Tomás Correia já prepara recandidatura à Associação Mutualista

O actual presidente da dona do banco Montepio já está a procurar reunir apoios dentro da Caixa Económica. Eleições são em Dezembro.

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LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Arrancaram as movimentações para António Tomás Correia voltar a marcar presença nas eleições que vão nomear os próximos órgãos sociais da Associação Mutualista Montepio Geral agendadas para o final do ano. Um processo que decorre num quadro de crescente crispação interna, com a preparação de listas oponentes ao poder actual, e de aumento de pressão sobre o futuro do grupo com 620 mil associados.

O PÚBLICO apurou que, nas últimas semanas, Tomás Correia promoveu pelo menos dois jantares informais com directores regionais da rede comercial da Caixa Económica Montepio Geral, a quem manifestou, por exemplo, a preocupação de voltar a agarrar os clientes bancários afastados da associação pela anterior gestão do banco, chefiada por José Félix Morgado.  Mas ao longo da refeição foram abordados outros temas, um deles relacionado com as próximas eleições para os órgãos sociais da AMMG, a dona do banco, que, estatutariamente, terão de ocorrer em Dezembro de 2018. 

Os encontros com os responsáveis das agências bancárias da CEMG decorreram ao longo deste mês, com Tomás Correia a fazer-se acompanhar de Luís Almeida, que pertencia à comissão executiva de Félix Morgado. Em Lisboa, na segunda-feira 9 de Abril, o palco do jantar foi um espaço reservado no Farta Brutos, no Bairro Alto. No Porto, na quinta-feira 19 de Abril, o local escolhido foi a cave do restaurante Aleixo.

No dia 20, sexta-feira, e apesar de não estar programado, Carlos Tavares foi convidado por Tomás Correia para participar num jantar na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, com os directores da rede de retalho do banco da região centro, onde iriam atribuir-se emblemas do Montepio pelos 20 e 30 anos de serviço.

Os encontros de âmbito restrito que se realizaram em Lisboa, no Farta Brutos, e no Porto, no Aleixo, serviram para Tomás Correia fazer menção à necessidade de construir uma lista candidata ao conselho de administração da associação que “preserve”, segundo defendeu, o espírito mutualista. Durante a refeição fez menção a nomes: os actuais gestores Carlos Beato e Virgílio Lima, do seu núcleo duro, e Luís Almeida e Maria de Belém, a ex-ministra da Saúde do PS.

Na prática, Luís Almeida e Maria de Belém substituem os dois dissidentes da equipa que Tomás Correia ainda chefia: Miguel Coelho e Fernando Ribeiro Mendes, que, em artigo de opinião no PÚBLICO, apelou a um “virar de página” na AMMG que dê “espaço a novos protagonistas libertos do passado”.

Maria de Belém é afilhada de casamento de Vítor Melícias, à frente da Mesa da Assembleia Geral do Montepio, enquanto Luís Almeida é quadro do Montepio e foi administrador do Finibanco Angola, instituição sob investigação do BdP e do Ministério Público, por suspeita de transacções transnacionais de branqueamento de capitais. As averiguações contemplam Tomás Correia, enquanto presidente da CEMG e do Finibanco Angola, por, alegadamente, ter recebido 1,5 milhões para aprovar financiamento ao construtor civil José Guilherme concedidos via Luanda.

A divulgação de que Tomás Correia manteve contactos informais com directores da rede comercial do banco gerou incómodo dentro da CEMG, confirmaram ao PÚBLICO fontes da instituição financeira, que sustentam, ainda, que Tomás Correia deveria ter evitado reunir-se com os bancários que participaram nos jantares, dado que estes não são linha hierárquica directa para o presidente da AMMG, mas sim para a administração de Carlos Tavares.

Os encontros também não escaparam aos opositores de Tomás Correia, que, nos últimos anos, têm vindo a contestar os resultados e os processos eleitorais no grupo Montepio, nomeadamente recorrendo para os tribunais. Alegam, por exemplo, haver “uma utilização abusiva de meios internos da CEMG, como seja a rede de balcões do banco, para angariar votos” a favor de Tomás Correia. Em curso está, neste momento, uma acção de impugnação do acto eleitoral de 2015, mas o pedido não foi acolhido em julgamento. E estão a decorrer recursos para o Supremo Tribunal de Justiça.

As listas derrotadas por Tomás Correia nas últimas eleições para a liderança da associação desenvolvem conversações para encontrar uma alternativa única que inclua adversários e diferentes personalidades de sensibilidades políticas distintas: António Godinho (ex-trabalhador do Montepio que se dedicou aos negócios) e António Bagão Félix (ex-ministro do CDS/PP), que em 2015 avançaram para “Renovar o Montepio”; Eugénio Rosa (economista da esfera do PCP), que se propôs “Defender o mutualismo”; e Manuel Rogério (reformado do Montepio que representa um grupo de trabalhadores), que concorreu apenas ao conselho geral com o lema “banca ética”.