Daniel Rocha
Manuel Resende

A poesia é muito rara para ser desperdiçada com porcarias

Uma vida poética em 250 páginas. Poesia Reunida, de Manuel Resende, é um livro raro de um poeta raro. Insubmisso, desalinhado, descomprometido – excepto com o mundo.

“Ó senhora... não estamos aqui a perder tempo?”, com o sotaque do Porto bem vincado, já com a conversa a meio. Manuel Resende fazia uma pausa ao falar da sua poesia. “A minha poesia é uma colagem. Tem as mais diversas influências. Desde o Sófocles ao Rui Veloso e ao Sérgio Godinho; tem os Beatles, André Gide, Breton, Cesariny, Jorge de Sena... As coisas mais díspares. E as formas poéticas são as mais desencontradas e aparentemente desconexas. Eu atiro aquilo para lá e de vez em quando começa a sair um soneto, compreende?” Segundo o poeta, esta é a génese dos seus poemas. Cabem todos em pouco mais de 250 páginas, volume que acaba de sair numa edição da Cotovia com o título Poesia Reunida. Nele são visíveis as influências. Aquelas já referidas, e outras: Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, Rimbaud, Kaváfis, Aquilino Ribeiro, Manuel António Pina, Ruy Belo, Homero, Frei Bartolomeu de Las Casas, Walt Whitman, Adília Lopes. E ainda os dadaístas, os futuristas, os surrealistas, os concretistas. Tudo contido no total da obra poética de alguém que muito sumariamente se resume assim na sua relação com a poesia: “Começou muito cedo, mas não me entreguei completamente...” Porquê? “As condições do fabrico da poesia são muito más.”

Se há razão para Manuel Resende ter publicado tão pouco numa vida que acaba de fazer 70 anos, talvez seja esse descomprometimento com que encarou a sua poesia e a percepção, com o exemplo de António Maria Lisboa, da precariedade não apenas da produção como do lugar da poesia no mundo. Ele explicará mais adiante. Por agora fica essa dupla precariedade como justificação para terem sido apenas três livros numa vida, publicados entre 1983 e 2004: Natureza Morta com Desodorizante (1983), Em Qualquer Lugar (1988) e O Mundo Clamoroso, ainda (2004) a que se juntam agora alguns inéditos e dispersos

Está sentado à mesa onde todos os dias lê e escreve. Uma superfície quadrada em que fica de costas para uma janela. À esquerda tem uma porta pela qual vai vigiando o cão a brincar no jardim. Não há sinal da sua poesia. Apenas um computador portátil aberto e um dicionário de grego sobre uma pilha de papéis à luz da tarde chuvosa que entra, filtrada. Quase em frente há o mar, mas não se vê dali. Separa-os a estrada e uma fila de casas. Manuel Resende cruza as mãos e, em silêncio, olha de frente com a timidez sem disfarce de quem não está habituado à atenção fixada em si. O seu nome costuma estar nos bastidores enquanto tradutor de poetas como Konstantinos Kaváfis, Odysséas Elytis, Kiki Dimoulá, escritores como Bertolt Brecht ou Franz Kafka. E é naturalmente pelos outros que começa a falar de si. “Aprendi grego a traduzir o Kaváfis”, afirma. E nem sequer era uma paixão. “Tenho respeito por ele, mas não é dos meus poetas preferidos. A tradução de poesia é diferente da do romance. A gente lê um poema e em cinco minutos está lido e aquilo fica ali e dá mais jeito para aprender a língua. Além do original, tinha a tradução do Jorge de Sena e outras e sabia aquilo. Fui percebendo a língua.” Foi em 1985, mais poetas gregos se seguiram. Mas, por essa altura, já publicara o seu primeiro livro. “Por mim, não tinha publicado. O Vasco Graça Moura, que estava na Imprensa Nacional [Casa da Moeda], queria fazer uma colecção de poesia e o Manuel António Pina sugeriu o meu nome.”

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Se há razão para Manuel Resende ter publicado tão pouco numa vida de 70 anos — três livros, entre 1983 e 2004 — talvez seja o descomprometimento com que encarou a sua poesia e a percepção da precariedade do lugar da poesia no mundo Daniel Rocha

Eram amigos. “Conhecemo-nos, porque eu ia muito ao Piolho [um café no Porto] e o Pina também. Nunca falávamos da nossa poesia, nem ele da dele, nem eu da minha. Havia muito em comum. Éramos de uma esquerda nova que não tinha nada que ver com o PC. Ele andava com as mais variadas pessoas, muitos católicos progressistas, e eu fui conhecendo muita gente. Gostava muito de falar com ele, aliás toda a gente gostava muito de falar com o Pina. Ele era um grande conversador e ficámos muito amigos. Foi ele quem me revelou os poetas americanos, da Beat Generation, por exemplo, ou Carl Sandburg. O [T. S.] Eliot, o Ezra Pound... Ele papava isso tudo, e isso distinguia-o porque naquela altura a cultura era a francesa. Era uma lufada de ar fresco. Imagine aqueles tipos da Beat Generation... diziam poemas para audiências, como na Grécia!” 

Os dois tinham ainda em comum o mesmo nome, eram ambos Manuel António. Em Poesia Reunida, há um poema que Resende diz ter “roubado” à física moderna e, precisamente, a M. A. Pina. Chama-se Deve estar a brincar, senhor Feynman: “Onde estão as partículas elementares / Quando a gente não está a olhar? / A questão é de se pôr, só que elas estão, / Ou qualquer coisa, não sei o quê, em qualquer lugar.” Faz parte de Em Qualquer Lugar, o livro de 1998. Mas Pina não foi o único, esse roubo, esse contágio, melhor dizendo, é feito de uma enorme pluralidade que teve em Resende um filtro capaz de resultar numa marca singular. “Eu não tenho um estilo, ou o meu estilo é aceitar tudo”, refere, incluindo o que lhe veio da tradução. “Sim, isso tem que ver também com a tradução, porque acho que uma das coisas que me caracterizam é a aceitação das mais diversas correntes. Embora tenha uma filiação surrealista, não tenho uma filiação antagónica a ninguém. Aceito mais ou menos tudo. E, portanto, a tradução é uma das vertentes da minha experiência poética. É deixar falar em mim as outras vozes. Essencialmente foi isso que fiz na minha vida.”

Compromisso com o mundo

A poesia de Manuel Resende é comprometida com o mundo; mais do que isso, com a história do mundo, sublinha Osvaldo M. Silvestre no posfácio a esta Poesia Reunida. “Se algo define a poesia de Manuel Resende, é a forma como não evita as solicitações da História, que tende, aliás, a grafar com maiúscula, num gesto que se foi tornando raro no panorama da poesia portuguesa recente.” Confrontado com a afirmação, Manuel Resende encolhe os ombros. “Que acha?” E depois afirma: “Eu também escrevo sobre o quotidiano, mas nunca é um quantificado trivial e fútil. É sempre a pensar nas coisas, perdoe a presunção, nas coisas mais essenciais da vida.”

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E que coisas são essas? Há nova pausa, breve. “A poesia é muita rara para ser desperdiçada com porcarias. Essas coisas são o amor, a liberdade...” Se houvesse um cigarro, como houve durante os muitos anos em que fumou, este seria o momento de uma baforada, e só depois continuaria. “É isso. E falo muito do tempo, porque o tempo é a natureza de que somos feitos. O ser humano é um animal muito delicado e frágil. Tem de aprender tudo, excepto mamar e fazer xixi e outras coisas que tais. Tem de ser ensinado, precisa de uma família, precisa de tempo, precisa de um lastro histórico. Senão, não existiríamos, nunca seríamos o que somos.” 

É o momento para recuar bastante no tempo e tentar entender a ligação de Manuel Resende à poesia. Começou em casa. “O meu pai andava sempre a recitar poemas e eu li Fernando Pessoa muito novo, não tinha idade para aquilo, mas ia escrevendo umas coisas.” Começou a aperceber-se das vanguardas poéticas, e, entre futuristas, clubistas e expressionistas, escolheu a radicalização e reviu-se nos dadaístas. “O dadaísmo é uma reacção contra as condições de cultura e de literatura da sociedade. Uma reacção de rejeição de uma sociedade que, com tão elevada cultura, faz a II Guerra Mundial! Essa relação conflituosa com o mundo tal como ele é esteve sempre comigo.” 

Por outro lado, a consciência das condições da morte de António Maria Lisboa, em 1953, aos 25 anos, vítima de tuberculose, sublinhou a ideia de precariedade que sempre associou à poesia. Lisboa fora um dos mais brilhantes poetas da sua geração, um abjeccionista, insubmisso face a tudo o que eram regras criativas e avesso à pretensão de transformar o surrealismo numa escola. “Morreu em pleno voo”, refere Manuel Resende, que, como o pai, se inscreveu num curso de Engenharia, enquanto fazia traduções. O primeiro trabalho pago foi um ensaio sobre a Comuna de Paris da autoria de Jacques Rougerie. Gostava de traduzir, mas o dinheiro era incerto e, quando abriu um concurso para jornalistas no Jornal de Notícias, concorreu e reencontrou o amigo Pina e ficou durante seis anos ligado à Economia. Mas foi o gosto pelas línguas, e em particular pelo grego moderno, que o levou a Bruxelas e a aceitar o trabalho de tradutor na então CEE, ainda Portugal não era membro. Conta esse percurso e refere Alexandre O’Neill. Um e outro com questões diferentes com Portugal. Para Resende Portugal são as pessoas. Viver em Bruxelas deu-lhe essa consciência. Para O’Neill era outra coisa. Há um poema em que brinca com uma das expressões mais conhecidas do autor de Uma Coisa em Forma de Assim, e noutro escreve: “Os teus versos perseguem-me pelos corredores, agarram-se-me à depressão ou à suspeita alegria para-fora, como uma caspa / inconveniente, mas sempre fiel amiga.” O poema chama-se Alexandre, o Grande, e Alexandre, o Grande, não é outro senão O’Neill. 

Tudo se cola ao que escreve, parece querer dizer com as histórias que conta com a ajuda de uma oralidade que também está na poesia. Tudo se cola, parece também soar quando se lê o que escreveu nesse e noutros poemas, como em Voltar para casa. “Mas porque tem a pessoa de voltar para casa / E seguir o rasto das árvores no chão, / Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos / E as mão nos bolsos como um apontamento antigo? / Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um, / E súbdita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca, / Pronta a saltar e a arder todo o corpo? / Mas porque tem a pessoa de voltar para casa, / Cabisbaixa?” 

Há, pois, uma coisa com O’Neill. Confirma: “Tenho um verso também que tem uma coisa do O’Neill, mas não foi de propósito. Lembrei-me, é uma questão que tenho comigo.” Sorri. “A dele era com Portugal”, volta a sorrir. Já a questão de Resende parece ser com o mundo. “Nós somos fruto da História”, a tal do h grande. “Somos um resumo do que se passou; o eu é uma luta constante para sobressair do magma. Faz-se contra o outro, mas com os outros.” É a individualidade no meio da História da civilização, a que se constrói no quotidiano. “Estou sempre a pensar nisso”, salienta. Quando escreve sobre amor e guerra, sobre lugares massacrados e a relação com o que chama “a ralidade”. 

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Escreve-a assim: “S’a ralidade não me chatiar, / Não vou eu chatiar a ralidade. / Porém, essa megera sem idade / não tem tempo e fronteiras, não tem lar.” 

O que é ralidade? Resposta simples, coerente com o que sempre escreveu e sempre disse. “Comecei por lhe dizer que a minha reacção é uma reacção contra o mundo, mas compreendendo que somos um produto do mundo. Mas sinto-me fora do mundo.” É apenas um dos paradoxos. “Todos somos um poço de contradições. A realidade que conhecemos é rala e reles. As pessoas que não têm dinheiro para acabar o mês, os soldados na guerra... Parecendo que não, é um dado quotidiano. Há uma música de fundo, mas é uma música de guerra, de conquista, de luta pelos recursos do planeta. É essa a nossa ralidade. É nessa realidade que a gente vive e contra a qual temos de afirmar o nosso eu; temos de reagir. Isto é profundamente político. Mas ninguém conseguiria dirigir as massas com um discurso como o meu.” Ri, uma gargalhada rouca, arrastada, com vontade. Porque não?, indaga-se. “Porque é um discurso que parece um bocado disparatado; é um discurso que quer levar à interrogação. Sou de extrema-esquerda, sempre fui, e acho que vou morrer assim. Um dos poemas do livro é uma reflexão sobre Rosa Luxemburgo, que dizia que cada morto é irredimível, e a gente não pode deixar de pensar nisso. Não me quero pôr acima dos outros, como grande defensor da moral, porque, se estivesse numa situação extrema, não sei qual seria a minha reacção, assim como não sei qual seria a reacção de todos os justiceiros. Mas a minha concepção é a de uma pessoa que sabe que vive no mundo, que não está acima do mundo. É uma tragédia, a tragédia em que vivemos sempre.”

Na poesia de Manuel Resende há a tragédia pessoal e a de quem esteve em Sarajevo, Auschwitz, num gueto de Varsóvia ou em Dubrovnik. Valem todas as existências que contam essa relação com o real, que fazem a História, que levam a pensar como será ser o Outro no contexto mais doméstico ou colectivo. Ser o soldado, a mulher, a vítima, o excluído. Por isso há tantas vozes na sua poesia, personagens com uma tremenda profundidade psicológica e filosófica. Algumas têm nomes, por vezes reconhecidos, mas a maioria são anónimas. “Às vezes falo como se fosse uma mulher. O Kaváfis tem isso, tem muitas vozes lá dentro. Mas muitas vezes tento pôr a voz feminina. Há uma coisa curiosa, à sombra do feminismo apareceu o movimento de libertação dos costumes sexuais e isso trouxe tanta coisa na minha geração.” O pensamento parece ir para longe e regressa logo depois. “Quero pôr em questão ideias feitas. Tentar entrar na pele do diferente para tentar chegar a uma unidade. É assim no amor, no sexo. Essa é a grande força do amor, a aspiração a uma ideia completa de vida. Ser uno com o outro.” A pele sensual que pode, mais uma vez, encerrar a tragédia. “Os seios dos poemas também são os seios que podem ter cancro e só a mulher vive isso, esse medo.” Quer tentar chegar perto desse sentimento. Por isso tanto ficciona como deixa entrar pessoas reais. “A maior parte das pessoas que estão nos meus poemas existe. Fantasio um bocado, depois elas entram. Digo-lhes: ‘Entra aí, rapaz, entra, rapariga.’

E depois há também outras personagens que são mais do que isso. Ou outra coisa, uma “coisa esquisita”, uma paródia ao Pessoa. “Eu estava a engendrar uma maneira de publicar poemas sem ser em meu nome e então inventei um.” Chamou-lhe Mika Ahtisaari. É finlandês, nascido em Tempere em 1960. São-lhe atribuídos os poemas finais deste Poesia Reunida. Ele terá vindo para Portugal no final da adolescência e é apresentado como “esquivo em contactos mundanos”, alguém que “tratava da sua horta biológica”, aspectos comuns a Resende, também ele fora da rede de contactos literários, de uma independência pouco comum nas letras, irónico como ele. “Pediu a M.R. que lhe arredondasse o português perro dos poemas que ia produzindo e, no final, teve esta frase: ‘São teus.’” Eis aqui os temas de Mika Ahtisaari por Manuel Resende. “Como uma cereja e, / Comendo a cereja, o meu corpo / Pede as cerejas todas do mundo, / Mas não posso comer as cerejas todas do mundo, / Pois faltam-me as cerejas que comeram / Sócrates, Hipasos de Metaponto / E os velhos camponeses da Gália, / Ou até os escravos de Roma. / Assim, como uma cereja / e deixo o gosto de a comer / Ficar em mim pelo gosto / De todas as cerejas que possa haver. / Uma cereja como todas as cerejas, / uma cereja por todas as cerejas.”

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O heterónimo finlandês

Vê esta sua fase, a última publicada, como um regresso a Aberto Caeiro, que, no seu caso, é finlandês. Mas também como um modo de fugir. A quê? “Todos os meus livros acabam com uma despedida, um adeus até mais ver; praticamente todos dizem que não escrevo mais. Estava a fazer uma reflexão profunda sobre tudo isto, sobre a linguagem, sobre a filosofia, comecei a estudar os pré-socráticos e outras coisas engraçadas como a matemática babilónica... e o Mika Ahtisaari apareceu como uma maneira de escapar pela lateral e começar a escrever outro tipo de poesia, menos palavrosa.” Ainda não sabe bem o que é, nem se haverá mais. Sabe apenas que ao fazer um poema está “a afirmar uma aspiração que às vezes não é humana por excelência e a dizer: ‘Tomem lá disto e não me chateiem, eu não vos faço mal nenhum, não me aborreçam agora.’” “É uma afirmação de vida essencial para mim. É um acto de resistência contra toda a iniquidade que existe e não sei se é entendido como isso.” É um acto de resistência? “Para mim é um acto de resistência, sim.”

Contra a tal precariedade, ou apesar da tal precariedade de que falava no início da conversa. “A poesia não é uma coisa garantida. Não sei se vai morrer ou não, mas não há nada que a favoreça neste momento. Mas vale a pena lutar por isso.” Nem que não escreva nem mais um poema, porque depois deste livro não voltou a escrever poesia. “Tenho o projecto de traduzir o Heráclito e está a dar-me água pela barba. Está praticamente traduzido, o problema é a introdução. Tenho medo. Quando o Heráclito fala do logos, para mim é logos, é linguagem apenas.” Uma leitura recente consubstanciou essa sua convicção. Foi sobre o papiro mais antigo escrito na Grécia que  apareceu recentemente. “Os papiros gregos desapareceram todos, porque, ao contrário do Egipto, a Grécia tem Inverno e chuva e aquilo estraga-se. Esse papiro, que é de 400 anos antes de Cristo, é curioso. Anda a ser estudado e tem uma coisa engraçada, uma citação do Heráclito que não aparecia nos Fragmentos [sobre a Natureza]. Tem uma linguagem que não se pode dizer que seja do Heráclito, mas os temas são semelhantes. Como dizer que a linguagem é comum, mas o vulgo, as pessoas, os muitos, não a percebe — ou seja, são poucos os que sabem a verdade. E há outra coisa: a crítica à linguagem. Ele põe as coisas assim: agora o Zeus comeu o pénis do Cronos?! Não pode ser, isso é simbólico, tem de se perceber que isso é simbólico. Zeus assenhorou-se do poder, porque o phalos é o poder, portanto assenhorou-se do poder divino do Cronos. Temos de compreender o que a linguagem quer dizer e não o que está lá escrito... Está a ver, é isto que me anda a ocupar.”

São interrogações como esta que também leva para a sua poesia. Ela não está a salvo de nada. Percorrer as páginas do volume que agora permite estar diante de toda a obra de Resende é perceber essa capacidade de englobar uma visão do mundo que não exclui — nem temas, nem formas, nem ritmos. “Experimentei vários ritmos num soneto, porque com a mesma métrica pode-se fazer ritmos muito diferentes.” E cita exemplos, lê alto a partir do ecrã do computador. Há muito tempo que não escreve à mão e nem a ler poesia se refugia no papel. E, na sua voz, ouvimos o erudito, o calão, o sarcasmo e a ironia, a voz da rua e a do filósofo. Parece haver cantigas pelo meio. “A ironia é para manter uma certa distância em relação à minha pessoa, à poesia, deixar-me contaminar. Estou sempre de pé atrás.” Há outra gargalhada, e para explicar o riso convoca à conversa um cantor francês, George Brassens. “Ele era um sujeito com uma cultura de língua muito profunda, capaz de misturar linguagem clássica, da Idade Média com a linguagem do dia-a-dia. É uma coisa saborosa, porque há indivíduos que fazem isso e parecem novos-ricos. Nele era autêntico. E contribui para dar sentido. Acho que — gaba-te, cesta — também consigo. E é então que regressa a Aquilino e a outra paródia que faz ao que também chama “mestre”. “Ele faz parte da minha poesia. Sabe qual é o poema?” Abre na página 41, pede que leia, alto, um poema a que deu o título Libertino Belisário em seu Jardim...  e segue cada palavra em mais um texto onde se nota outra proximidade: a da paisagem. “Quando vivia em Santarém, gostava de muito de dar uma volta de carro pelo campo. Via o vale ao fundo, os prados, os campos... Olhava para tantas horas, tanto trabalho ali ao longo de décadas, séculos. Porque a paisagem não foi posta por Deus ali; o que vemos é a natureza humana, a natureza trabalhada pelo homem. É como se o tempo estivesse cristalizado em espaço.”

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E, acrescente-se, como se cada um dos seus poemas fosse uma montagem de toda a multiplicidade de elementos até ela ganhar o sentido, transmitir a ideia. Como num filme. “É mesmo, vejo o poema quase como a montagem de um filme. Primeiro andamos às voltas e depois é preciso juntar aquilo tudo. Ou como fazer um bolo — é preciso seguir uma certa receita para a massa ficar leve.” Cozinha? “Cozinho sim, e estava agora a lembrar-me que tenho de arranjar uma solução para os falafel. Comecei a fazer há pouco tempo, porque como cada vez menos carne. Há um problema — se a massa tiver um bocadinho de água, quando se deita na frigideira, desfaz-se. É preciso escoar a água toda do grão de bico, mas isso pode resultar numa coisa muito seca. Há uma ciência, não é só misturar. A sabedoria, a mão do cozinheiro é que conta.” 

Isso também vale para a poesia? “Não sei, acho que sim. Para mim, a poesia é uma espontaneidade muito bem estudada. Para se ser espontâneo é preciso um bocado de treino.”

E volta-se aos gregos, ao que falta ler. A Odisseia e a Ilíada no original, por exemplo. “Nunca li o Kalevala [poema épico finlandês]. Não li o Gilgamesh! É o primeiro poema! Gostava de ler essas coisas. Há outro livro de que gosto muito e leio aos pedaços, O Homem sem Qualidades, do Musil. Mas penso sempre que posso não ter tempo. Passei a pensar nisso, desde que recentemente passei por uma experiência de quase morte. Sempre que penso em começar um projecto, tenho medo de não ter tempo.”

Alterou-se isso, mas não a sua relação com o divino. Pergunta-se como vai ela, meio em jeito de provocação. “Então, eu sou surrealista!” Mas logo deixa a ironia de lado. “Nós somos parte do mundo. O espírito, a alma, existe, mas está dentro de nós. Não é coisa que anda a pairar por aí; não é uma entidade platónica que de vez em quando vem hospedar-se num corpo. A humanidade precisa de espírito, precisa de alma, os seres humanos precisam disso, senão não vivem. E depois há momentos mágicos em que o que está dentro de nós e o que está fora de nós se une; é o ‘acaso objectivo’, e esses momentos são preciosos na existência. Há pessoas que chamam a isto Deus. É lá com elas, respeito. Mas acho que Deus está dentro de nós. Temos de o procurar em nós e nos nossos semelhantes, ou não conseguimos viver.” Há misticismo ou um sentido de religioso quase já existia antes da tal etapa limite. “Costumo dizer que como duvido muito tenho uma fé inabalável, porque já duvidei tanto que não vou duvidar mais. Essa experiência de quase morte que tive revelou-me duas coisas. Como fui sedado, tive fantasias incríveis, alucinações que para mim eram perfeitamente verdade; eu estava convencido que aquilo tudo era uma encenação dos meus amigos. Eu estava no hospital, nos cuidados intensivos, e as enfermeiras eram actrizes, os enfermeiros actores e o chefe da clínica um italiano da máfia. Eu estava convencido dessa verdade. Ajudou-me a perceber que a nossa relação com a verdade é muito complicada. E depois é isso, qualquer coisa que eu faça penso se terei tempo para a terminar. De resto, mais nenhuma mudança nas minhas convicções profundas. Só uma consciência mais precisa da nossa precariedade.”

E como se a conversa fosse um ciclo que se fechasse por causa de 35 anos de poesia em 70 anos de vida. Mas há ainda muitas perguntas a ecoar. Sobre a linguagem outra vez, uma ideia catastrofista de mundo, como lhe apontam os amigos acerca de achar que este não chega para todas as aspirações materiais do Homem. Tudo aqui é político, ou quase. E a conversa poderia então ser uma espiral, com Manuel Resende a inspirar no fim da frase, como para recuperar fôlego ou dar o sinal de que terminou a ideia, mas que há sempre outra a seguir. Haja tempo.