Os idiotas de Armando Iannucci e Estaline

A Morte de Estaline é uma comédia hilariante sobre a morte do líder soviético e a crise de sucessão que gerou. Sendo ao mesmo tempo o retrato de toda a tragédia e violência de uma época. Falámos com o humorista britânico que desde os anos 1990 vem satirizando a política, a sociedade e a cultura.

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Estamos em 1953. Um produtor da Rádio de Moscovo recebe um telefonema durante a transmissão de um recital de Mozart. É um pedido de Estaline, quer uma gravação do que está a passar na rádio. O problema? É que está a ser tocado em directo. Para poder safar-se da morte, o destino provável se a ordem não for cumprida, o produtor tem de fazer com que músicos, maestro e até o público repitam o concerto. Para isso, tem de ir buscar novo maestro e pessoas da rua. Mas lá se ajeita, a custo.

Toda a gente envolvida no processo, do produtor aos músicos, passando pelos militares que hão-de ir buscar o disco, está aterrorizada. Até os que dão ordem a outros e se fazem de duros. É tal o receio da arbitrariedade da repressão que ninguém está a salvo, nem mesmo quem segue à risca tudo o que é suposto fazer. É assim que começa A Morte de Estaline. O início que estabelece o tom de ansiedade e paranóia que trespassa o filme todo.

Durante a audição do concerto Estaline tem uma hemorragia cerebral e cai. Não havia médicos para o tratar, tinha-os mandado prender a todos. Os guardas que guardavam a porta da divisão da sua casa de campo nos arredores de Moscovo tinham ordens estritas para não o importunarem. Durante várias horas após a queda, ninguém soube o que se passava. O estado do líder soviético gerou uma crise de sucessão, com os colaboradores mais próximos, do Comité Central, a lutarem pelo poder, ninguém confiando em ninguém.

Lançado no Reino Unido em 2017, este é o segundo filme da longa carreira de Armando Iannucci, nascido na Escócia filho de pai italiano. Anda a satirizar a política, a cultura e a sociedade britânicas desde o início dos anos 1990. Desta feita é uma adaptação da novela gráfica dos franceses Fabien Nury e Thierry Robin lançada em 2010. É a primeira vez que o humorista se aventura por uma história de época, ainda para mais baseada em factos verídicos e escrita originalmente por outras pessoas.

No filme, actores que vão de Steve Buscemi ao Monty Python Michael Palin, passando por Simon Russell Beale, nome maior do teatro inglês, a ucraniana Olga Kurylenko ou a sempre excelente Andrea Riseborough, cada um a falar com o seu sotaque natural, fazem, respectivamente, de figuras como os políticos Nikita Khrushchov, Viatcheslav Molotov e Lavrentiy Beria, a pianista Maria Yudina e Svetlana, a filha de Estaline.

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Ao Ípsilon, Iannucci explica que, quando acabava o seu trabalho em Veep, a série da HBO que criou e à frente da qual esteve até 2015, olhava para a Europa e via, em países como a Turquia, a Hungria o Egipto, a acensão de um tipo particular de líder, uma “figura democraticamente eleita que depois muda as regras para que não possa ser democraticamente rejeitada” – na altura, Trump ainda nem era um candidato oficial à presidência do EUA. Pensou: “E se inventássemos um ditador britânico?” Mas, entretanto, chegou-lhe às mãos a novela gráfica e achou que era melhor olhar para o passado. Decidiu manter a estrutura do livro, que é muito mais seco, mas adicionou novos diálogos, com muito mais piada, e desenvolveu mais as personagens. “Temos excelentes intérpretes, era preciso dar-lhes algo para fazer e dizer e assim justificar aparecerem no filme”, conta. Também fez muita pesquisa, uma constante. “Se vamos fazer piadas sobre algo, temos de saber de que é que estamos a falar”, defende. Durante a pesquisa encontrou factos verídicos que soavam demasiado rebuscados para serem verosímeis: por exemplo, no tal concerto o primeiro maestro desmaiou, foi convocado outro, que estava bêbedo, só um segundo substituto é que conduziu o recital – no filme, o maestro bêbedo ficou de fora.

Ainda assim, Iannucci sabia que nem tudo iria ter piada. “A comédia está toda a decorrer dentro do Kremlin. Somos respeitosos com aquilo que aconteceu realmente às pessoas da União Soviética da altura.” Mesmo com todo o cuidado, o filme foi banido da Rússia dois dias antes da estreia marcada. É que aqui há mortes, perseguições, violência e abuso sexual. As piadas existem à volta disso, não directamente sobre isso. “Não estou a dizer para nos rirmos à fartazana de pessoas a serem alvejadas. Esta comédia é sobre tensão, ansiedade e medo”, resume. “Não podemos fazer nada para minar a ansiedade. Uma piada no momento errado e estraga-se tudo e a história fica inacreditável”, continua. Isso resulta num tom variável, que causa estranheza ao início – mas que poderá recompensar, como acontece com grande parte do trabalho de Iannucci, visualizações repetidas.

Para ajudar nesse aspecto do filme, olhou para O Grande Ditador, de Chaplin, e a forma como alterna entre comédia e drama. “Tem algumas das rotinas mais sofisticadas e hilariantes de Chaplin, lado-a-lado com coisas muito dramáticas no gueto judeu”, articula. Também foi ver A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, Eisenstein, Chiaurelli e Nikita Mikhalkov e leu autores como Gogol.

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Armando Iannucci anda há 30 anos a sublinhar que somos idiotas — a série The Thick of It, e o spin-off cinematográfico de 2009 In The Loop, primeiro filme como realizador, ou a série Veep... Agora virou-se para o passado hi DR

Somos todos idiotas

Iannucci anda há quase 30 anos a sublinhar, de uma forma ou doutra, que somos todos iguais, que somos uns idiotas que não sabemos o que andamos aqui a fazer. Esta é a conclusão de Twats, o primeiro episódio de The Armando Iannucci Shows, programa que misturava sketches e monólogos que o próprio descreve como o seu trabalho mais pessoal. Mas já o mostrou noutros sítios, como no governo, seja o – como é o caso da série The Thick of It, e do seu spin-off cinematográfico de 2009, In The Loop, o seu primeiro como realizador (ficou sem estreia comercial entre nós) – ou o norte-americano – como na já mencionada Veep.

The Thick of It, deu-lhe a sua segunda personagem mais icónica: Malcolm Tucker, um spin doctor do governo britânico interpretado por Peter Capaldi e inspirado em Alastair Campbell, que tinha essa posição na administração de Tony Blair. Porque a primeira, uma das mais bem amadas criações cómicas dos últimos 30 anos, foi Alan Partridge, o apresentador incompetente a quem ainda hoje, periodicamente, é dada vida por Steve Coogan. Nasceu em On The Hour, o programa de rádio que satirizava a seriedade das notícias e encabeçou falsos talk shows, séries cómicas, filmes e livros.

On The Hour, e a sua versão televisiva, The Day Today, trouxeram muito de novo para o panorama cómico. Em 2013, por exemplo, a falar ao AV Club, o site de cultura pop do jornal satírico The Onion, um John Oliver, pré-Last Week Tonight, ainda só correspondente do The Daily Show, assegurava que o programa lhe tinha mostrado, nos seus anos formativos, que “se podia fazer uma comédia sobre política, sobre coisas muito sérias, e continuar a fazer com que fosse incrivelmente parvo”.

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Como é que alguém mantêm a relevância num universo em que tanta gente perde graça com o passar dos anos, continuando a tentar fazer as mesmas piadas sempre ou, pior, limitando-se a queixar do que se pode ou não dizer agora? Não pensando muito nisso e continuando a andar, responde Iannucci, que sabe perfeitamente que há elementos no humor que fazia nos anos 1990 que hoje não cairiam tão bem: “A atmosfera muda e as convenções mudam. Quando estamos a fazer comédia, fazemos algo que ao mesmo tempo apela às convenções e afronta-as. Se fazemos o mesmo material ao longo de 25 anos, ele será recebido de maneira diferente. Não podemos ter suposições estabelecidas e manter-nos com elas para sempre.”

Esta é, reconhecivelmente, uma obra de Iannucci. Mas com consequências bastante diferentes e mais graves. “Em Veep, se alguém faz um erro, nada de terrível vai acontecer a não ser vir um cabeçalho embaraçoso no jornal. Aqui, se alguém faz um erro, é morto. Isso muda as regras”. Nas suas obras anteriores, há uma certa ingenuidade nas personagens. “São pessoas que se meteram na política pelas melhores razões, mas comprometeram-se tanto a elas próprias que acabaram por fazer uma coisa quando queriam originalmente fazer o oposto. No caso deste novo filme, são criminosos. Têm todos sangue nas mãos”, sublinha. De resto, continua a ser sobre a natureza humana. Sobre idiotas que não sabem bem o que andam aqui a fazer. Tal como todos nós.