Opinião

A “longa marcha” europeia de Emmanuel Macron

Macron quer reformar a Europa e isso é ainda mais importante do que reformar a França. Tem agora uma oportunidade, até às eleições europeias de Março de 2019.

1.Há coisas que são tão óbvias que quase nem damos por elas. Recentemente, numa conferência sobre a Europa e o mundo, organizada pela Fundação Oriente e pelo IPRI, quando estava a intervir um jovem conselheiro de Emmanuel Macron, doutorando na London School of Economics, um velho amigo fez um daqueles comentários que conseguem levar-nos a olhar para as coisas de outra maneira - esta geração, que anda à volta dos 40, não pode olhar para o mundo da mesma forma que nós. Shahin Vallée não utilizava meias palavras para dizer ao que vinha, nem fazia qualquer esforço para minimizar a sua ambição (e a de Macron) para a Europa. O mundo, para eles, ainda é para transformar, porque têm a vida à frente. O status quo parece-lhes um cenário impossível. O conselheiro do Presidente francês defendeu a necessidade de levar a integração europeia a dar um salto, com mais consistência política e mais solidariedade económica. Macron quer reformar a Europa e isso é ainda mais importante do que reformar a França. Tem agora uma oportunidade, até às eleições europeias de Março de 2019. Numa entrevista recente, Vallée vê este “momento-chave” para a Europa como o resultado de uma recomposição política profunda. “De um lado, a implosão da social-democracia europeia e, do outro, o Anschluss da direita identitária pura e dura sobre a histórica democracia-cristã.” Já nem a Alemanha e o Reino Unido, acrescentava, estão imunes a esta transformação. Vallée regressa à ideia da construção de um “demos” europeu que, mesmo que não esteja na próxima esquina, continua a ser um objectivo essencial. Precisamente, um dos instrumentos de Macron no sentido desta transformação são as listas pan-europeias para o Parlamento Europeu, a que muita gente já reagiu negativamente. Ainda não desistiu, admitindo que um primeiro ensaio possa traduzir-se num programa comum para o futuro da Europa, unindo as listas nacionais de diferentes partidos que convirjam na mesma visão. A pergunta é simples: porque não? A Brookings Institution também falava recentemente da “macronização” da política europeia, criando um espaço de “centro radical” capaz de ocupar vazio deixado vago por um centro-esquerda em queda generalizada (embora com excepções) e uma direita cada vez mais à direita, ao ponto de pôr em causa o núcleo de valores políticos sobre o qual foi construída. Sem eles, a Europa não tem qualquer razão de ser. O que fez o Presidente francês de inédito foi provar que um discurso de defesa intransigente da Europa e dos seus valores fundamentais, incluindo a abertura e a tolerância, pode ser ganhador. O que quer agora é outra aposta arriscada: criar no Parlamento Europeu um novo grupo político que espelhe esta vontade e que ponha em causa o domínio do PPE e dos Socialistas (que se arriscam a obter um resultado muito negativo) com um novo equilíbrio de forças políticas. Excesso de ambição? Talvez. Mas ambição e coragem é aquilo que mais falta faz aos líderes europeus.

2.A segunda ousadia do jovem da LSE (com um inglês quase sem sotaque) foi sobre a reforma da zona euro, que está hoje no centro da agenda europeia, pelas suas implicações políticas. Do seu ponto de vista, a aliança Paris-Berlim não é sagrada. Se a Alemanha não quiser ver a oportunidade criada pela eleição de Macron, a França não pode ficar eternamente à espera. Haverá, certamente, outras formas de criar as condições para uma negociação equilibrada entre Paris e Berlim, mais favoráveis à visão do Presidente francês. Pelo que se sabe hoje, as duas linhas convivem entre os conselheiros do Eliseu: a que ousa desafiar a Alemanha e a que insiste em que o eixo Paris-Berlim é sagrado. Caberá ao Presidente escolher o caminho que prefere. Com uma dificuldade acrescida: as condições da liderança da chanceler parecem hoje bastante mais limitadas do que foram na anterior legislatura. Merkel enfrenta hoje uma pressão muito maior do seu partido, voltando à velha conversa contra uma Europa “de transferências”, entre o dinheiro dos contribuintes alemães e as economias menos desenvolvidas do Sul e rejeitando muitas das propostas de Macron, que implicam, por exemplo, um orçamento próprio da zona euro, não apenas para acudir às crises deste ou daquele país, mas também para investir em reformas indispensáveis para a convergência real das economias. Um pouco como se nada tivesse acontecido nestes quase 10 anos de crise, mesmo que o Presidente francês continue a ser olhado, incluindo na imprensa mais conservadora, como uma oportunidade única que Berlim não pode desperdiçar. Macron prometeu as reformas de que a França precisa para dar novo vigor à sua economia, num quadro de contas públicas equilibradas. Esta a fazê-las com mais sucesso do que se esperaria inicialmente. A contestação nas ruas era inevitável, sobretudo quando essas reformas põem em causa os regimes privilegiados de alguns sectores do Estado (o caso paradigmático da SNCF). Vão morrer na rua, como quase sempre aconteceu? É muito pouco provável. Macron prometeu aos franceses uma “revolução”, o título do seu livro-programa. Em menos de 2 anos, fez o impossível, criando um partido do zero que hoje domina a Assembleia Nacional. A sua margem de manobra política ainda é ampla. “Macron en force, manifs en baisse” era, na sexta-feira, o grande título do insuspeito Libération. Ao contrário do que se tornou a prática da maioria dos partidos políticos das democracias europeias, o Presidente francês prefere definir os objectivos de longo prazo, adaptando as medidas políticas em função deles, em vez de apresentar listas infindas de promessas, que acabam por impedir que se veja o conjunto. Mas esta é apenas a metade do seu programa, como lembrou o seu conselheiro em Lisboa. O grande objectivo é a reforma da União Europeia, num mundo que “é preciso começar a olhar de frente”. Apesar das reservas alemãs, não irá desistir facilmente. 

3.Também parece haver uma nova geração na CDU que olha para o futuro de outra maneira, mais tentada a olhar para o interesse alemão do que para o interesse europeu, apagando da memória o que a Europa foi para a Alemanha e como é a grande beneficiária do euro. A entrada em força da extrema-direita no Bundestag e os resultados historicamente baixos do SPD e da CDU, não ajudaram. Merkel colocou o seu partido ao centro. Os candidatos mais jovens à sua sucessão colocam-no mais à direita. Mas, lá como em França, é esta nova geração dos netos de quem viveu a guerra que começa a colocar as suas cartas sobre a mesa. A outra relativa surpresa é o SPD. Ao contrário de Martin Schulz, que vinha do PE, os sociais-democratas não têm corrido em apoio a Macron. O novo ministro das Finanças, Olaf Scholz, mantém uma relativa ambiguidade sobre a reforma da zona euro. Um exemplo: o terceiro pilar da união bancária, a garantia comum dos depósitos, não é para já, reproduzindo a posição da CDU. 

4.O Presidente francês não pode aceitar uma reforma de “fachada”, que mude alguma coisa para que tudo fique na mesma. Vallée lembra que ele corre um risco grande, se as suas ambições europeias falharem durante o primeiro mandato. No seu discurso de Estrasburgo, desafiou os europeus a vencer a “guerra civil” que hoje se trava entre os valores europeus da democracia liberal e a sua perversão, advertindo sem meias palavras para o perigo que essa tendência representa. Em Berlim, (ainda) reina a prudência. O partido de Orbán faz parte do PPE. A Alemanha tem um interesse particular nos países de Leste, económico e também político. Ainda não aderiu à ideia de uma integração mais flexível, em torno de um núcleo duro, de preferência os países do euro, que parece hoje inevitável. Merkel precisa de Macron para a segurança e defesa, para “preservar”, como ela própria diz, a relação transatlântica, para clarificar as relações com a Rússia, para contrariar o proteccionismo no comércio internacional. Vai ter de convencer os alemães de que é preciso dar alguma coisa em troca.