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Mafalda G. Moutinho é fundadora e editora da Plataforma Bisturi Cidadania Ativa

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Irmã, eu acredito em ti!

Em que mundo cão vivemos nós para que alguém considere que uma mulher, isolada por cinco matulões, aos quais disse claramente "Não", tenha força para impedir uma violação?

Quando um ser humano é verdadeiramente agredido, toda a sociedade é atingida. E foi através deste mote que a sociedade espanhola inundou as redes sociais e várias ruas, manifestando-se perante a decisão de um juiz sobre um caso de violação em grupo a uma jovem de 18 anos, no decorrer das festas de San Fermín, em Pamplona.

Em que mundo cão vivemos nós para que alguém considere que uma mulher, isolada por cinco matulões, aos quais disse claramente "Não", tenha força para impedir uma violação? E que mundo cão é este para a humilhar, em pleno tribunal, considerando que demonstrou consentimento e prazer perante tal situação hedionda?

Uma coisa é certa: se nos recordarmos do recente caso da mulher adúltera, julgada de forma machista, num dos nossos tribunais, percebemos que o mundo cão espanhol é, em tudo, semelhante ao português.

Não fará sentido que a opinião pública se manifeste perante o machismo que ainda corre nas veias de alguns seres humanos, por este mundo fora? Esta pergunta faço-a a todos os que consideram que está na moda "trazer a mulher" para debate, como sendo a vítima de tudo e mais alguma coisa.

Vivemos numa sociedade onde a terceira mão humana, a nossa mão digital, facilita a ocorrência destes crimes. Uma sociedade onde os jovens não reconhecem o significado de um "não", não sabem lidar com o sofrimento e com as inseguranças, gostam de reflectir em bullying e violência. Uma sociedade que estimula para o imediato, a sentir sem medida e sem limites na adrenalina do poder, assente numa "liberdade" para fazer tudo o que nos apetecer, sem considerar os outros.

Mas esta é a mesma sociedade que tem saído à rua, e bem, para revelar tantas das suas outras maleitas. Tem trazido a público a desigualdade de género e a violência contra homens e mulheres, através da mesma terceira mão, que facilita estes crimes.

É certo que crimes contra homens e mulheres sempre ocorreram, mas hoje as ferramentas para lutar contra estes crimes são outras e, infelizmente, estas mesmas ferramentas fizeram com que estes crimes aumentassem.

E, com isto, respondo aos que acham que estamos todos a exagerar com esta "moda" de denunciar os nossos podres sociais em praça pública, através da ajuda dos media e das redes sociais, que são, claramente, o quarto poder, na escala mundial.

Hoje a vítima foi esta jovem, mas amanhã pode ser alguém que nos é querido, homem ou mulher. Não tenho dúvidas que todos gostaríamos de ver esta pessoa ser defendida, ao invés de desacreditada e humilhada, no tribunal dos homens.

Recordo-me de uma experiência que vivi no Verão passado, na qual ia sendo assaltada, não querendo, sequer, perspectivar as implicações piores que aquela situação não consumada me sugestionou na época. Tive a sorte de ver cair dos céus um taxista que afugentou os agressores. E recordo-me de, no meio do medo, encontrar conforto na chamada que fiz à minha melhor amiga que, uma vez mais, esteve lá para mim.

Desde essa época que aconselho a defesa pessoal a todos os que me rodeiam. Infelizmente, para esta jovem espanhola, de pouco serviria a defesa pessoal perante a força bruta de cinco homens com o dobro do seu tamanho. Esta situação é absolutamente revoltante.

Isto tudo para dizer que: Hermana, yo sí te creo!