Uma exposição de protestos para Agitar a Malta

As mensagens parecem cair do tecto, de onde pululam temas e se multiplicam denúncias. Ao sabor de quem quer que seja o seu autor.

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Pacheco Pereira e Helena Sofia Silva Rui Gaudêncio/PÚBLICO
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Desde esta terça-feira e até fim de Junho, no novo espaço da Ephemera, na baía do Tejo, num armazém da antiga zona industrial do Barreiro, está patente a mostra de cartazes espontâneos e artesanais O Que Faz Falta É Agitar a Malta. Afinal, a respiração do protesto é uma das conquistas da liberdade e da democracia, com o derrube da ditadura, há precisamente 44 anos, em 25 de Abril de 1974.

“É sadio haver protesto, a respiração da democracia é o protesto”, sintetiza José Pacheco Pereira, que, com Helena Sofia Silva, é o curador da exposição. No armazém, pendurados do tecto e ao sabor das correntes de ar, estão cartazes das mais diversas formas, materiais, cores e imaginação. As deambulações ao vento permitem uma animação das mensagens que quase os devolve à vida original e ao propósito iniciático.

Abordam temas contemporâneos e um dia serão um acervo importante do estado de espírito dos cidadãos nos dez últimos anos da nossa vida colectiva e do mundo. Foram recolhidos em Lisboa, Porto e Viana do Castelo. São provas de um protesto inorgânico, sem siglas de convocatória, o que lhes garante a genuinidade à margem das palavras de ordem partidárias. E, também por isso, assegura imaginação transversal da mensagem à concepção, por estarem livres de cadernos de encargos e serem frutos de um artesanato, dos temas aos materiais. Por fim, há algum humor, numa libertação da palavra da rigidez do politicamente correcto.

A tragédia dos incêndios do Verão e Outubro de 2017 está presente. Como tema que pintou o país a cinza, alertou para zonas ignoradas de Portugal e evidenciou falhas e ausências. “(Des)protecção civil” é a referência engenhosa, com ironia azeda, daqueles dias de brasa, que ostenta um pequeno cartaz rectangular. Noutro, de fundo amarelo, aparecem os nomes das zonas devastadas pelas chamas, numa espécie de geografia do desastre. Quem escreveu estes desabafos sob o impacto das imagens redigiu um lead informal: está lá onde foi, mas não deixa para memória vã o desempenho da Autoridade Nacional de Protecção Civil.

Não cabe a esta forma de comunicação explicar. É um grito de alerta, com maior ou menor poder de mobilização, consoante a certeza da frase. “Salvar os oceanos”, como dita outro rectângulo de cartolina, é tarefa tão consensual como a própria respiração.

O humor é parte integrante da peculiaridade da exposição. “Marcelo, vai um mergulho?”, interroga-se, recordando o mergulho no estuário do Tejo do candidato Marcelo Rebelo de Sousa na campanha para a câmara da capital na luta com Jorge Sampaio. O mergulho foi o método para ganhar notoriedade, e o que presidiu à mensagem/desafio que consta da exposição, uma nova submersão nas águas do rio, está no segredo de quem a redigiu. Mas remete para a memória colectiva das eleições autárquicas de há 29 anos.

Não há imposições programáticas nas mensagens penduradas no Barreiro. “O título original da mostra era para ser Não me Calo, como consta de um dos cartazes”, revela Pacheco Pereira. A adopção de O Que Faz Falta É Agitar a Malta, verso de uma canção de José Afonso dos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso, 1974/75), evocativa do poder popular, sintetiza o que está em exposição. Tão urgente como espontâneo, mais ao estilo de desabafo do que programa eleitoral. Talvez, mesmo, mais lúdico do que político. “Nem que a voz nos doa”, está inscrito noutro rectângulo, como uma promessa de luta com som de evocação de fado.

Desmontando o que foi um caixote de cartão, esventradas as suas partes e criando uma superfície lisa, uma trabalhadora do sexo e imigrante ilegal, como se apresenta, escreveu em letras vermelhas “eh pá, não é não”. A clarificação está implícita noutra mensagem: “Não é sobre sexo é sobre violência.”

Na selecção feita pelos curadores, sobressaem, contudo, alguns temas. A troika, a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos, questões feministas e reivindicações do colectivo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais) são os principais enfoques.

“Queridos diplomatas dos Estados Unidos, a erosão da liberdade deve resistir em todos os escalões”, é a tradução do texto original, em inglês, de um tosco cartaz que José Pacheco Pereira atribui a funcionários diplomáticos norte-americanos descontentes com Trump. Noutro, a mensagem é mais curta e mais dura: “Trump is KKKomplicit”, que associa o Presidente dos EUA ao Ku Klux Klan. Já em português, nas duas faces de um rectângulo de cartolina, está uma sugestão: “Não sejas Trump! Não sejas Trumpa!”

“Brasil, que só os beijos tapem a tua boca” é a manifestação poética de um desejo de liberdade. “Elecciones honestas para Venezuela”, é a reivindicação enviada a Caracas e exigida a Nicolás Maduro, de um processo eleitoral genuíno. Os motivos do protesto não obedecem, pois, a latitudes geográficas nem conhecem fronteiras. “Solidariedade com as mulheres trabalhadoras”, em francês, ou “Não despejem a livraria feminista”, num protesto em inglês, são outros exemplos a flutuar em pedaços de cartão pendurados do tecto.

“Bochechas, não esqueço nunca, Cavaco, fala como o General Eanes ou como o Sampaio, não sejas casburro ainda não és doutor” é o cartaz eleito pelos organizadores como o mais genuíno. A interpretação desta mensagem que atravessa quatro décadas de Presidências da República é livre.

Há quem se reivindique como “Filhas da luta”, numa apresentação obviamente genérica, e quem escreva mensagens com destinatário concreto e alvo certo: “Touradas na RTP, não.” A constatação das dificuldades está patente num “Salvem os oceanos”, pintado a negro sobre um fundo azul, claro.

“Aqui está a cultura e a memória do protesto”, refere Pacheco Pereira. Contrapondo, explica, com as águas mornas tradicionais do consenso e do respeitinho, herdadas da ditadura e fruto do medo. A ser possível uma síntese em cartaz dos desabafos, denúncias, mensagens e protestos, lá está um rectângulo de cartão em letras azuis e fundo amarelo que sentencia: “Há furos na democracia.”