Montepio

Carlos Tavares compra paz social com prémio de 1,5 milhões aos trabalhadores

O novo líder do banco, Carlos Tavares, vai baixar os lucros de 2017 de 30,1 milhões para perto de cinco milhões. Mas os prémios dos trabalhadores ficam nos valores prometidos pela anterior gestão, num total de perto de 1,5 milhões.
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fábio augusto

O novo presidente do grupo Caixa Económica Montepio Geral (CEMG), Carlos Tavares, comprometeu-se a distribuir pelos trabalhadores, a título de compensação pelo congelamento salarial, um montante equivalente aos 1,5 milhões de euros que o seu antecessor tinha destinado ao mesmo fim. Isto, ainda que a nova equipa de gestão da CEMG esteja a rever os números divulgados em Fevereiro por Félix Morgado, o que implicará a correcção dos 30,1 milhões de euros de lucros anunciados, para um valor próximo dos cinco milhões de euros (que poderá ir até 6,5 milhões).

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Em Dezembro de 2016, a administração do grupo CEMG então chefiada por José Félix Morgado, assinou com os sindicatos um acordo de empresa onde, entre outros pontos, excluía cortes nas remunerações do quadro de pessoal, mas previa o congelamento temporário dos salários, e por três anos. Em contrapartida, a gestão comprometeu-se, assim que o banco regressasse aos lucros, a partilhar pelos trabalhadores 5% do total a título ocasional.

Segundo a cláusula quatro do acordo colectivo de trabalho das empresas do grupo CEMG, firmado a 27 de Dezembro de 2016, “nos dois anos subsequentes à cessação da aplicação das presentes disposições e havendo resultado positivo consolidado”, no exercício “imediatamente anterior, ou, não havendo resultados positivos nesses anos, nos anos seguintes àquele em que o exercício económico seja positivo”, haverá lugar a uma distribuição de lucros “até ao montante de 5%” do total.

O entendimento seguia-se a três anos de acumulação de prejuízos: em 2014 a CEMG apurou 187 milhões de euros de perdas, em 2015 os prejuízos ascenderam a 243,4 milhões de euros que, em 2016, baixaram para 86,5 milhões de euros.

Em Fevereiro de 2018, dias antes de Carlos Tavares assumir o cargo de presidente executivo (que acumula com o de não executivo), Félix Morgado divulgou contas não auditadas pela KPMG, surpreendendo ao avançar com lucros de 30,1 milhões de euros, o que abriu a porta a uma distribuição, pelo quadro de pessoal, até 5% dos resultados positivos. Ou seja, até 1,505 milhões de euros. No final de 2016, o quadro de pessoal da CEMG era de 3.588 trabalhadores e no final de 2017 de 3.630.

O Conselho de Supervisão da CEMG foi informado da inversão do ciclo negativo, mas decidiu esperar pelo relatório de auditoria da KPMG, para validar os números de Félix Morgado. Números que Carlos Tavares está agora a corrigir. E pelo que o PÚBLICO apurou os 30,1 milhões de euros de lucros que o banco anunciou ter apurado em 2017, deverão ficar afinal entre 6,5 e cinco milhões.

Ora, aplicando os 5% aos 6,5 milhões de euros, a verba destinada aos trabalhadores nunca ultrapassaria os 325 mil euros: 90 euros a cada (isto se todos recebessem igual quantia). Longe dos 420 euros que receberiam, em média, se os lucros ficassem em 30,1 milhões.

 “A intenção do Conselho de Administração é que a revisão das contas que está a ser feita na CEMG não afecte a compensação prevista distribuir pelos trabalhadores”, confirmou ao PÚBLICO fonte oficial do banco.

Com o mandato a arrancar, Carlos Tavares não quer comprar uma guerra laboral. E esta quinta-feira informou os membros da Comissão de Trabalhadores do grupo CEMG, com quem se reuniu, que respeitaria os compromissos assumidos pelo seu antecessor: faria as contas como se o grupo tivesse apurado mesmo os tais 30,1 milhões de lucros. Mas não explicitou em que condições, nem o timing que vai seguir.

Entre as razões que levaram Carlos Tavares a mudar os critérios de avaliação das contas da CEMG, alterando os números de Félix Morgado, está a preocupação de criar “almofadas” de protecção, nomeadamente, para fazer face a impactos negativos na actividade em resultado dos meses de impasse, gerado pela mudança de cadeiras no topo do banco.

E ainda a necessidade de reforçar o volume das imparidades, ou seja, de assumir créditos perdidos. E um dos financiamentos que levou a nova administração a constituir mais provisões, está relacionado com uma operação de cerca de 100 milhões de euros, concedida, em 2013, pela CEMG ao empresário Rui Alegre.

O empréstimo da CEMG, à época liderada por Tomás Correia, teve por finalidade apoiar Rui Alegre, antigo gestor do grupo Amorim, na compra do Paquete Funchal e de mais duas outras embarcações, uma arrestada em Marselha e outra no Montenegro. E pertencentes à Classic Internacional Cruises, empresa portuguesa detida por investidores gregos. Cinco anos depois, as embarcações estão na esfera do Montepio e arriscam um destino: a sucata.