Pouco impressionados com o Exército, os traficantes do Rio contam os dias até ao fim da operação militar

O tráfico de droga continua, como sempre, e os líderes dos maiores gangs da cidade não querem deitar tudo a perder com uma declaração de guerra às autoridades. Mas dizem que se os militares forem às favelas serão recebidos com “ainda mais força”.

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Militares na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro Ricardo Moraes/Reuters

“Será que o Exército vai travar este ciclo de violência?”, pergunta um líder do Comando Vermelho, o maior grupo de traficantes de droga do Rio de Janeiro (Brasil), enquanto os seus subordinados pesam marijuana e cocaína numa balança digital na favela que lhes serve de base. “Nem pensar.”

Estes comentários, feitos à Reuters durante uma rara visita aos líderes dos dois mais poderosos grupos de traficantes de droga, foram feitos dois meses depois de o Presidente, Michel Temer, ter enviado 30 mil soldados para a cidade, com o argumento de que o crime organizado “tomou conta do Rio de Janeiro”.

Os líderes destes grupos são criminosos procurados pela polícia devido ao seu envolvimento em actos de violência relacionados com o tráfico de droga.

O seu ponto de vista, que a Reuters foi ouvir numa tentativa de perceber os dois lados da violenta divisão que existe no Rio, revela a existência de organizações sem remorsos das suas actividades criminosas, mas que não pensam em atacar os militares – cuja presença na cidade é vista, na pior das hipóteses, como uma inconveniência temporária.

“Nada vai mudar”, diz um líder do Terceiro Comando Puro, o segundo mais poderoso grupo de traficantes do Rio e arqui-rival do Comando Vermelho. A sua ideia é simples: desaparecer dos radares durante a intervenção militar, enquanto os seus subordinados continuam a vender droga. “Voltarei ao trabalho quando eles se forem embora”, acrescenta.

Passados dois meses de uma operação militar desenhada para durar dez, esta área metropolitana com mais de 12 milhões de habitantes está ainda mais tensa do que dantes – dilacerada pelo recente assassínio da vereadora Marielle Franco e pela morte de oito jovens às mãos da polícia na Rocinha, a maior favela do Rio.

Estas mortes somam-se a um crescente número de homicídios, que registou um pico quando a recessão atingiu a economia brasileira e abalou o orçamento do Rio de Janeiro para a segurança. Em apenas três anos, à medida que a polícia foi ficando sem vencimentos e com equipamento ultrapassado, o número de mortes violentas no Rio subiu 35%, segundo os dados oficiais.

Embora o Rio seja palco de violência há décadas, o recente aumento no número de homicídios é o indicador mais sinistro dos muitos que têm levado a população local ao desespero. Antes da recessão, muitos acreditavam que a cidade tinha dado a volta por cima, a crescer com o dinheiro da exploração petrolífera e com a organização do Mundial de Futebol em 2014 e dos Jogos Olímpicos em 2016.

Agora, o chefe do Exército brasileiro, o general Eduardo Villas Bôas, diz que não há uma solução rápida para a violência no Rio – uma violência que opõe uma polícia mal equipada a grupos de traficantes e milícias paramilitares que controlam grandes partes da região metropolitana.

Em Março, o primeiro mês completo com o Exército no controlo da segurança, foram registadas 191 mortes violentas dentro dos limites da cidade do Rio, um aumento de 24% em relação a Fevereiro. As mortes de suspeitos pela polícia subiram 34% no mesmo período.

Apesar de os militares dizerem que vão trabalhar para reestruturar a polícia e eliminar as conhecidas bolsas de corrupção no seu seio, as soluções ideais devem ser “de muito longo prazo”, disse o general numa conferência de imprensa em Março. Os problemas do Rio resultam de “décadas e décadas de negligência e de não se dar resposta às necessidades mais básicas da população”, acrescentou.

“Sem impacto real”

Quase um quinto da população do Rio vive em favelas, bairros em permanente crescimento onde muitos vivem sem água, esgotos ou recolha de lixo. As favelas são a casa de milhões de cidadãos cumpridores da lei, mas também dos traficantes de droga mais poderosos, que se aproveitam da ausência de estruturas do Estado.

Apesar do papel que têm no tráfico de droga, que dilacera comunidades e provoca guerras sangrentas entre gangs, há muito que os traficantes vêm substituindo o Estado no papel de forças de segurança. Os gangs são tolerados, e até mesmo bem recebidos, por muitos residentes que temem uma polícia de gatilho fácil.

Os assassínios de Março na Rocinha são típicos das sinistras contradições que muitas vezes rodeiam as operações da polícia, muitas delas nunca investigadas. Embora a polícia diga que os jovens eram traficantes de droga, as famílias deles negam a existência de qualquer ligação a gangs.

A Reuters passou três dias e três noites nos bastiões do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro. Os seus líderes, que falaram sob a condição de anonimato e de que a sua localização exacta não iria ser revelada, discutiram a intervenção militar e a grande divisão social que, em grande parte, lhes permite terem tanto poder.

Não falaram sobre crimes específicos nem sobre os casos mais recentes.

Vários subordinados, armados com pistolas e espingardas de tipo AR-15, montavam guarda à volta dos esconderijos de ambos os grupos. Não foram vistos nas redondezas nem soldados nem polícias, os mesmos que têm a responsabilidade pela segurança no dia-a-dia. 

Soldados jovens e inexperientes

O líder do Comando Vermelho, que começou como vigia há três décadas, com 11 anos de idade, disse que não se espera muita interferência durante a operação militar. Em 2014 e 2016, quando foram enviados soldados para o Rio por causa do Mundial de Futebol e dos Jogos Olímpicos, o negócio do tráfico de droga mal foi afectado.

“Eles já tentaram”, disse. “Não houve um grande impacto na violência nem na nossa capacidade para actuar.”

Isso aconteceu, em parte, porque os gangs são originários das cerca de mil favelas do Rio, são os seus verdadeiros governantes, e muitas vezes estão mais bem equipados do que as forças policiais. Não controlam apenas o tráfico de droga – têm também a autoridade, especialmente em momentos de conflito, para ordenarem o encerramento de lojas e escolas.

“Para nos conseguirem atacar, têm de transformar isto numa guerra urbana”, disse o líder do Comando Vermelho. “Os gangs, sejam eles quais forem, fazem parte da favela. Nós somos daqui, fazemos parte deste tecido. Como é que eles vão conseguir resolver isto sem uma matança?”

O líder do Terceiro Comando Puro, que falou com a Reuters numa favela a 25 quilómetros de distância da zona controlada pelo Comando Vermelho, disse que as anteriores operações militares deram a entender aos gangs, após vários confrontos, que eles têm mais experiência em combate do que os soldados que são enviados para as favelas. 

Afinal, o Exército do Brasil não participa numa guerra há quase 150 anos.

“Os soldados são jovens inexperientes. Nós vimos muitos mais combates do que eles. A verdade é que eles não querem vir atrás de nós.”

O Exército brasileiro não respondeu aos pedidos de comentários para além dos que foram feitos pelo general Villas Bôas.

Alguns especialistas em segurança que não estão envolvidos na intervenção militar concordam com a avaliação dos gangs. Na melhor das hipóteses, dizem, os militares podem ajudar as autoridades do Rio a analisarem os problemas de uma força policial conhecida pela sua corrupção, violência e ineficácia. “O melhor que poderá sair disto é que o Exército faça um bom diagnóstico dos desafios”, disse Paulo Storani, um antigo comandante da polícia do Rio que trabalha agora como consultor de segurança.

Nas caóticas ruas das favelas onde os gangs actuam, não é difícil ver os desafios. O lixo amontoa-se ao longo de ruas cheias de buracos, onde o barulho de motores e de buzinas esganiçadas saem de motocicletas em ziguezague pelas multidões.

Na favela onde a Reuters se encontrou com o líder do Comando Vermelho, um grupo de jovens, de tronco nu e sem sapatos, corriam uns atrás dos outros. Fingiam disparar tiros com pistolas feitas de esferovite.

A poucos metros de distância, um grupo de adolescentes transportava armas a sério. Alguns estavam sentados em motocicletas Kawasaki, outros encostados a carros, com pistolas Glock de 9 mm à cintura.

“Aqui, estamos por nossa conta”, diz Flávia Rocha, uma mãe de 26 anos que gere uma pequena mercearia. Lamenta-se da qualidade do governo em todo o Rio de Janeiro, uma cidade e um estado onde todos os governadores eleitos nas últimas duas décadas foram condenados por corrupção, enfrentam acusações ou estão a ser investigados. “E as pessoas perguntam-se porque é que estas áreas passaram a ser dominadas por criminosos”, diz Flávia Rocha.

À medida que as instituições do Rio foram ruindo, os gangs foram crescendo em força, dizem os líderes do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro. Não só foram conseguindo recuperar território que a polícia tinha ocupado antes da recessão, como deixaram de se sentir na defensiva.

“Se a polícia vier, estamos mais fortes do que dantes, e podemos combater com ainda mais força”, diz o líder do Terceiro Comando Puro.

Reuters Investigate