“Crimes gravíssimos”: PS assume incómodo com suspeitas de corrupção no Governo Sócrates

Depois do presidente do partido, Carlos César, também o número dois do Governo, Santos Silva, e o porta-voz socialista, João Galamba, quebraram o silêncio sobre os casos Pinho e Sócrates que voltam a ensombrar o próximo congresso.

Santos Silva diz que Costa falará "quando entender"
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Santos Silva diz que Costa falará "quando entender" Reuters/PEDRO NUNES

A cerca de três semanas do congresso do PS, o último antes das eleições legislativas de 2019, a cúpula socialista mudou de rumo no discurso sobre as suspeitas de corrupção que envolvem o antigo primeiro-ministro e o seu ministro da Economia e passou a mostrar-se “envergonhada”, “perplexa” e até “enraivecida” com a possibilidade de as suspeitas se virem a confirmar.

Depois de Carlos César e Fernando Medina, foi a vez do ministro dos Negócios Estrangeiros – primeiro-ministro em exercício por ausência de António Costa do país – ir à televisão afirmar que as suspeitas que recaem sobre antigos governantes correspondem a “crimes gravíssimos”.

“São suspeitas sobre comportamentos que, a terem existido, significam crimes gravíssimos, mas eu não confundo suspeitas com acusações”, disse Augusto Santos Silva na SIC Notícias, referindo-se ao caso das “mesadas” do BES que terão sido pagas a Manuel Pinho enquanto ministro. Santos Silva quis sublinhar que Pinho ainda não foi objecto de interrogatório no processo em que é arguido, pelo que ainda não existe uma acusação formal: “Quando for acusado seguirá o seu processo no sítio próprio que são os tribunais”, frisou.

Questionado sobre se se sente enganado, uma vez que era ministro do mesmo governo de Manuel Pinho e José Sócrates, Santos Silva respondeu: “Sentir-me-ei se se verificar que algum dos meus colegas de Governo, seja ele quem for, cometeu crimes no exercício. Sentir-me-ei evidentemente enganado e sentiria que, mais importante que o meu engano pessoal, a confiança que as pessoas depositaram em sicrano ou beltrano teria sido traída”.

Sobre o silêncio de António Costa, Augusto Santos Silva afirmou estar a falar enquanto primeiro-ministro em exercício, e respondeu: “O primeiro-ministro falará no tempo próprio”.

Também o porta-voz do PS, João Galamba, se manifestou publicamente, e na mesma noite, incomodado com as suspeitas, mas começando por Sócrates: “Ver ex-dirigentes – no caso um secretário-geral do PS que foi ex-primeiro-ministro – acusado de corrupção, branqueamento de capitais, etc – é algo que envergonha qualquer socialista, sobretudo se as matérias pelas quais é acusado se vierem a confirmar”, disse também na SIC Notícias. E sobre o caso de Manuel Pinho, “idem”.

Quando lhe perguntaram porque é que só agora é que o PS está incomodado, João Galamba reagiu: “Mas acha que o PS esteve alguma vez não incomodado? Não, esteve sempre incomodado”. Sublinhou mesmo que, desde que José Sócrates foi detido, em Novembro de 2014, “houve muita gente que pediu que o partido se envolvesse na defesa do ex-primeiro-ministro e o PS manteve-se sempre afastado disso”. “Não há nenhuma mudança de atitude”, concluiu.

Mas Galamba explicou a aparente mudança: “Estamos sobretudo perplexos com a revelação pública de que houve um ministro de um governo, neste caso do PS, em que há provas de que esse ministro recebia mensalmente verbas quando disse publicamente que tinha cessado toda e qualquer relação com o Banco Espírito Santo”.

Duarte Marques, o deputado do PSD que fez o contraponto com João Galamba na rubrica “Esquerda-Direita” daquele canal televisivo, fez questão de sublinhar que “houve uma grande evolução no caso de João Galamba e Carlos César, que foram pessoas que nunca foram conhecidas por terem grandes divergências com José Sócrates, virem pelo menos assumir agora que é um embaraço para o partido”. Mas considerou que o embaraço é “para toda a classe política”.

“O problema”, rematou o social-democrata, “é que há muita gente que trabalhava com Manuel Pinho, que foi colaborador de Manuel Pinho e colega de Manuel Pinho no Governo, que estava ao seu lado, foi do seu gabinete ou de outros – tal como foram de José Sócrates – e a maioria deles estão hoje no governo de António Costa.

José Sócrates foi detido em 21 de Novembro de 2014, dia em que se realizaram as directas do PS que consagraram a liderança de António Costa, e uma semana antes do congresso da sua entronização. Logo à entrada para esse conclave, o actual primeiro-ministro haveria de marcar a pauta para esse assunto: silêncio e separação da política e da justiça. “Não me ouvirão a comentar decisões boas ou más” da Justiça, avisou logo, dizendo que a prisão preventiva do ex-primeiro-ministro não seria tema daquela reunião magna. Agora, a pauta para o congresso de 27 a 29 de Maio em Batalha é a mesma, mas a vergonha já não é escondida.