Árabe preso 13 anos por ligação à Al-Qaeda diz que foi “torturado em solo americano”

Ali al-Marri foi detido a seguir ao 11 de Setembro de 2001 e só foi julgado em 2009. Foi condenado, e libertado em 2015. Vem agora acusar e pedir contas ao FBI.

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Ali al-Marri numa fotografia de 2003 Peoria County Sheriff's Dept

Ali al-Marri, o cidadão com dupla nacionalidade qatari e saudita que esteve preso durante 13 anos em celas norte-americanas, acusado de ligações à Al-Qaeda e aos ataques do 11 de Setembro de 2001, diz agora que foi “torturado em solo norte-americano”, e quer ver o FBI responsabilizado por isso.

“Ameaçaram que me iam sodomizar, ameaçaram que iam violar a minha mulher, ameaçaram que iam também prender os meus filhos – isto é tortura”, disse al-Marri, citado pelo jornal The Guardian, naquela que é a sua primeira declaração pública desde que no início 2015 regressou ao Qatar, libertado que fora após mais de uma década de detenção numa prisão militar na Carolina do Sul.

Ali al-Marri chegara a Chicago, com a mulher e os cinco filhos, no dia 10 de Setembro de 2001 – véspera dos ataques da Al-Qaeda às Torres Gémeas de Nova Iorque e a outras instituições norte-americanas –, com o objectivo de completar a sua formação académica na Universidade de Bradley, onde tinha estudado.

A coincidência com os acontecimentos do 11 de Setembro haveria, contudo, de mudar radicalmente o destino da sua vida. A 9 de Dezembro desse ano, é detido pelo FBI, acusado de ligações à Al-Qaeda e de ter participado na preparação dos ataques. O facto de a agência policial norte-americana ter encontrado na sua casa uma enciclopédia com marcas a assinalar canais de água americanos, registo de pesquisas de materiais químicos tóxicos e cópias de centenas de números de cartões de crédito veio sustentar a detenção e prisão de al-Marri.

Foi acusado de planear o envenenamento de lagos, e a Administração Bush classificou-o como “combatente inimigo”. Nessa qualidade, al-Marri tornou-se no único árabe preso no país, ao passo que todos os outros detidos com acusações semelhantes foram enviados para Guantánamo.

A partir de 2003, o cidadão do Qatar foi mantido em isolamento numa prisão militar de Charleston, na Carolina do Sul, numa cela gelada, muitas vezes sem roupa, submetido à privação do sono e sujeito a sucessivos interrogatórios. “Eu estava a sufocar, sentia-me a morrer. Com este sofrimento, experimentamos o pânico”, recorda agora al-Marri, citado pelo The Guardian, a invocar uma situação vivida no dia 11 de Março de 2004. “Ameaçaram que me iam sodomizar, ameaçaram que iam violar a minha mulher, ameaçaram que iam também prender os meus filhos – isto é tortura. Ameaçaram que me iam levar para um quarto negro, e fazer de mim um rato de laboratório militar sufocando-me quase até à morte. Isto é tortura”.

Julgamento em 2009

A sua prisão nestas condições, e sem acusação nem culpa formada, manteve-se até 2009, altura em que, finalmente, lhe foi conferido o estatuto de prisioneiro civil e foi levado a julgamento num tribunal federal em Illinois. Foi condenado a mais de oito anos de prisão por “apoio material” à Al-Qaeda e ao terrorismo – que o próprio então admitiu.

Acabou por ser libertado em Janeiro de 2015, e voltou à sua casa no Qatar – onde acabaria por se ver recebido como um herói, com celebrações na rua por onde passava e felicitações do primeiro-ministro por telefone.

“O que é que as pessoas estavam a celebrar? Um preso que passara esse tempo na cadeia e tinha sido libertado? Elas não acreditam que eu fosse um terrorista. ‘Terrorista’ é um conceito relativo: aquele que para um homem é um terrorista, para outro é um herói”, diz Ali al-Marri, dando como exemplo o pai-fundador da América George Washington, que “era um terrorista para os britânicos”.

E insiste em que regressou aos EUA em 2001 com o objectivo de fazer um mestrado e talvez mesmo um doutoramento na universidade. “Acabei doutorado em hospitalidade americana”, conclui, lamentando que ninguém tenha sido, até agora, “responsabilizado”. “Há pessoas que admitem que fizeram isso, e pessoas que o negam. Mas eu não preciso de desculpas, preciso que prestem contas. O que eles me disseram e me fizeram foi tortura”, reclama al-Marri.

Assim, apoiado pela empresa Cage, uma organização de advogados com sede em Londres, que se bate pela defesa de cidadãos contra estados policiais, al-Marri quer agora “desafiar” o Governo norte-americano a dirimir o seu caso “em campo neutro”.

Questionado pelo Guardian, o FBI respondeu, em comunicado, que não iria comentar o caso. Mas lembra que a agência “não se envolve em acções de tortura”, e mantém que “as técnicas de criação de empatia são o meio mais eficaz de obter informações fidedignas nos interrogatórios”.