Rivera suplanta Rajoy em Madrid... e o PP teme que no resto de Espanha também

Sondagem mostra que depois do caso Cristina Cifuentes, o Cidadãos ganharia as eleições na capital espanhola. No Partido Popular teme-se um descalabro eleitoral em 2019, e também nas legislativas de 2020.

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Rajoy e Rivera: o futuro está a passar por aqui? Andrea Comas/REUTERS

Os casos que levaram à demissão de Cristina Cifuentes da presidência da Comunidade de Madrid e do Partido Popular regional fizeram com que o PP perdesse um dos seus bastiões tradicionais: uma sondagem Metroscopia para o El Pais revela que, a um ano das eleições locais, autonómicas e europeias de 2019, o Cidadãos ganharia destacado as eleições em Madrid, com 32,9%. O PP ficaria apenas com 17,7%.

O receio no PP, dizem conselheiros do presidente do Governo, Mariano Rajoy, é que os efeitos da crise de Cifuentes – desencadeada pela descoberta de que obteve um falso mestrado e pelo aparecimento de um vídeo de 2011, em que a dirigente popular é detida por um segurança numa loja por ter roubado um creme – cavem fundo em Madrid e alastrem ao resto do país.

Os populares temem que não surjam candidatos para substituir Cifuentes, que o Cidadãos de Albert Rivera aproveite esta oportunidade para fincar o seu padrão numa região importante não só para as eleições de 2019 como para as legislativas que se devem realizar em Junho de 2020. “O partido ficou K.O.”, disse fonte da direcção nacional do PP ao El País.

Não é segredo que existe uma guerra interna na cúpula dirigente do PP – a secretária-geral, María Dolores de Cospedal, que tem apoiado Cifuentes, é em teoria a número dois de Rajoy, mas o chefe do Governo colocou Fernando Martínez Maillo como coordenador-geral do partido, que tem poder para limitar e controlar as funções de Cospedal. É o seu famoso “jogo de equilíbrios” em acção.

Abundam as suspeitas que a divulgação do vídeo do roubo no supermercado terá tido a ver com esta guerra interna, como forma de forçar o afastamento de Cifuentes, a quem o Cidadãos ameaçava derrubar, juntando-se à moção de censura apresentada pelo Partido Socialista (PSOE) no governo autonómico de Madrid, se não saísse pelo próprio pé.

Não restam grandes dúvidas sobre o título académico fraudulento de Cifuentes – o director do mestrado que o atribuiu, Enrique Álvarez Conde, foi nesta sexta-feira chamado a depor perante um juiz, acusado de falsificação de assinaturas por uma catedrática de Direito Constitucional cujo nome consta no mestrado de Cifuentes. Na denúncia, a professora diz que não foi juiz na prova.

Cidadãos dá melhor futuro

Este é apenas mais um na longa série de casos de corrupção que enredam o PP. Mas, se até agora Mariano Rajoy conseguiu ir navegando à bolina, enfrentando os ventos contrários e aproveitando a fragmentação do eleitorado de esquerda, agora os seus próprios eleitores vêem no Cidadãos de Rivera uma oferta política mais interessante do que no PP. 

Segundo a sondagem Metroscopia, 31 % dos espanhóis considera que o Cidadãos tem um melhor projecto de futuro que os populares – inclusivamente 44% dos que nas últimas eleições votaram em Rajoy. Só 38% dos eleitores do PP consideram que o seu partido é o que tem o melhor programa.

Albert Rivera e o Cidadãos estão a capitalizar a fadiga com Mariano Rajoy, e também o sucesso eleitoral de Inés Arrimadas, a líder do partido de centro-direita na Catalunha. E, sem dúvida, estão a ganhar com o imenso desgaste de imagem do Governo do PP com a crise constitucional na Catalunha – por mais que a luta pela independência catalã tenha sido extremada, a suspensão da autonomia e a prisão dos líderes catalães que defenderam a independência, ainda sem acusação formada, não tem favorecido a posição espanhola.

Por isso, se nas últimas legislativas se assinalava que a vitória do PP tinha sido sobretudo uma vitória de Rajoy, hoje 56% dos eleitores do PP dizem que Rajoy não deveria ser o cabeça de lista nas próximas legislativas, diz o El País. E já em Fevereiro 63% diziam que era tempo de o chefe de Governo se ir embora.