Entrevista

“Como é que podemos ser lucrativos nas pequenas cidades” com o carsharing?

Brigitte Courtehoux, directora dos serviços de Mobilidade e Conectividade do grupo PSA, diz que as pessoas cada vez ligam menos a ser donas de um carro, preferem a partilha. Nas cidades grandes, há público garantido. Mas há mais mundo para além disso.

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Brigitte Courtehoux, directora dos serviços de Mobilidade e Conectividade do grupo automóvel PSA Daniel Rocha

Brigitte Courtehoux veio a Lisboa de propósito para assistir ao lançamento da Emov, uma aplicação para telemóveis que permite andar em carros eléctricos por curtos períodos de tempo. Este é o futuro da mobilidade, afirma a responsável do grupo que fabrica os automóveis Peugeot e Citroën. Mas ainda é uma incógnita quanto tempo vai demorar a transição, admite. E é provável que ela não chegue a toda a gente.

Porque decidiram mudar o foco da venda de carros para a venda de mobilidade?
Em primeiro lugar, não mudámos o foco. Estamos muito, muito focados em continuar a ser um fabricante automóvel eficaz, isso é muito importante para nós. Não é tanto mudar o foco, é mais adaptarmo-nos às novas realidades que estão a aparecer. As coisas digitais mudaram o mundo. Sabemos que agora muitos dos nossos clientes não precisam de comprar um carro, podem apenas usá-lo. O comportamento de alguns clientes nossos está a alterar-se: querem coisas novas, mais modernas, em vez de propriedade querem utilização. Sabemos que é muito importante para nós, como fabricantes de automóveis – mas, para além disso, nós somos fornecedores de mobilidade há 200 anos. Dizemos sempre que não somos fornecedores de mobilidade novos, já somos há muito tempo. Continuamos a precisar de produzir carros e a vendê-los, porque muitos clientes querem ser donos dos seus carros. Mas há cada vez mais leasings em todo o mundo e vemos que também podemos captar novos clientes, permitindo que tenham um carro mesmo que não tenham dinheiro para o comprar. E nas cidades há cada vez mais pessoas que não querem ter carro próprio, por causa dos engarrafamentos, do estacionamento, etc. Portanto, aquilo em que estamos focados é estar em frente aos nossos clientes, trazer-lhes os serviços certos no momento certo, ter uma boa relação com eles. Por isso precisamos de aprender sobre a nova mobilidade.

E como é que tem corrido a aprendizagem?
Bem! Diria que está a correr bem, temos feito muito trabalho. Estamos a trabalhar em duas frentes: nova mobilidade e serviços conectados, sobretudo por causa da relação com os clientes. Com os serviços conectados, somos capazes de saber no momento exacto o que é que está a acontecer, qual é a necessidade do nosso cliente, conseguimos dar-lhe o serviço certo. Na nova mobilidade, lançámos uma marca, Free2Move, há mais de um ano, que tem dois destinatários. Para os nossos clientes finais, fornecemos uma app que funciona como uma plataforma agregadora e que já tem mais de 850 mil utilizadores. Está a crescer cada vez mais rapidamente, sobretudo nos últimos meses. Estamos na Europa e nos Estados Unidos. Com esta app, o utilizador encontra todas as ofertas de carsharing, bikesharing e scootersharing. Numa só app, todos os serviços. Temos também a Emov, que é um verdadeiro sucesso: em Madrid, ao fim de um ano, tínhamos 150 mil utilizadores e agora já estamos nos 170 mil. É imenso! O comportamento das pessoas está a mudar. E, depois de lançarmos a Emov em Lisboa, vamos lançar novas soluções de carsharing com a Free2Move em todo o mundo. Portanto, estamos bem. Mas temos de estar sempre focados nos nossos clientes, ter capacidade de os perceber e, se eles não estão satisfeitos, de nos adaptarmos.

Isso é um trabalho que nunca pára. No passado, vocês vendiam um carro e viam o cliente um ano depois.
Exactamente. No passado, se tivéssemos sorte, conseguíamos ver o nosso cliente uma vez por ano. Por causa do mundo digital, da conectividade e da nova mobilidade, estamos em contacto 24 horas, sete dias por semana. Por isso temos mesmo que ter o “serviço” no nosso ADN. Todos os meses temos um inquérito em que perguntamos aos clientes se estão satisfeitos e a satisfação é muito alta, mas, ainda assim, quando vemos algum ponto fraco temos de nos adaptar.

Em cidades como Madrid, que são enormes, provavelmente não fará muita diferença ao congestionamento de trânsito meter mais cem carros. Mas em cidades como Lisboa, mais pequenas, a curto prazo o tráfego pode piorar. Quanto tempo acha que vai demorar a transição?
Sinceramente não sei. Temos de ouvir os nossos utilizadores. Não sei. Pode ser rapidamente ou não. Quando o carro autónomo chegar, sabemos que as coisas vão mudar. O custo do carro vai ser bastante alto e, por causa da inteligência artificial, o carro vai ser capaz de ir à casa de uma pessoa porque a plataforma saberá que precisa de ir para o aeroporto. Os carros autónomos vão mudar muito as coisas. Não sei quando as coisas vão mudar em termos de trocar a propriedade pela utilização. Até porque a propriedade está a decrescer, mas o leasing, que é também uma espécie de propriedade, está a crescer. Os nossos novos clientes não querem estar totalmente comprometidos, querem fazer leasing. Vamos ter de começar a propor leasing cada vez mais adaptável. Porque actualmente é muito restrito: uma pessoa paga, sei lá, 300 euros por mês, e ao fim de três, quatro, cinco meses diz que quer parar e temos de ter capacidade para responder “ok, sem problema”.

Como tem sido a recepção destas propostas pelos poderes públicos?
Muito, muito boa. E em todo o mundo. É mágico: a Free2Move é uma marca nova, pequena, mas quando chego a qualquer parte do mundo e falo com presidentes de câmara, eles conhecem a marca. O contacto com eles é muito bom, gostam do carsharing e da app, porque para eles é muito importante ter uma única solução para carsharing, bikesharing e scootersharing. Hoje, todos os governos estão preocupados com os problemas de mobilidade por causa dos congestionamentos, do estacionamento, do ambiente.

Mas provavelmente essas preocupações são mais das grandes cidades do que das pequenas.
Não só. Vemos que as cidades médias ou pequenas dizem “Ei, não se esqueçam de nós”. A questão é como é que podemos ser lucrativos nas pequenas cidades. Nas grandes há muita gente e muita utilização, mas nas pequenas… Essa é uma das reflexões que estamos a fazer, mas não tenho uma resposta ainda.

Quanto representam os carros eléctricos na produção do Grupo PSA?
Para já a produção é pequena. Mas em 2019 vamos lançar carros eléctricos em todos os nossos modelos. E em 2025 todos os nossos carros vão ter motor de combustão interna [a gasóleo ou gasolina] e uma solução eléctrica.