Análise

A parada das cimeiras

Os dirigentes norte-coreanos têm assegurado, de forma sistemática, a realização do seu programa nuclear que consideram ser o único garante da sobrevivência do regime comunista, sem o qual a existência separada da Coreia do Norte não tem razão de ser.

Kim Jong-un quis pôr à prova o novo Presidente dos Estados Unidos e, durante seis meses, realizou sucessivos ensaios nucleares e balísticos que demonstraram as capacidades militares da Coreia do Norte até ao limiar das armas estratégicas: o dirigente norte-coreano parou o exercício antes de testar um míssil balistico inter-continental com capacidade nuclear que pudesse atingir alvos no território continental dos Estados Unidos.

Donald Trump respondeu com uma ameaça de arrasar a Coreia do Norte e com a declaração, em Maio de 2017, de que estava disposto a encontrar-se com Kim. Paralelamente, os Estados Unidos, com o apoio da China, obtiveram do Conselho de Segurança novas sanções à Coreia do Norte e, pela primeira vez, Pequim quis isolar os seus aliados coreanos, que dependem dos abastecimentos chineses em domínios cruciais.

Kim tomou a sério as ameaças de Trump e recuou. No final do ano, declarou que tinha completado o programa nuclear e anunciou que ia cessar os ensaios nucleares e balísticos, sem exigir a interrupção simultânea dos exercícios militares conjuntos entre os Estados Unidos e da Coreia do Sul. Acto contínuo, decidiu que os atletas norte-coreanos iam participar nos Jogos Olimpicos de Inverno organizados pelos sul-coreanos.

A détente olímpica antecipou o convite oficial de Kim a Trump para uma cimeira bilateral inédita entre os Presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte. O Presidente norte-americano aceitou o convite e o director da CIA foi recebido por Kim para iniciar os preparativos da cimeira, cuja ordem de trabalhos tem dois pontos principais: o desarmamento nuclear e balístico da Coreia do Norte e a conclusão de um tratado de paz que substitua o armistício de 1953 para pôr formalmente fim à Guerra da Coreia.

A cimeira entre Kim e Trump, prevista para Maio próximo, vai culminar uma parada de cimeiras bilaterais entre as partes interessadas que não vão estar sentadas à mesa com o Presidente norte-americano e o Presidente norte-coreano.

A primeira reuniu Kim e Xi Jinping. O Presidente chinês fez o seu homólogo norte-coreano ir a Pequim explicar o convite ao Presidente americano. A segunda reuniu Trump e Shinzo Abe. O primeiro-ministro japonês teme que Trump possa aceitar um acordo com a Coreia do Norte que não tenha em conta a segurança do Japão.

A terceira reuniu Kim e Moon Jae-in em Panmanjoen. O Presidente sul-coreano, ao contrário dos seus antecessores, não quis ir a Pyongyang antes de Kim atravessar a linha de demarcação entre as duas Coreias, o que nem o seu pai, nem o seu avô, jamais tinham feito. Esse gesto foi acompanhado pela Declaração conjunta dos dois Presidentes, em que ambos defendem a "desnuclearização completa da península coreana" e se empenham na realização de reuniões trilaterais (as duas Coreias e os Estados Unidos) ou quadrilaterais (as Coreias, os Estados Unidos e a China), para "pôr fim à Guerra e estabelecer um regime de paz sólido e permanente". A quarta cimeira vai reunir Trump e Moon em Washington, para o Presidente sul-coreano poder ter um encontro formal com o Presidente dos Estados Unidos antes do Presidente norte-coreano.

As expectativas sobre os resultados da cimeira entre Kim e Trump são muito elevadas. É certo que a Coreia do Norte, desde o acordo nuclear de 1994, violou todos os acordos bilaterais e multilaterais em que se comprometeu a renunciar às suas capacidades nucleares. Porém, pela primeira vez, é o próprio Presidente dos Estados Unidos quem está  envolvido no processo diplomático e esse facto sem precedentes cria uma situação política nova.

Os Estados Unidos, a China, a Rússia e o Japão estão todos empenhados na desnuclearização da Coreia do Norte. Washington e Moscovo convergiram sempre na sua oposição à proliferação nuclear, a China quer ser a única potência nuclear na Asia Oriental e, tal como o Japão, quer neutralizar o perturbador norte-coreano para assegurar a estabilidade regional.

Mas, desde o fim da Guerra Fria, os dirigentes norte-coreanos têm assegurado, de forma sistemática, a realização do seu programa nuclear que consideram ser o único garante da sobrevivência do regime comunista, sem o qual a existência separada da Coreia do Norte não tem razão de ser.

Nada indica que a sua determinação se tenha alterado, embora as circunstâncias reclamem as concessões necessárias para reduzir a pressão dos Estados Unidos e romper a convergência entre Washington e Pequim. Essas concessões podem incluir o fim dos ensaios nucleares - a Coreia do Norte já fez seis, os mesmos que a India e o Paquistão - e dos testes balísticos. Esse é o objectivo prioritário dos Estados Unidos, que querem assegurar que os norte-coreanos não têm capacidade para atingir o seu território. Paralelamente, é possível montar mecanismos de contrôle eficazes para assegurar que a Coreia do Norte não produz mais engenhos nucleares. Nessas circunstâncias, se for possível conter expectativas excessivas, o sucesso da cimeira entre Kim e Trump pode estar assegurado.