Opinião

A mobilidade social não é uma recta

O estudo das formas de mobilidade social é fundamental para a formulação de políticas públicas capazes de fomentar sociedades mais justas e sustentáveis. É inadiável que repensemos o modo como o fazemos. É que as nossas vidas são montanhas russas, não linhas rectas.

Só precisamos de dois pontos para desenhar uma recta. A vida de um indivíduo pode ser simplificada por essa recta situada no tempo histórico ou na estrutura social. Mas precisamos de muitos mais pontos se queremos traçar e, acima de tudo, compreender, a trajetória social de um indivíduo e a constelação das que se situam em seu redor. De outro modo, pouco entenderemos dos altos e baixos das vidas de cada um. Unir dois pontos – no tempo ou no espaço social – e medir a distância ou a diferença entre ambos não chega para compreender um processo social, uma sequência de acontecimentos e de circunstâncias. Não chega para entender uma história ou um percurso de vida. Não chega para pensar problemas sociais nem para desenhar políticas públicas que promovam sociedades mais justas e sustentáveis.

Não basta, portanto, localizar as coordenadas sociais (as de origem e as actuais) – classes altas, classes médias, classes baixas – de um indivíduo. Para traçar a história da sua mobilidade social, não basta inquirir sobre a profissão e escolaridade do seu pai e da sua mãe durante a sua infância, e perguntar de seguida sobre as suas. O “princípio” e o “fim”, ou o “antes” e o “depois”, são importantes para compreender um dado período da vida. Mas não será muito mais importante analisar o “durante”? Em muitos estudos, infelizmente, tal análise não é feita. Pense-se na forma como se aborda muitas vezes a crise em Portugal, e de como as diferenças entre o “antes” e o “depois” são frequentemente interpretadas. Identificam-se irrefletidamente as diferenças entre dois momentos e cola-se o selo “crise”, obliterando o facto que estas diferenças ou evoluções poderão dever-se a muitos outros fatores.

Podem até ser “falsas diferenças”, ou diferenças pouco significativas de um ponto de vista estatístico e sociológico. Nem tudo o que sucede num intervalo temporal e com um dado contexto histórico se deve a esse timing específico. Este é um factor importante, mas não é o único. Uma das razões é porque este não altera significativamente as diferenças sociais já existentes: as classe baixa, média e alta não viveram da mesma forma os efeitos da crise, por exemplo.

Por vezes também há “falsas semelhanças”. Estas poderão advir da observação de apenas dois pontos no tempo. Para dar um exemplo, alguns dos jovens que foram entrevistados em 2009 no âmbito de um estudo sociológico longitudinal revelaram que, em 2016, desempenhavam profissões idênticas às de 2009. Contudo, tal não deve permitir afirmar que estes jovens “continuaram” a desenvolver as mesmas atividades profissionais e que, portanto, a crise não teve efeito no rumo, direção e ritmo das suas trajetórias profissionais ou no seu poder de compra, real e relativo. Esta aparente “continuidade” nada nos diz sobre o nível de apoios sociais de que dispuseram, sobre os episódios de desemprego que possam ter vivido, ou sobre uma possível trajetória social ascendente interrompida. Janelas de observação muito estreitas trazem inevitavelmente leituras afuniladas da realidade – de tal forma incompletas que amiúde se revelam profundamente erradas.

 A mobilidade social é muito provavelmente o conceito mais intrinsecamente sociológico de todos. Permite traçar a trajectória de um indivíduo (e de somatórios destes) desde a sua origem social (que profissões, escolaridades, rendimentos, condições de vida, estilos de vida têm os seus pais). Permite ainda compreender de que forma esse ponto de partida foi contaminando o seu percurso escolar e profissional e foi colocando, ou eliminando, obstáculos a uma melhoria das condições de vida (relativamente à que teve na família de origem). O modo como o estudo destas questões decorre tem de ser rigoroso e minucioso. É fundamental vigiar criticamente os seus usos e as suas consequências sociais e políticas. Uma análise das transformações dos estudos de mobilidade social ao longo do tempo não deixa muitas dúvidas: face aos problemas existentes, é fundamental atingir um grau de realismo significativo à análise dos percursos sociais dos indivíduos e, com isso, mudar o campo de saber. Os custos da inércia a este respeito são altos.

Uma das questões centrais remete para necessidade de aperfeiçoar, e por vezes corrigir, as explicações que resultam deste olhar estatístico. Não se trata aqui de contribuir para a rivalidade tola dos “números” versus “discursos”. Nem de defender a prevalência ou a superioridade dos métodos qualitativos (as entrevistas com os indivíduos ou a observação direta dos locais de trabalho, por exemplo). Trata-se, isso sim, de demonstrar como as análises meramente numéricas obscurecem “detalhes” que atrapalham ou mudam necessariamente a história que se pretende contar, a vida que se quer compreender, o problema social que se pretende identificar e combater.

Parte dos estudos sobre mobilidade social evoluiu no sentido da complexificação estatística. Mas esta nem sempre significa a eficaz compreensão dos percursos dos indivíduos sob estudo. Uma análise de mais de 1000 publicações portuguesas e internacionais sobre mobilidade social desde 1920 revela três períodos distintos dos estudos da mobilidade social (1920-1960; 1960-1990; 1990-2012). Embora em todos eles exista uma predominância dos estudos quantitativos, o período de 1960 a 1990 revelou-se a “idade de ouro” neste tipo de estudos. Por um lado, devido à sofisticação do pensamento e método estatístico. Por outro, porque a preocupação social de traçar sociologicamente as vidas das pessoas, com mais rigor e precisão, aumentou. O intenso debate internacional entre diferentes correntes teóricas para isso contribuiu. A preocupação quantitativa de medir e tipologizar as trajetórias dos indivíduos, predominantemente anglo-saxónica, tinha algo em comum com a  preocupação, maioritariamente francófona, de perceber como os processos de mobilidade e de reprodução social ocorrem e que consequências têm para os indivíduos em termos de identidade de classe. Ambas procuravam compreender os fenómenos de “transmissão” da pobreza na família, de estabelecimento de sistemas meritocráticos inter e intra-generacionais e, também, a possibilidades de materializar uma ideia de justiça social. Infelizmente, estes tópicos perderam protagonismo sociológico e, consequentemente, político. Não deviam.

Os estudos sobre mobilidade social têm-se deslocado, infelizmente, para os terrenos movediços das leituras econométricas e matematizadas das vidas individuais. Têm sido e são colonizados por leituras de outros fenómenos próximos, mas que não são os mesmos. Pense-se, por exemplo, no caso das desigualdades sociais. Acontece que um coeficiente – de Gini ou outro – não é capaz de sintetizar um processo social, muito menos um que é tão multifacetado como o da mobilidade social. Esse coeficiente não foi, aliás, concebido para tal propósito. No entanto, desde 1990, os estudos sobre estas duas temáticas – mobilidade social e desigualdade social – aproximaram-se em demasia. O resultado tem sido, em alguns casos, pura confusão analítica e um esbatimento da clareza dos argumentos explicativos e de medição próprios, o que empobrece o estudo de ambos os fenómenos. Ademais, alguns autores têm alertado para o paradoxo que liga desigualdade e mobilidade. De facto, uma sociedade com mais mobilidade social não é necessariamente uma sociedade com mais igualdade ou justiça social. E vice-versa. Por exemplo, uma sociedade pode tornar-se mais permeável à mobilidade social, mas disso apenas beneficiarem aqueles que restam no país, depois de processos de emigração massiva (resultado, por sua vez, de desigualdades sociais).

Os estudos da mobilidade social têm-se ainda dirigido para longe da “família” enquanto microcosmos particularmente revelador dos mecanismos  e dos processos de mobilidade e de reprodução social. De facto, a mobilidade social continua a dar protagonismo a um só ponto de partida, a uma só suposta origem social, em vez de reconhecer que toda a trajetória ocupacional, residencial e económica da família de origem e da família adquirida tem uma influência significativa. As vidas são interdependentes e os percursos profissionais de cada indivíduo são afectados pelos dos membros das suas famílias. Apesar disso, a mobilidade social continua a ser um indicador individual e não familiar. Tal não sucede, por exemplo, com o cálculo do limiar da pobreza, que tem em conta o agregado doméstico.

As ciências sociais não se devem deixar dominar pelas razões econométrica e estatística, por receio de não serem financiadas ou valorizadas política ou socialmente. Devem abraçar as inúmeras possibilidades abertas por ambas, mas não devem afastar-se de outros pilares da sua identidade. Os custos da inércia a este respeito são de facto altos: prejudicar a capacidade de compreender a vida social, seus desafios e obstáculos. Os efeitos negativos nos estudos da mobilidade social são óbvios. Em nome de uma determinada conceção do que é a “ciência” do social e da aceitação de uma posição débil no jogo dos financiamentos públicos e privados, andamos a transformar as montanhas russas da vida em linhas rectas. 

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico