “há uma divulgação imediata de tudo o que se passa” a bordo. Mas o foco da formação é o papel dos tripulantes em situações de emergência. Para o responsável, trata-se tanto de garantir a segurança a bordo dos aviões, como de mudar a imagem associada aos tripulantes de cabine. “Saindo daquele cliché que é a boa vida e os destinos, quero mostrar que somos pessoas que estão preparadas para actuar em situações de crise.”

A profissão é “muito mais do que o ‘café, chá ou laranjada’”, acrescentará depois Vanessa Sousa, uma das alunas que concluiu a primeira edição do curso. “Em meia hora aprendemos a mexer no trolley, que é o que toda a gente pensa que estamos ali a fazer”, diz Frederico. E questiona: “Se fosse só para isso, porque é que a malta ganhava bem e tinha de ficar em bons hotéis para conseguir descansar?” “Nós estamos a uma altitude brutal lá em cima, fechados num tubo de metal, e temos à nossa responsabilidade pelo menos 50 pessoas [número estabelecido pela legislação]”, reforça Angelina Penkina, aluna do curso que está agora a decorrer. “São pessoas com pais, filhos e netos. E nós somos responsáveis por elas no caso de alguma eventualidade — é isso que estamos aqui a aprender.”

O melhor ano de contratação

Entre os presentes na aula, estão os 17 alunos do segundo curso e alguns finalistas do primeiro. Ivo Valbom, 24 anos, pertence ao grupo que terminou a formação há uma semana. Confessa que “não foi isto” que planeou como percurso profissional, mas tem amigos que são tripulantes de cabine e, por aquilo que lhe contam, parece ser uma “boa vida”. A maioria dos alunos, no entanto, vem para cumprir um sonho antigo. Angelina Penkina, 24, e Rui Sezões, 32, já tinham tirado um curso semelhante, mas, depois de cinco anos sem exercerem, perderam a licença e procuram agora retomar aquilo que sempre tiveram vontade de fazer.

Outros há que “nunca quiseram outra coisa”. Como se o céu fosse o destino inevitável. É o caso de Frederico, de 24 anos. O pai é piloto, a mãe hospedeira, as tias também trabalham no sector da aviação. “O bicho por voar sempre foi algo incutido em mim”, confessa. “Os meus voos nunca foram normais. Passava o tempo inteiro em pé, a falar com os tripulantes ou no cockpit”, recorda, de sorriso rasgado. Quando era mais novo, Frederico queria ser piloto, mas “infelizmente é um bocadinho caro”. Ser tripulante de cabine é a alternativa para quem “o habitat do avião” sempre foi onde se sentiu mais “natural”. Depois, claro, há “tudo o resto que vem com o trabalho”: o contacto com os colegas e com os passageiros, as viagens, as estadias, as boas condições.

Quem conseguir emprego na área, “no primeiro ordenado paga praticamente todo o investimento que fez no curso”, garante Gonçalo Miranda. Mas não é a promessa de um salário acima da média que move a maioria. O sonho abeira-se sempre da conversa. Tiago Pinho assume mesmo que, se conseguir trabalho como tripulante de aviação, o valor vai ser três vezes mais baixo do que aquilo que ganhava como capitão de embarcações privadas no estrangeiro. Mas o que é se faz quando se anda nos barcos a pensar nos aviões? “O dinheiro não é o mais importante. É a felicidade da pessoa em fazer aquilo de que gosta.”

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Muitos interromperam os empregos e os cursos universitários — outros deixaram-nos por completo — para fazerem esta formação. No entanto, os contras pouco lhes pesam agora na balança. Tanto o investimento e o sacrifício iniciais, quanto as desvantagens associadas à profissão. Sabem que os fins-de-semana livres e as épocas festivas passadas em família serão, provavelmente, para esquecer. Que não terão horários fixos nem uma base a que chamar casa por muito tempo. E que precisam de ter “mais cuidado com a saúde” e uma melhor preparação para enfrentar o jet lag e o desgaste da profissão. Mas o esforço compensa. Vanessa Sousa remata: “Aos 42 anos, não vejo desvantagens nenhumas”, ri-se.

“Tenho os meus três filhos quase criados, tenho um óptimo suporte familiar e decidi que se estes 20 anos foram para eles, os próximos 20 são para mim.” Actualmente, muitas companhias fazem recrutamento sem limite máximo de idade e Vanessa está disposta a entrar pela primeira vez no mercado de trabalho para alimentar o “fascínio” que ficou desde a infância, quando vivia entre Portugal e o Brasil. “Eu quero é entrar para a aviação, seja baseada em Portugal ou noutro lado qualquer.”

Para Vanessa, essa é a vantagem deste curso. “Tem uma ligação à Orbest, a companhia em que o Gonçalo trabalha, mas também dá a hipótese de ficar noutras companhias”, afirma. “Como é óbvio, existe uma intenção das companhias que têm protocolo com esta escola de ficar com tripulantes daqui, porque estão treinados da forma que nós queremos, mas o interesse da European School é criar os melhores tripulantes possíveis para a aviação nacional e internacional”, esclarece o responsável. 

Depois de concluído o curso, os finalistas recebem um certificado europeu, que os habilita a candidatarem-se “a qualquer companhia da Europa”. Mas terão de ser proactivos na procura de emprego, participando nos Open Days que várias transportadoras aéreas vêm fazer a Portugal todos os anos. Se forem seleccionados, fazem depois uma formação, habitualmente de uma semana, para se adaptarem aos procedimentos específicos da empresa.

Segundo Gonçalo Miranda, “se calhar estamos no melhor ano para a contratação de tripulantes de cabine em Portugal”. Várias companhias, nacionais e internacionais, aumentaram as carteiras de voos e estão a recrutar novos trabalhadores no país. Para quem termina agora o curso ou acabou de fazê-lo, são boas notícias. Para já, não temem a concorrência feroz dos milhares de candidatos que acorrem às sessões de recrutamento. Nem se deixam assustar pelas greves e pelos protestos dos últimos meses.

Para Vanessa, são situações que “dependem das condições” existentes em cada empresa e do facto de estas “estarem a ser respeitadas ou não”. “Se ambas as partes cumprirem, tudo funciona bem”, defende. No limite, ajuda-os a decidirem com que companhias “não se identificam”. E contribui para desmistificar a imagem de El Dorado da profissão. Para o bem e para o mal. “Não é a tal profissão glamorosa. Vai muito para além de estarmos de uniforme, sempre arranjados e a sorrir. Fazemos mais e temos de ser respeitados, como em qualquer trabalho”, defende Angelina. “Se há alguma irregularidade, temos de falar, porque daquilo que nós fazemos também depende a vida de outras pessoas.”