Que segredos esconde o genoma da rosa?

Pela primeira vez, foi sequenciado todo o genoma de uma espécie de rosa. Conseguiu-se assim perceber melhor o sucesso da domesticação da rosa moderna.

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Rosa moderna Pascal Heitzler
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Rosa moderna M. Bendahmane

Não é em vão que as rosas estão entre as flores ornamentais mais cultivadas em todo o mundo. Seja pelo perfume ou pelas cores, foram-nos conquistando com a sua beleza. Mas que segredos escondem? Um consórcio de cientistas de França e da China quis desvendá-los e publicou esta segunda-feira na revista científica Nature Genetics a primeira sequenciação a todo o genoma de uma mini-rosa. Entre outras conclusões, revelam que esta rosa está muito próxima (a nível evolutivo) do morango e da framboesa.

As rosas modernas têm um genoma complexo. Mas é fulcral descodificá-lo para que se possa saber mais sobre as várias espécies de rosas, assim como melhorar as qualidades desta flor em pleno período de alterações climáticas. Este é logo um dos avisos que os cientistas deixam num resumo sobre o trabalho. Em estudos anteriores já se tinham feito montagens do genoma da rosa, mas estas ficaram bastante fragmentadas e era difícil decifrá-las.

O género Rosa tem mais de 200 espécies e os cientistas escolheram para esta sequenciação a Rosa chinensis (ou mini-rosa). É originária da China e um dos grandes antepassados das variedades modernas de rosas que brotam várias vezes ao ano em todo o mundo. Sabe-se que a Rosa chinensis foi introduzida na Europa no século XVIII. “Esta espécie é considerada uma das espécies principais que participaram no extenso projecto de hibridização com rosas de zonas da Europa, do Mediterrâneo e do Médio Oriente”, lê-se no artigo científico.

Usando ferramentas inovadoras, os cientistas sequenciaram e montaram sete pares de cromossomas da rosa e caracterizaram todos os seus 36.377 genes. “Não foi uma tarefa fácil e, com que saibamos, este é uma das sequenciações e montagens mais completas do genoma de uma planta até ao momento”, diz ao PÚBLICO Mohammed Bendahmane, do Laboratório de Reprodução e Desenvolvimento de Plantas da Universidade de Lyon (França), e coordenador do estudo. “Montámos e construímos um genoma de elevada qualidade.”

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Rosa chinensis Sakurai Midori

Comecemos por conhecer os familiares mais próximos da rosa. Para isso, a equipa comparou o genoma da flor com o de outras plantas da família Rosaceae, como o do morango, da framboesa, da maçã, da pêra, do pêssego e da ameixa. Concluíram que o morango e a framboesa são as plantas mais próximas da rosa. Já os mais afastados são a maçã e o pêssego. “Permite-nos reconstituir genomas ancestrais ao longo da evolução da família Rosaceae”, adianta Mohammed Bendahmane num resumo sobre o estudo.

Também se quis perceber as razões do sucesso da domesticação das rosas modernas. Por isso, a equipa sequenciou genomas de espécies de rosas ancestrais e de novos híbridos. “Identificou-se a origem de genes envolvidos na definição das características mais populares na rosa moderna, como a floração múltipla que tem uma origem chinesa”, indica Mohammed Bendahmane.

Ainda conseguiram decifrar os principais genes e reconstituir as vias biossintéticas envolvidas na floração, no desenvolvimento da flor, na reprodução, na fragância e na síntese do pigmento que está na origem da cor da rosa. “Em particular, destaca-se um grupo de genes envolvidos simultaneamente na regulação da cor e na fragância da flor”, frisa o cientista.

“Este trabalho fornece uma base sólida ao desvendar mecanismos moleculares e genéticos que regem as características da rosa e da sua diversidade”, acrescenta ainda. Estes novos conhecimentos podem ser úteis para o estudo de outras espécies da família Rosaceae e de outras plantas ornamentais, assim como uma ajuda para conceber variedades de rosas com qualidades que consigam adaptar-se às alterações climáticas.

Esperemos então que este trabalho seja um bom contributo para que as rosas continuem nos nossos jardins e varandas com a mesma beleza de sempre.