Pode uma mercearia do Médio Oriente ser uma prova de amor (e futuro) em Portugal?

Há dois anos a viver em Portugal, um casal de palestinianos prepara-se para abrir uma mercearia recheada de produtos típicos da gastronomia árabe no Mercado de Arroios, em Lisboa. Zaytouna abre oficialmente ao público esta quinta-feira.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Nos últimos tempos, sempre que os clientes do Mezze lhe perguntavam onde podiam encontrar os ingredientes para cozinhar em casa o que tinham acabado de provar no restaurante liderado por refugiados do Médio Oriente, aberto em Lisboa em Setembro do ano passado, a palestiniana Serenah Sabbat pedia-lhes só um pouco mais de paciência. “Esperem um bocadinho, esperem um bocadinho. Está a chegar”, reencena agora, sentada num dos puffs da nova loja do Mercado de Arroios. A espera terminou. Zaytouna, uma mercearia recheada de produtos típicos da gastronomia árabe, é inaugurada esta quarta-feira ao final da tarde. Dia 3 de Maio abre oficialmente ao público.

A três portas do Mezze é agora possível encontrar muitos dos ingredientes que compõem os pratos incluídos no menu do restaurante, assim como caixas de doces, frascos de picles e outras iguarias típicas da região. Sobre as prateleiras, há mais de 30 variedades de especiarias, garrafas de xarope de romã (utilizado na receita de baba ganoush, por exemplo), embalagens de bulgur, frike (dois tipos de trigo), pastas de tamarindo e de damasco ou preparado de falafel, assim como yalanji (folhas de videira para rechear ou já enroladas em arroz e especiarias) e uma selecção de favas enlatadas, preparadas ao sabor de cada país. “Temos a receita libanesa, síria, egípcia, palestiniana”, vai enumerando Serenah ao passar o indicador pela estante.

A ideia de abrir uma mercearia especializada na gastronomia do Médio Oriente nasce de uma “necessidade pessoal”, confessa o casal palestiniano à frente do novo espaço. “Quando chegámos a Portugal não conseguíamos encontrar os produtos que precisávamos”, recorda Hendi Meshle. A diversidade de produtos era pouca, alguns de fraca qualidade, outros muito caros. “Uma pequena lata de tahini custava uns 5,50€, o que para nós era muito caro porque usamos tahini em muitos pratos”, exemplifica Hendi. Era “preciso um salário” só para usar a pasta de sésamo, ingrediente principal de receitas como hummus ou baba ganoush. “Não comemos tahini durante bastante tempo”, conta Serenah, de 25 anos.

PÚBLICO -
Foto

Os “preços acessíveis” são, por isso, um dos factores que destacam na nova mercearia. “Não se pretende que seja uma loja gourmet, mas sim que tenha preços acessíveis para o consumo diário”, reforça Catarina Morais, empresária portuguesa que está a apoiar o casal no lançamento do projecto. A maioria dos produtos é da marca síria Durra, outros vêm de fábricas da Jordânia, da Líbia, da Palestina, do Líbano. Quase tudo importado a partir da Bélgica, onde Serenah e Hendi moraram durante três anos, até trocarem Bruxelas por Lisboa em Maio de 2016. “Lá já sabíamos onde obter as coisas e é muito mais fácil encontrá-las porque vivem muitos árabes [no país]”, explica Serenah. “Tínhamos tudo para [o projecto] funcionar e com a ajuda da Catarina isso aconteceu.”

Na verdade, não só da voluntária que conheceram na Refugees Welcome Portugal, que tinham contactado para receber aulas de português, como de “todos os amigos” que fizeram entretanto no Mezze (e não só). “Nunca tinha ouvido falar do projecto, mas viemos a um evento no Mercado de Arroios e, por acaso, eles estavam aqui com amostras, a ver como as pessoas reagiam à comida. Conhecemo-los, comemos hummus. Estava muito contente por encontrar árabes com quem conversar mas não prestei muita atenção depois”, recorda Serenah, com um sorriso. Já não se lembrava que tinha sido aqui que tudo tinha começado. Um ano depois, o projecto do Mezze transformava-se em restaurante e convidavam-na para trabalhar lá como empregada de mesa. E, agora, um novo capítulo escreve-se uma vez mais na casa de partida.

PÚBLICO -
Foto

“Já tínhamos encontrado alguns espaços para arrendar à volta do bairro mas depois soubemos que a Câmara Municipal estava a abrir concursos públicos para estas lojas do Mercado de Arroios.” A localização dificilmente poderia ser melhor. Por um lado, mantêm a ligação quase umbilical ao Mezze, onde Serenah vai continuar a trabalhar. “Sinto-me muito bem lá, não é só um trabalho, é uma atmosfera familiar que me faz sentir em casa.” Por outro, os produtos frescos à venda nas bancas do mercado tornam-se um complemento essencial aos ingredientes vendidos na loja. “Acho que é uma combinação muito boa”, defende Hendi. “Há vegetais que nós usamos muito e que são difíceis de encontrar, como beringelas ou curgetes bebé, mas vamos fazer uma parceria com vendedores do mercado e sempre que alguém vier cá à procura [desses ingredientes] reencaminhamos para eles.”

Com formação em fotografia e produção cinematográfica, Hendi confessa que nunca tinha imaginado um futuro atrás do balcão de uma mercearia. Mas para o palestiniano de 35 anos, esta não é uma mercearia qualquer. “Não estou a vender uma garrafa de água ou um maço de tabaco, estou a comunicar com outras pessoas e a mostrar-lhes a nossa cultura através da comida.” Quer falar-lhes dos produtos e das tradições, mostrar as diferentes receitas que vão estar disponíveis para consulta, explicar como se confecciona ou onde encontrar o que falta. O próximo passo será aprenderem a falar fluentemente português, o aspecto que consideram ser “o mais importante” para uma completa integração na sociedade portuguesa e imprescindível para fazer “o negócio crescer”.

É que é em Lisboa que querem construir um futuro. Há dois anos, vieram em busca do sol e da segurança que não sentiam ter em Bruxelas. Encontraram um país com paisagens “lindas” e uma cultura mais próxima da que tinham deixado ao abandonar a Palestina em 2013. “A comida, as tradições, as pessoas mais abertas e acolhedoras”, enumeram. O nome da mercearia, que significa azeitona em árabe, vem ligar os dois mundos a que agora chamam casa. “Queríamos que tivesse uma ligação ao português e ao árabe e como temos reparado que existem muitas palavras em comum decidimos escolher uma associada a comida”, contam. “A oliveira tem muito simbolismo para os palestinianos porque é uma árvore que tem raízes muito fortes no solo.” Raízes que os ligam ao território onde nasceram. Raízes que querem fortalecer onde o “coração agora bate”. “Nunca pensámos em abrir isto noutro lugar. Fazemo-lo em Portugal simplesmente porque nos sentimos em casa, seguros e muitos felizes aqui.”