Crónica

A vida difícil da eutanásia

Eu também já estive muito mal e nunca quis morrer. Parabéns, pensei eu, que isso de responder em voz alta a perguntas feitas num autocarro a abarrotar é esperar que as convicções sobre o valor sagrado da vida sofram uma reviravolta dramática enquanto o diabo esfrega um olho.

Primeiro foi o aborto, agora é a eutanásia, e a seguir é o quê, perguntou o homem de camisola azul a quem o quisesse ouvir no autocarro, fingindo que só queria saber a resposta da senhora de blusão branco que estava sentada mesmo ao seu lado.

Sim, já não há respeito pela vida? Eu também já estive muito mal e nunca quis morrer. Parabéns, pensei eu, que isso de responder em voz alta a perguntas feitas num autocarro a abarrotar é esperar que as convicções sobre o valor sagrado da vida sofram uma reviravolta dramática enquanto o diabo esfrega um olho.

Mas há sempre um herói, todas as histórias precisam de um, não vá a nossa vida matar-nos a esperança de viver e depois fica tudo virado do avesso, coisa para psiquiatras e uns dois Prós e Contras.

Então e só porque você não quis morrer, isso quer dizer que as outras pessoas também não podem querer morrer, perguntou o homem de camisa verde aos quadradinhos. Castanhos, parecia-me dali.

Pronto. Já não me lembrava de que as pessoas do Facebook também podem ser rudes na vida real.

Você parece que é parvo, homem! Se quiser morrer, que morra; não venha é pedir aos médicos que o matem. Eles não juraram lá aquilo do hipopótamo para agora virem uns papagaios mudar isto tudo. Ui, que piada tão fraquinha essa do hipopótamo e dos papagaios, pensei eu, que isso de dar notas às gracinhas dos outros em voz alta no meio de uma discussão destas é coisa para se arranjar um galo daqueles.

Mas pensam que o outro se ficou? Em primeiro lugar, ele que voltasse a chamar-lhe parvo; em segundo lugar, é Hipócrates e não hipopótamo, um reparo que eu achei ser despropositado em face da questão maior que ali nos prendia; e, em terceiro e último lugar, ele que voltasse a chamar-lhe parvo.

O QUE É QUE VOCÊ FAZ SE EU LHE CHAMAR PARVO OUTRA VEZ, perguntou o homem que defendia a vida de quase toda a gente com unhas e dentes, excepção feita àquele desgraçado da camisola verde aos quadradinhos, castanhos parecia-me dali, que se arriscava a descobrir já já onde é que o outro gostava de lhe cravar as unhas e de lhe marcar os dentes.

A senhora de blusão branco levantou-se e foi para junto da porta. Aparentemente já não estava interessada naquela discussão sobre se a vida é ou não intocável, e também não queria descobrir a resposta a essa pergunta sob a forma de um pontapé na cabeça com a pontaria desafinada.

Parvo para aqui, chame-me parvo outra vez, só mais uma, para ali, os dois homens lá iam tentado resolver, de uma vez por todas, a principal questão sobre a eutanásia.

Sim, ou não? Pode um ser humano receber ajuda para morrer, se morrer é o que ele quer e outra ajuda não pode ter? Sim, porque não se pode obrigar uma pessoa a sofrer, seu fanático! Pode um médico indicar ao paciente o caminho mais curto para a morte, essa espécie de tratamento alternativo com carácter permanente e definitivo? Não, porque a vida é um bem sagrado, primeiro foi o aborto, agora é a eutanásia, e a seguir é o quê?

A seguir, o homem de camisola azul levantou-se e tocou na campainha, tinha mesmo de sair naquela paragem porque o bilhete para o jogo já tinha sido caro, imaginem lá se ia perder o início por causa de uma discussão no autocarro. Desculpe lá ter levantado a voz, disse o homem de camisola azul ao homem de camisa verde aos quadradinhos, castanhos parecia-me dali. Um gajo às vezes passa-se dos carretos e a coisa até nem é nada connosco. Mas olhe, ai deles que aprovem isso da eutanásia!