Kim e Moon - promessas e realidade

Na cimeira histórica desta sexta-feira o tom foi cem por cento positivo, as declarações estiveram em acordo em tudo.

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Na cimeira histórica desta sexta-feira, o Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, fizeram promessas e anúncios. Oficializar a paz, desnuclearizar a península, cooperar. O tom foi 100% positivo, as declarações estiveram em acordo em tudo. Era o dia de todas as promessas — “O mundo está a olhar para nós”, reconheceu Kim. E por isso foi dia de alguns exageros: “Declaramos a paz e a prosperidade e a unificação da península da Coreia”, disse o neto do fundador da Coreia do Norte.

Ninguém desvaloriza o simbolismo do encontro entre líderes de países com um passado cultural, linguistico e familiar comum mas com sistemas políticos e económicos profundamente diferentes. Mas que diferença há entre o tom perfeito dos anuncios e a realidade?

Tratado de paz

A 27 de Julho de 1953 foi assinado um armistício entre os comandantes militares da Coreia do Norte, da China e da coligação internacional das Nações Unidas, que abre um regime de tréguas e estabelece uma área tampão de 4km de largura entre as duas Coreias, a zona desmilitarizada, onde decorreu a cimeira. O documento diz que o armistício garante “a cessação total das hostilidades e de todos os actos das forças armadas na Coreia até que um acordo pacífico final seja alcançado”. Sessenta e cinco anos depois, o tratado está por assinar. Kim e Moon declararam a paz, mas não assinaram este tratado. As duas partes querem realizar encontros bilaterais, com a participação da China e dos Estados Unidos, para o oficializar. 

Desnuclearização

É o mais complexo tema do processo de pacificação em curso na península coreana. O programa de armas nucleares e mísseis balísticos intercontinentais da Coreia do Norte acelerou com a chegada ao poder de Kim Jong-un, em 2011. No ano passado, entrou em alta velocidade com uma série de testes — o último deles, em Novembro de 2017, com um míssil balístico que Pyongyang garante ser capaz de atingir qualquer ponto dos EUA. O último teste nuclear foi em Setembro, mas não se sabe exactamente em que estado está a miniaturização das ogivas, passo essencial para o armamento dos mísseis intercontinentais.

Trata-se de um programa que consome grandes recursos e a Coreia do Norte tem uma economia débil - ainda mais enfraquecida pelas sanções e pelo corte nas importações chinesas. Pequim reduziu também a exportação de combustível para a Coreia do Norte. A Coreia do Sul não tem armas nucleares mas está sob a protecção dos EUA, que ali têm um contingente militar com 35 mil homens. Kim e Moon falaram de “alcançar um objectivo”, mas não assumiram qualquer compromisso concreto (apenas a declaração de que vão procurar ajuda internacional para a desnuclearização). A afirmação de Kim sobre a sua disponibilidade para desnuclearizar abriu caminho a esta cimeira e à que se segue, com Donald Trump.

Mas o norte-coreano nunca clarificou se está disposto a abdicar do seu arsenal e instalações. O comunicado conjunto não menciona o desarmamento unilateral norte-coreano nem estabelece prazo para a desnuclearização. A China e Seul têm defendido um processo gradual de desnuclearização com concessões de ambos os lados da fronteira, mas em Washington o tom aponta mais para um desarmamento unilateral no Norte.

Famílias divididas

A guerra e a criação de dois países dividiu muitas famílias coreanas. Em 1985, era Kim Il-sung ainda o líder norte-coreano, os dois lados deram início a um programa de reunião, destinado a permitir um breve contacto entre familiares separados. A experiência pôs em contacto entre 100 e 150 pessoas — as do Norte foram a Seul, as do Sul foram a Pyongyang —, mas a experiência foi suspensa e só retomada em 2000. Desde então, já foram organizadas 19 reuniões — a frequência variou de acordo com o estado das relações entre os dois lados, com algumas a serem canceladas em cima da hora por Pyongyang. Mais da metade dos 66 mil sul-coreanos que aguardam a possibilidade de reencontro tem 80 anos ou mais. A última reunião foi promovida em Setembro de 2015. Kim e Moon anunciaram que haverá uma nova grande reunião de famílias a 15 de Agosto, uma data celebrada nos dois lados da fronteira: é o Dia da Libertação, quando a potência colonizadora, o Japão, se rendeu em 1945, pondo fim à II Guerra Mundial.

Ajuda económica

Após a divisão da península, a economia fortemente industrializada do Norte era maior do que a do Sul rural. Em meados de 1970, e com a ajuda norte-americana, o Sul iniciou uma série de reformas orientadas para a economia de mercado que tornaram a sua economia numa das maiores do mundo. O Norte estagnou e depende fortemente da ajuda externa. Ao abrigo do acordo assinado nesta sexta-feira, os dois países comprometem-se a por em prática projectos para promover o crescimento económico equilibrado dos dois países. Uma primeira medida, para facilitar a circulação de produtos, será a criação e modernização de linhas férreas e estradas entre as duas metades da península. Pyongyang não divulga dados sobre o estado da sua economia, mas há indicadores (relatos de visitantes, dados de organizações humanitárias) que dizem que as sanções estão a estrangular o país - na década de 1990 e início dos anos 2000, após uma fome que matou milhares de pessoas, o pai de Kim Jong-un, Kim Jong-il, travou o programa nuclear em troca de ajuda humanitária.

Unificação

Sim, Kim Jong-un disse a palavra “unificação”. Como a palavra “desnuclearização”, unificação também tem significados diferentes, depende de quem a pronuncia. Kim Jong-un herdou o poder do pai, mas é o avô que fundou criou a Coreia do Norte o seu modelo - veste-se como ele, engordou para se assemelhar a ele, adoptou o mesmo corte de cabelo que ele. Garantir a sobrevivência da dianstia que mantém o regime, que por sua vez mantém a fronteira, é a sua missão. Unificação, para KIm, pode significar cooperação e ajuda, mas não o desaparecimento do seu país e sistema político. A Sul, a unificação significa uma só Coreia, como antes da guerra, e o tema é alvo de sondagens frequentes. A da Universidade Nacional de Seul começou a ser realizada em 2007 e os dados dizem que, à medida que a população envelhece, a unificação torna-se um tema menos emocional. Neste momento, os sul-coreranos estão divididos quanto ao tema, com 53,8% dos inquiridos no ano passado a dizerem dizem que a unificação é necessária — em 2007 eram 63%.


Pacificação

As Coreias comprometeram-se a  diminuir a tensão militar na península, pondo “fim a todos os actos hostis contra o outro em qualquer domínio, incluindo terra, ar e mar” a partir de 1 de Maio. Decidiram ainda transformar a Zona Desmilitarizada, criada com o armístício e que divide os dois países, numa “Zona de Paz”. Isso significa que todos os meios de propaganda anti-Norte — altifalantes, cartazes, panfletos —, serão eliminados, assim como os canais de rádio anti-Sul. Medidas que já tinham sido postas em prática antes da cimeira.

Gabinete conjunto

Os dois líderes comprometeram-se a estabelecer um Gabinete de Ligação Conjunto, com representantes de ambos os países na região de Gaeseong para facilitar consultas entre as autoridades. Uma linha telefónica directa entre os gabinetes de Kim e Moon foi activada antes da cimeira.

Defesa

Os dois países decidiram que deve haver cooperação em matéria de defesa e que haverá já uma reunião em Maio entre ministros da Defesa ou outros altos funcionários.