Opinião

Itália: a nave dos loucos

Depois de uma campanha eleitoral marcada por insultos, os partidos parecem “jogar a vida ou a morte”. As combinações envolvem três pólos, mesmo se a negociação é a dois, pois uns podem mudar de parceiro e todos usam vetos cruzados. Só será possível um governo formado por “forças antagonistas” que temem trair os eleitores. É um nó cego.

A crise italiana não pára nas fronteiras. A terceira maior economia da UE volta a ser encarada como um factor de risco. Mais do que económico, o risco é de natureza política. As eleições de 4 de Março começaram por trazer a perspectiva de um governo soberanista e populista — Movimento 5 Estrelas (M5S) e Liga. Afastada de momento esta hipótese, desenha-se um bloqueio político e a ameaça de desagregação do que resta do antigo sistema partidário. Não é a habitual “política à italiana”, é um quadro inédito. Chamam-lhe “a nave dos loucos”.

O economista Carlo Bastasin adverte os seus compatriotas sobre o crescimento do “italocepticismo” na Europa após as eleições de 4 de Março. A grande maioria dos italianos seria hostil às políticas económicas europeias. “Esta leitura dos sentimentos políticos italianos ressuscitou no estrangeiro o ‘italocepticismo’, ou seja, a dúvida sobre a possibilidade de a Itália permanecer na moeda única e respeitar espontaneamente o sistema de regras que preside à política económica: finanças públicas sãs e reformas.”

A competição eleitoral foi marcada por um confronto entre forças europeístas e soberanistas, com vantagem para estas. É uma constatação a relativizar, porque o tema não dominou oficialmente a campanha. Mas esteve subliminarmente presente, superando as linhas da clivagem esquerda-direita. Passadas as eleições, a Liga, de Matteo Salvini, moderou tacticamente o soberanismo de forma a facilitar as negociações políticas. Também Luigi di Maio, “chefe político” do Movimento 5 Estrelas (M5S) e especialista da política aos ziguezagues, fez uma inesperada viragem pró-europeia: quer abandonar o grupo eurocéptico no Parlamento Europeu e aliar-se ao partido de Macron. Entretanto, tanto a Liga como o M5S apresentaram programas económicos que aumentam a dívida e o défice. Salvini aguarda as eleições europeias de 2019 para colocar tema no centro da política italiana.

O risco é político

Soam sinais de alarme, já não em termos económicos mas políticos. A abertura de negociações entre o M5S e o Partido Democrático (PD) não suscita grandes expectativas e não afasta a hipótese de eleições antecipadas em Setembro (ver PÚBLICO de ontem).

Avisa o antigo ministro socialista Francesco Forte: “A questão é que as eleições antecipadas poderiam ser úteis, se a Itália fosse livre de escolher. Mas arriscamo-nos a uma tutela, se não pusermos em prática um programa quadrienal de redução da dívida e de reestruturação da economia para resolver o problema do desemprego. (...) E o sistema bancário não está de nenhuma forma normalizado.”

Não é inédita, nem dramática a ausência de um governo 55 dias depois das eleições. Mas a situação de bloqueio a que se chegou envolve muito mais do que o risco das eleições antecipadas que o Presidente, Mattarella, quer evitar. Ameaça destroçar o que resta do sistema partidário. Segundo os cenários pessimistas, o centro — centro-esquerda e centro-direita — estaria em vias de desaparecer para dar lugar a um novo bipolarismo: Cinco Estrelas e Liga.

O antigo modelo bipolar foi posto em causa nas eleições de 2013 e “liquidado” nas eleições de Março. O PD pôde governar após 2013 graças ao apoio de Berlusconi, que temia sobretudo a ameaça de o M5S destruir o “sistema”. Com as eleições de Março reemergiram os três pólos: o M5S, o centro-direita, agora dominado por Salvini e já não por Berlusconi, e o Partido Democrático (PD), em perda de velocidade.

Nenhuma das forças pode governar sozinha, nem tem aliados “naturais”. As combinações políticas envolvem três actores, mesmo se negociarem a dois, pois podem mudar de parceiro. Todos têm poder de veto. Por fim, só há a possibilidade de “um governo formado por forças antagonistas”, para utilizar a expressão do jornalista Pierluigi Battista.

PD e M5S

Numa situação normal, os partidos negociariam e fariam acordos de programa sem perderem a sua identidade. Na Itália, depois de uma campanha eleitoral crispada e marcada por insultos, os partidos parecem estar a “jogar a vida ou a morte” ou a “trair os eleitores”. Estão encurralados entre a pressão do presidente Mattarella, em nome da necessidade de formarem um governo num momento grave para a Itália, e o risco de explosão dos seus partidos. É este dilema que diferencia o actual quadro dos precedentes. A primeira negociação foi entre os vencedores, M5S e Liga. A ruptura aconteceu por o Cinco Estrelas não poder aceitar a participação de Berlusconi e por Salvini ainda precisar do Cavaliere para reorganizar a nova direita. A negociação entre o PD e o M5S foi arrancada a ferros. E Di Maio cedeu para não ficar isolado.

O primeiro “mandato exploratório”, confiado por Mattarella à berlusconiana Elisabetta Caselatti, presidente do Senado, quase fez explodir o centro-direita e debilitou Berlusconi, talvez definitivamente. O segundo mandato, a cargo de Roberto Fico, do M5S e presidente da Câmara de Deputados, ameaça provocar a ruptura do PD e abrir brechas no Cinco Estrelas.

Depois do desaire eleitoral de 4 de Março, Renzi demitiu-se do cargo de secretário nacional, mas não abandonou a cena. Declarou vetar qualquer acordo com o M5S e exigiu que o PD passasse à oposição. “Que governem os vencedores.” Teme, com alguma lógica, o risco de uma “OPA” do M5S sobre o eleitorado do PD. Uma parte da direcção do partido, encabeçada pelo “regente” Maurizio Martina, defende a necessidade de negociar com o M5S. Martina quer a todo o custo evitar eleições, que se anunciam como desastrosas. Renzi prefere eleições à aliança para retomar o controlo do partido e dirigir a oposição ao M5S. A linha de Renzi tem, de momento, o apoio da maioria da direcção. Só no dia 3 de Maio o PD tomará uma decisão. Embora improvável, o risco de cisão existe.

Outra hipótese é o PD tentar impor ao M5S o essencial do seu programa: “Impedir a destruição das reformas já feitas.” Ou seja, o vencido imporia as condições ao vencedor. A situação é paradoxal: vencido nas urnas, o PD tornou-se o “fiel da balança”, aquele que pode permitir ou rejeitar um governo. Mas este privilégio é igualmente um fardo.

Também o M5S, aparentemente compacto, é atravessado por tensões. A ala “movimentista”, dos “tempos heróicos” de Beppe Grillo, digeriu muito mal a conversão do movimento em partido e a eleição de Di Maio como “chefe político”, preferindo o regresso à política de protesto. Corre, nas redes sociais, uma vaga de repúdio de um acordo com o “execrável” PD. Muitos pensam que Di Maio gostaria de voltar a conversar com Salvini.

O M5S, mal preparado para governar, enfrenta o desgaste da “política institucional”. A decisão final caberá ao verdadeiro “patrão”, Daniele Casaleggio, que domina a plataforma digital Rousseau, que controla o movimento.

É arriscado fazer previsões.

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