Perplexos é um fabuloso jogar ao teatro de alguém, Marius von Mayenburg, que conhece por dentro os clássicos e traduziu de Shakespeare e Sarah Kane, e se diverte com isso a questionar a máquina de cena Estelle Valente

Quatro personagens à procura da memória (e de encenador)

Segundo mergulho de Cristina Carvalhal em textos de Marius von Mayenburg, Perplexos, de 26 de Abril a 6 de Maio, no São Luiz, Lisboa, coloca em cena uma delirante reflexão sobre a máquina teatral.

O primeiro sinal de estranheza quando Sara e Pedro regressam de férias é uma planta fora do sítio. Claro que já antes parece não haver luz em casa, algum dos dois se terá esquecido de pagar a conta e, pelos vistos, o casal amigo que ficou de regar as plantas e cuidar de tudo o resto na ausência de Sara e Pedro nalguma ilha tropical terá sido, no mínimo, negligente com a chegada de facturas a pagar em tempo útil. Entre as quais, a da malfadada companhia da electricidade. Mas a competência de Sílvia e Nuno, o casal amigo, terá, por outro lado, sido excedida no tratamento das plantas – a ponto de fazer aparecer um espécime botânico que nunca antes tinha sido avistado entre aquelas paredes. Diz Sara, ainda mal entrou em casa: “Nem sequer fazia ideia de que existia uma planta assim. E, mal entro na cozinha, lá está ela, a olhar para mim.”

Pouco depois chegam Nuno e Sílvia e começa a desenhar-se o constante reajustamento das personagens em cena. Cada uma responde pelo nome próprio dos actores (Sara Carinhas, Pedro Lacerda, Sílvia Filipe e Nuno Nunes, nesta encenação que ocupa o Teatro São Luiz, Lisboa, de 26 de Abril a 6 de Maio), mas as personagens e as suas relações não serão sempre as mesmas. Naquela mesma sala de uma casa de que, às tantas, já não sabemos quem é o proprietário, tudo está em transformação. É como um carrossel que Marius von Mayenburg põe a rodopiar e de cada vez que piscamos os olhos, toda a acção em palco se alterou um pouco, nunca se desviando muito da situação original, mas torcendo-a repetidas vezes para ter a certeza de que não há como voltar ao início.

De certa forma, é como se Mayenburg, mascarando Perplexos de uma espiral de absurdo e comicidade, trabalhasse, afinal, a partir da ideia de que, como diz a encenadora Cristina Carvalhal, “a memória é fluida, plástica”. À medida que o texto avança, dir-se-ia que apaga o rasto deixado pelas cenas anteriores, existindo apenas num curto momento que provoca desorientação nas personagens quando o seu papel em cena muda, mas rapidamente é integrado na nova cena, eliminando o que está para trás. Funciona, portanto, como se o passado não tivesse espaço para existir ou pudesse ser repetidamente apagado para que cada momento pudesse ser e conter toda a verdade. Não é por acaso, aliás, que o lixo é atirado para debaixo do sofá, como se a toda a hora essa memória fosse varrida de cena, mesmo nunca desaparecendo do campo de visão – e a súbita aparição de uma personagem vestida de nazi parece comentar isso mesmo: a História, por mais que se tente esconder, não desaparece com tanta facilidade.

É também por isso que Cristina Carvalhal liga Perplexos a A Pedra, o outro texto de Mayenburg a que se tinha anteriormente lançado, em 2011. Se em A Pedra o dramaturgo percorria a História da Alemanha em “cinco ou seis momentos”, começando o seu trajecto num período anterior à II Guerra Mundial e terminando já depois da queda do Muro de Berlim, em Perplexos, por outro lado, reflecte a encenadora, é como “se ele fosse aina mais longe e nos perguntasse ‘então e se não houver memória?’” Se em A Pedra acompanhamos uma jovem rapariga em idade casadoira antes da guerra, que assiste à ascensão de Hitler e à queda do Muro, em Perplexos nenhuma personagem resiste sequer à primeira esquina da passagem do tempo. E se em A Pedra alguns dos tempos históricos coexistiam com subtileza em palco, em Perplexos há um reboot constante. Nenhuma narrativa chega, de facto, a instalar-se.

Todos estes mecanismos inscrevem-se, na verdade, numa prática de questionamento das convenções teatrais que Marius von Mayenburg – tal como Thomas Ostermeier – vem explorando há vários anos na Schaubühne am Lehniner Platz, em Berlim. Questiona-se o que pode ser uma personagem, o que pode ser a cena, a existência da quarta parede. Em tudo, Mayenburg usa a medida do humor e do absurdo. Como, por exemplo, quando Sara se dirige a Nuno e lhe diz: “Nós não falamos com terceiros. Imagina que está aqui uma parede. (…) Não queres ficar aqui sozinho a falar para a parede, pois não? Não seria um comportamento normal.”

Toda esta abordagem poderia não passar de uma cumulação de gags, de desconstruções avulsas montadas em sequência, mas que se limitaria a um exercício – escrito e gerido com uma mestria cirúrgica, mas sem deixar de ser um exercício. Acontece que este discurso sobre a memória, ao mesmo tempo que afirma como profundamente político, é urdido de uma forma tão entrelaçada que qualquer tentação de limar o texto, extirpando-o de uma só frase que fosse, acabaria por equivaler a retirar um tijolo de uma parede (a quarta, imaginemos) e provocar o seu desmoronamento imediato.

Brincando ao teatro

Marius von Mayenburg escreve, à laia de introdução, que os actores na estreia da peça – que ele próprio encenou – se chamavam Eva, Judith, Robert e Sebastian, e que “tiveram a amabilidade” de o deixar usar os seus nomes próprios na peça. E delega nas futuras produções a decisão de manter esses quatro nomes originais ou substituí-los pelos nomes reais dos novos intérpretes – a opção seguida por Cristina Carvalhal. Mas alerta para a absoluta obrigatoriedade de manter o apelido Eckels. “Eckels é um nome que está foneticamente muito próximo de uma forma de dizer asqueroso, nojento”, descodifica Cristina Carvalhal. Os nomes das personagens repetem-se, invocando as várias Sílvias ou os vários Nunos, mas colocando-nos sempre a pensar se há um traço comum a todas as Sílvias e todos os Nunos. O que, de certa forma, equivale a perguntar se os actores não se apropriarão demasiado das personagens confundindo-se com elas, egoisticamente sobrepondo-se àquelas vidas ou figuras que devem servir.

“Servir” é precisamente a palavra escolhida por Cristina Carvalhal para falar do lugar de encenadora que Mayenburg – que se diz pouco amado entre os encenadores porque os textos lhes dão pouca margem criativa – lhe proporciona: “É um papel de humildade muito grande, tem de se servir de facto o texto – se o nosso trabalho é tirar coisas, numa peça do Mayenburg, pela minha experiência, o que se pede é mesmo não pôr nada a mais.” Até porque a pena cáustica do alemão não os poupa também quando, num momento em que se questiona a presença do encenador do espectáculo a que assistimos, Sílvia primeiro anuncia que este mandou deitar fora todo o cenário – “era muito melhor fazer assim, fazer isto no palco vazio, e que tinha de ser tudo muito mais radical, simplificado ao máximo, muito mais abracto e tão psicológico”, numa boutade evidente dirigida ao teatro pós-dramático –, para depois confessar “Às vezes tenho mesmo a impressão de que não há encenador.”

“Uma brincadeira dele porque cada vez mais hoje se trabalha com actores-criadores, depois de termos passado a fase das divas e do encenador que tudo criava”, comenta Cristina. E é aí que desponta também a alusão a Nietzche, quando os actores anunciam a morte do encenador como se matassem o seu deus. Vemos Nietzche aparecer tal como vemos a alegoria da caverna, de Platão, e a teoria da evolução, de Darwin, anunciadas ao mundo como epifanias pessoais de Nuno enquanto tomava um duche. Mais uma vez, a memória em falha, mas também a possibilidade de Mayenburg, falando sempre para o próprio teatro, ridicularizar a busca pela originalidade e a crença daqueles que acreditam fazer grandes revoluções com propostas já testadas, quando não gastas e caducas.

O certo é que ao banquetear-se com características do teatro pós-dramático – a ausência de personagens, uma vez que são continuamente boicotadas, ou a ausência de narrativa ou narrativa fragmentária –, Mayenburg as trabalha de acordo com uma forma clássica. Também por isso foi esta a peça em que Cristina Carvalhal pensou de imediato quando foi desafiada a sugerir um texto para o São Luiz: porque importa trazer uma reflexão sobre o teatro, sobre a necessidade actual não apenas estética mas da ordem prática e financeira de construir peças em que os adereços se sobrepõem ao cenário e permitem assim uma circulação muito maior e lidar de outra forma com constrangimentos da folha de excel. Só que, no paradoxo constante em que Mayenburg navega, a recusa desses elementos implica, em Perplexos, um palco de dimensões generosas, a presença de maquinistas, técnicos vários, aderecistas, um guarda-roupa variado e lesto.

Perplexos é, assim, um fabuloso jogar ao teatro de alguém que conhece por dentro os clássicos e traduziu de Shakespeare e Sarah Kane, e se diverte com isso a questionar a máquina de cena, permitindo-se colocar vários pauzinhos na engrenagem. Não para a fazer parar, mas apenas para a ver engasgar-se, soluçar, atrapalhar-se e ver, por entre gargalhadas, como é que se tenta safar.