Opinião

Memórias de uma adolescência veloz

De forma muito corajosa e afoita, desviei dois capacetes da arrecadação lá de casa, pintei-os e usei-os orgulhosamente durante a minha adolescência, tentando imitar os mestres da velocidade que eu via todos os domingos na televisão da cozinha.

1 de maio de 1994: o dia mais negro de que há memória na história dos desportos motorizados. O dia da morte de Ayrton Senna!

Recordo-me como se fosse hoje. Eu tinha 15 anos na altura e estava a almoçar, em casa, e como habitualmente, domingo sim, domingo não, víamos a Fórmula 1. No domingo não, assistia-se ao Moto GP. Numa altura em que a televisão por cabo estava ainda num horizonte longínquo, em que a SIC e a TVI estavam ainda em idade pré-escolar. Há 24 anos era o tempo em que eu devorava tudo quanto era velocidade, Senna, Prost e Piquet, Mick Doohan e Kevin Schwantz eram os nomes que me colavam ao ecrã.

Estas recordações são muito visíveis para mim. Os duelos, que eu e os meus companheiros de velocidade tentávamos replicar nas nossas DT 50 LC, as ultrapassagens que também imitávamos, e eram sempre tão bem conseguidas por quem tinha a mota “quitada”, o som da velocidade dos F1 e das 500, que era fielmente reproduzido por quem tinha o famoso escape de rendimento na sua motorizada.

E os capacetes! Todos nós com as cabeças enfiadas em réplicas dos grandes nomes da velocidade. Eu era tão mas tão aficionado que pintei dois capacetes antigos do meu avô. Também eu queria ter os meus objectos identificativos, personalizados, únicos. Idealizados e materializados por mim. À semelhança do que faziam os grandes artistas da Zozimo Designs, marca nascida nos de 1990. Lembro-me de ter usado umas tintas manhosas que depois envernizei por cima. O resultado até foi aceitável, e estou a ser generoso, para um adolescente de 15 anos que iniciava a procura da sua identidade artística, dando os seus primeiros passos no mundo das artes. Podia tê-lo feito com aerógrafo, mas não era a mesma coisa. Nem tão-pouco havia flexibilidade familiar para comprar um aerógrafo com o objectivo único de pintar dois capacetes. Capacetes esses que nem sequer se deviam usar para circular nas estradas. Usei uma técnica que conhecia bem, o stencil! Na época o stencil e os “Che Guevaras” dominavam as paredes pintadas de preto. Se é que me percebem...

E eu, de forma muito corajosa e afoita, desviei dois capacetes da arrecadação lá de casa, pintei-os e usei-os orgulhosamente durante a minha adolescência, tentando imitar os mestres da velocidade que eu via todos os domingos na televisão da cozinha.