João Cravinho defende que TGV Lisboa-Porto é prioritário

Para o ex-ministro de António Guterres, estudar a alta velocidade continua a ser importante para ajudar a definir um modelo de desenvolvimento territorial que faça sentido à escala nacional e europeia.

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Miguel Manso

Alta velocidade? Entre Lisboa e Madrid é uma conveniência política, mas entre Lisboa e Porto é estratégico para a economia nacional. João Cravinho, ex-ministro do Planeamento, resume assim a sua prioridade caso se reabra o debate sobre o TGV, um tema que Passos Coelho matou e que António Costa quer manter enterrado.

“Se um tipo desde Bruxelas ou Frankfurt olhar para aqui, vê essencialmente Espanha e uma fatia magra de território com muitas praias”, refere João Cravinho. Por isso, para não ficar reduzido à sua condição periférica, é necessário recuperar a velha estratégia atlântica e pensar o país como uma aglomeração metropolitana polinucleada que seja significativa à escala europeia. E é aqui que entra o TGV ao colocar Lisboa e Porto a menos de 1 hora e meia, unindo ainda as cidades de Aveiro, Coimbra e Leiria.

“O TGV é o maior impulsionador de economias de aglomeração ao longo de um eixo Lisboa-Porto”, conclui.

Já sobre o TGV para Madrid, Cravinho diz que tal resulta de um “conveniência política” pois, ao contrário de um TGV Lisboa – Porto, o comboio de alta velocidade para Madrid não tem capacidade para pagar o custo da infraestrutura e a sua própria exploração comercial estará no limite da rentabilidade.

“É óbvio que a questão política também conta”, admite, mas em todo o caso o ex-ministro tem dúvidas que o debate seja relançado na próxima legislatura. Ainda assim, se tal acontecer, não acredita que o TGV Lisboa-Porto entre nessa discussão. Mas já o Lisboa-Madrid “depende da força que os espanhóis fizerem”, disse.

A este propósito João Cravinho diz que podem não ter sido inocentes os recentes falsos anúncios de Bruxelas — alegadamente resultantes de erros de comunicação — de que vai avançar o TGV de Évora para Badajoz.

Apesar de tudo, depois dos anos de euforia em que se discutia o TGV desenhando riscos nos mapas, este compasso de espera pode ser útil para ver se vale a pena Portugal insistir nesta tecnologia para o séc. XXI, ou se se confirmam perspectivas de inovação tecnológica radicalmente diferentes. Veículos de propulsão magnética em túneis de vácuo, que atingem velocidades de 900 Km/hora podem não ocorrer num futuro assim tão longínquo, alerta. No mínimo, diz, o país deveria estar atento a esses desenvolvimentos tecnológicos e, se for o caso, saltar etapas.

Esta quinta-feira, uma fonte de Bruxelas citada pela Lusa anunciou através da rede social Twitter que iria haver uma ligação de alta velocidade entre Évora e Mérida, confundindo o projecto que está em curso da construção de uma linha de mercadorias que passa precisamente no mesmo corredor onde chegou a estar previsto a linha do TGV para Madrid.

O Governo desmentiu e a mesma fonte comunitária acabou por dizer que a alegada linha de alta velocidade era apenas “uma visão, uma orientação”.