Carlos Gil foi alertado muito cedo para o início da revolução e apanhou os passageiros do primeiro cacilheiro a atracar em Lisboa Carlos Gil

Carlos Gil usou as botas no 25 de Abril e pelo mundo fora

Com o 25 de Abril de 1974 prestes a completar 44 anos, recordamos um dos fotojornalistas que transformou a revolução em imagens, em Lisboa. Carlos Gil foi, naquele dia, “uma redacção inteira”. Mas não apenas nesse dia. Freelancer, registou vários conflitos, da Nicarágua ao Iraque. Ser jornalista, para ele era “usar as botas”, em vez de ficar fechado numa redacção. Fê-lo até as gastar.

Maria Judite não diz se naquela manhã do dia 25 de Abril de 1974 a máquina fotográfica do marido estava no sítio que tantas vezes ocupava: na mesa ao lado dele, na sala onde ambos dormiam num colchão, para que os filhos tivessem um quarto. Mas é bem provável que assim fosse. “Eu dormia do lado esquerdo e a máquina muitas vezes do lado direito. Uma máquina com uma grande teleobjectiva, do lado direito. Eu às vezes fazia comentários engraçados [sobre isto] e ele ria-se muito”, conta, na mesma sala, do mesmo apartamento de Lisboa em que, naquela manhã de 25 de Abril de 1974, o telefone tocou.

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Carlos Gil, repórter (fotográfico e da escrita), tinha 36 anos e trabalhava para a revista Flama. Do outro lado da linha estava um vizinho do prédio, conta a viúva do fotojornalista, a dizer-lhe que pegasse na máquina e fosse para a rua, porque havia uma revolução. Seriam umas 6h, talvez. E ele pegou e foi. “Ele saiu para a rua e só passados dois ou três dias é que veio a casa. Entretanto, as únicas notícias que recebi dele foram de um soldado que me bateu aqui à porta com um bilhetinho, que eu gostava de encontrar. A ideia que eu tenho das palavras [que lá vinham] é que estava bem, que não me preocupasse, mas que não saísse. Eu tinha duas crianças pequenas e depois não tive mais notícias dele”, recorda.

É que na rua estava tudo a acontecer. A expectativa de que alguma coisa estaria em marcha não seria novidade para o fotojornalista. Conhecia pessoas das artes e da luta contra o regime. Na sala de sua casa, havia reuniões políticas que, por vezes, se estendiam madrugada fora, obrigando Judite a dormir “sentada numa cadeira na cozinha, ou na casa-de-banho, ou no quarto dos miúdos”.

O filho mais novo, Daniel Gil, que na altura ainda não era nascido e assumiu a responsabilidade de cuidar do espólio do pai, após a morte dele, em 2001, acredita que “não foi propriamente uma surpresa” que uma revolução para acabar com a ditadura irrompesse em Lisboa. “Porque o meu pai tinha contactos com uma série de pessoas ligadas à revolução, de alguma forma. Não directamente com os militares, obviamente, mas era algo que se estava a preparar, algo que se sabia que podia acontecer, não sei se naquele dia, mas mais cedo ou mais tarde”, conta. Apesar disso, também sabe que o pai não esperava, de todo, que fosse naquela quinta-feira de finais de Abril que tudo se precipitaria. A razão óbvia: teve de pedir rolos emprestados para poder trabalhar. “Ele teria dois ou três rolos e sei que pediu rolos emprestados, uns positivos, outros negativos, pelo que não estaria certamente preparadíssimo para essa manhã”, diz.

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Daniel, o filho mais novo, guarda as memórias do fotojornalista Nelson Garrido

Certo é que bem cedo, Carlos Gil estava na rua. Tão cedo que pôde captar aquela que é a imagem favorita daquele dia para o filho mais novo. A de uma multidão a correr pelo Terreiro do Paço, os passageiros do que terá sido o primeiro cacilheiro a atracar em Lisboa naquela manhã. Levam rostos sorridentes, esperançosos, vão em busca da coluna militar que o capitão Salgueiro Maia levara de Santarém até à capital. “É uma foto que acho simples, mas com uma carga enorme. A percepção do povo do que estava a acontecer.” Ali, estava o que Carlos Gil descrevia como “usar as botas”, recorda Daniel. “Eu acho que ganhei muito dele a necessidade de comunicar e falar com as pessoas, de me deslocar e não propriamente de usar uma lente grande e ficar lá atrás. Usar as botas, como ele dizia.” Ir para os locais onde as coisas aconteciam, fosse em Lisboa ou em qualquer parte do mundo.

Durante o resto do dia, Carlos Gil esteve por todo o lado. No Terreiro do Paço, no Largo do Carmo, junto à sede da Pide. Mostrou a população radiante, empoleirada em árvores, candeeiros públicos, varandas, telhados e cabines telefónicas. Captou as camisolas e braços ensanguentados de dois jovens, que estavam junto à sede da Pide, na Rua António Maria Cardoso, quando de lá de dentro foram disparados os tiros que causaram as únicas vítimas mortais da revolução: quatro pessoas. E colocou o jornalista Adelino Gomes na revolução, diz este, pelo telefone, com um sorriso na voz. “Foi o Carlos Gil que me colocou no 25 de Abril”, conta.

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A brincadeira tem por base mais uma fotografia que Gil fez naquele dia. Mostra um grupo de jornalistas, incluindo Adelino Gomes, que cobriu os acontecimentos para a rádio, sentados num Unimog, a acompanhar os acontecimentos. O repórter, que já foi jornalista do PÚBLICO, está a levantar-se, olhar atento, a observar algo. A fotografia está no livro Carlos Gil, Um Fotógrafo na Revolução, coordenado por Daniel Gil e com texto de Adelino Gomes, que foi lançado em 2004, já depois da morte do fotojornalista.

Todos na rua

Ao contrário de outros repórteres fotográficos que guardaram em imagens o 25 de Abril de 1974, Carlos Gil nunca publicou em vida uma obra exclusivamente dedicada ao trabalho daquele dia. A excepção será o livro Portugal Livre, que saiu logo em 1974, e que reúne parte do trabalho de 20 fotógrafos que ali estiveram. São 20 nomes, muitos dos quais tantas vezes esquecidos. Adelino Gomes também fez as legendas e o texto de introdução desse livro, criado a pedido dos próprios fotógrafos. “Há notícia em cada uma daquelas imagens. Todos merecem o nosso respeito”, diz o jornalista, referindo-se a Abel Fonseca, Alberto Peixoto, Alfredo Cunha, António Xavier, Armando Vidal, Carlos Gil, Correia dos Santos, Eduardo Baião, Eduardo Gageiro, Fernando Baião, Francisco Ferreira, Inácio Ludgero, João Ribeiro, José Antunes, José Tavares, Lobo Pimentel Jr., Miranda Castela, Novo Ribeiro, Rui Pacheco e Teresa Monserrat.

Todos andaram pelas ruas de Lisboa, mas o primeiro com quem Adelino Gomes falou, foi, precisamente, Carlos Gil. “Quando fui autorizado a passar para o lado dos militares só lá estavam os fotógrafos. Eu não tinha carteira profissional, que era só para os jornais diários, por isso, só muito tarde é que consegui chegar juntos dos militares e o primeiro jornalista com quem falei foi com o meu amigo Carlos Gil. ‘Ei, pá, estes gajos de que lado é que estão’, perguntei-lhe?”. Ele também ainda não tinha muitas certezas, mas rapidamente se percebeu que era a democracia que estava a chegar. “Naqueles dias, ele foi uma espécie de redacção. Ele era uma redacção inteira, daqueles fotógrafos que têm uma capacidade extraordinária, não só de fazerem muita coisa, mas de fazerem muita coisa bem. Não era um tipo que tinha ilustrado o trabalho de outras pessoas, mas que tinha feito uma reportagem por inteiro, estava nos vários sítios e narrava a história de uma forma autónoma”, conta Adelino Gomes.

Um exemplo concreto: pouquíssimos dias depois da revolução, Carlos Gil procurou-o e perguntou-lhe se não queria fazer uma entrevista a Salgueiro Maia. Sabia que tinham andado juntos no liceu, e desafiou Adelino Gomes a procurar o ex-companheiro de escola em Santarém. “Foi uma entrevista que até causou alguns dissabores ao Maia, porque o acusaram de se estar a pôr em bicos de pés. Mas foi a primeira entrevista do capitão Salgueiro Maia, que foi publicada na revista brasileira Factos & Focos, e por iniciativa do Carlos Gil”, diz.

A carreira jornalística de Carlos Gil foi quase sempre assim. O filho Daniel recorda mesmo que foi por causa do pai que o Sindicato dos Jornalistas acolheu, oficialmente, a designação de freelancer. Apesar de ter trabalhado em algumas publicações – começou como estagiário n’A Capital, primeiro como jornalista e só depois abraçando a fotografia, e foi, por exemplo, editor da revista Mais – foi sozinho e enquanto freelancer que fez a maior parte dos trabalhos que lhe ocuparam a vida, em pontos do mundo tão distintos como El Salvador, Marrocos, Iraque ou Nicarágua. E pensar que poderia ter sido um bem-comportado advogado.

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Carlos Gil nasceu em 1937, em Mortágua, mas só por acaso, porque era aí que estavam os avós. Os pais viviam em Figueira de Castelo Rodrigo, onde o pai do fotojornalista geria uma mercearia tradicional. Muito cedo, Carlos percebeu que não era aquele futuro que queria e foi estudar Direito para Coimbra, onde nunca se apaixonou pela advocacia, mas conheceu José Afonso e descobriu uma vocação: o teatro. Participou na fundação do grupo de teatro independente Teatro d’Hoje e foi membro do CITAC - Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra.

Com o curso por completar, parte para Lisboa. Conhece Judite por acaso e, depois de um primeiro encontro falhado (ele estava interessado era numa amiga dela), reencontram-se cerca de um ano depois e apaixonaram-se. “O auge da paixão” que ambos viviam foi cortado, contudo, com o envio de Carlos Gil para Timor.

Do Direito para o jornalismo

A passagem do soldado pelo remoto território do vasto “império” nacional não foi traumática. “O tempo dele em Timor foi magnífico”, garante Maria Judite. Se exceptuarmos, claro, o facto de ter deixado em Portugal a mulher por quem estava apaixonado. Ela diz que a ausência dele foram “dois anos de muito sofrimento”. Ele escrevia-lhe “cartas de 15 e 20 páginas, todos os dias, a todas as horas” e chegaram a combinar que ela iria ter com ele à ilha. Mas Judite, pragmática e ansiosa por ter a sua própria independência, arranjara um emprego em Lisboa e não quis abandonar a possibilidade de, finalmente, ser senhora de si própria. “Não fui ter com ele a Timor. Hoje estou arrependida, mas pronto.”

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Lá longe, Carlos Gil ensaiava os primeiros passos na fotografia. Comprara uma máquina fotográfica numa escala da longa viagem até Timor e foi na ilha que captou as primeiras imagens. O trabalho militar não era duro – “pertencia aos serviços administrativos”, recorda a viúva, explicando que por lá Carlos Gil fez teatro e rádio. “Teve uma tropa santa”, remata. Regressou em Agosto de 1965 e em Dezembro estavam casados. Apenas pelo civil, para “desgosto” dos pais de Carlos. Mas Timor nunca foi deixado completamente para trás e Maria Judite diz que o marido acalentava o desejo de lá regressar para dar aulas, o que nunca chegou a fazer, porque, entretanto, ficou doente. As aulas ficaram-se pelo Cenjor, onde ensinou Fotojornalismo e Reportagem, entusiasmando-se com mais esta vertente da sua vida. “Ele gostava muito de dar aulas. Falava muitas vezes nisso, nos alunos, como é que era. E, sobretudo, do que ele gostava mais era, de repente, das novidades que vinham do lado dos alunos. Isso era uma coisa que o entusiasmava muito”, recorda o amigo e produtor de audiovisual João Barba, lembrando-se de quando Gil chegava ao pé dele com uma frase do género: “Ei, pá, tenho lá um tipo brilhante que me veio com uma ideia não sei o quê, apresentou-me isto e fez aquilo.”

Mas, isso, seria mais tarde. Em 1965, de regresso a Lisboa, Carlos ainda tentou acabar o curso do Direito. Fez a frequência do 4.º ano do curso na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas o esforço não chegou para o tornar advogado. De novo, o teatro chamava mais alto. Juntou-se ao Grupo Cénico da Faculdade de Direito de Lisboa, do qual foi actor e membro da direcção, e até chegou a participar num festival mundial de teatro universitário, em França, trazendo de lá uma menção honrosa. O estudo das leis é que não o convencia. E quando, finalmente, decidiu que já chegava e que era pelo Jornalismo que queria ir, deixou Maria Judite feliz. “Ele não tinha vocação nenhuma para Direito, era uma negação total. Tirou aquele curso a fórceps, não tinha nada a ver com ele. Eu fiquei tão contente. Os pais dele ficaram tristíssimos, queriam muito ter um filho doutor, e diziam muitas vezes, ‘a Judite em vez de o apoiar, não o apoia’. E eu dizia ‘porque eu acho que ele não tem jeito nenhum e ele vai ser muito infeliz se prosseguir a carreira de Direito’.”

Por isso, Carlos Gil foi ser feliz a ser jornalista. Entrou n’A Capital em 1968, num estágio para redactor, mas rapidamente a fotografia levou a melhor. Fotografou o funeral de António de Oliveira Salazar, em 1970, e a cimeira dos Açores, em 1971, em que Marcelo Caetano recebeu os presidentes norte-americano e francês, Richard Nixon e Georges Pompidou. No dia 29 de Março de 1974 esteve nos bastidores do concerto que juntou as vozes dos grandes cantores de intervenção no Coliseu dos Recreios (e em que José Afonso cantou a Grândola, Vila Morena, sem se saber ainda que essa seria a senha da revolução que se desenrolaria menos de um mês depois). Nos dias que se seguiram à revolução continuou na rua, a registar o regresso de Mário Soares, de Álvaro Cunhal e de José Mário Branco. Esteve, com Judite, no 1.º de Maio em que os líderes socialista e comunista ainda se apresentavam lado a lado. Captou Vasco Gonçalves, indigitado primeiro-ministro, à espera, em vão, que lhe abrissem a porta da Assembleia da República. Acompanhou campanhas eleitorais, incluindo a de Otelo Saraiva de Carvalho, em 1976. E, pelo meio, e depois disso, andou pelo mundo. Em casa, ficava Judite com as crianças.

As partidas de Carlos começaram logo no 25 de Abril, quando esteve aqueles dois ou três dias sempre a trabalhar. “Nessa altura, mesmo depois de aparecer em casa, quase que não parava. Porque aconteceu tanta coisa, tanta coisa que era importante ele retratar. Durante muito tempo pouco o via”, diz a mulher, hoje com 75 anos. Nessa altura, ela sabia que ele andava por ali, pela Lisboa que era casa. Mas, quando o destino era longínquo, num período em que não havia Internet nem comunicações móveis, a angústia podia ser muita. Como quando a avisaram, da RTP, que iria passar uma notícia a dar conta que Carlos Gil fora raptado enquanto estava a bordo de um barco na Nicarágua. “Eu só dizia aos meus filhos: vocês já viram a bela (tive que tomar não sei quantos Valium), a bela da reportagem que o vosso pai vai fazer? Vocês nem fazem ideia, vão ver. Foi raptado, mas se calhar por pouco tempo.” A “notícia” acabaria por revelar-se falsa logo no dia seguinte, com o próprio fotojornalista a desmenti-la numa entrevista à rádio. Mas “a aflição” das horas passadas, já ninguém a roubava a Judite. Que, ainda assim, sorri: “Não foi muito fácil, mas foi uma maravilha. Foi uma maravilha viver com ele. Eu admirava-o muito, como ser humano e como profissional. Era um profissional empenhado até à medula.”

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Dele, a família e os amigos descrevem um ser humano generoso, preocupado com os excluídos, empenhado politicamente, um homem de esquerda, respeitado nos meios de comunicação internacionais e que chegava onde poucos iam. E muito vaidoso do seu trabalho. “Era vaidoso no sentido em que o trabalho não era fácil e ele conseguia fazer coisas e chegar a sítios onde também não era fácil chegar”, conta Barba. A experiência em El Salvador, onde esteve a viver mais de 20 dias com os guerrilheiros da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), em 1982 (“chegou cá com menos dez quilos, quase que nem o conhecia”, diz Judite), terá sido a que mais o marcou. Mas o trabalho levou-o também à Nicarágua (1982), várias vezes ao Iraque (onde cobriu a guerra Irão-Iraque, em 1980 e 1981, e chegou a enviar reportagens para a TSF e a RTP em 1991, nas vésperas da Guerra do Golfo), ao Líbano (1974), Moçambique (1975), ao Saara Ocidental (1981), a Angola (1985) ou à China (1985).

Os prémios e a saudade

Carlos Gil mexia-se bem. Procurava as fontes e alimentava-as. João Barba, que o acompanhou numa viagem ao Iraque em 1997, ficou surpreendido com a proximidade e o respeito que ele conseguira junto dos homens de Saddam Hussein. “Na frente de combate [da guerra Irão-Iraque] ele chegou a estar cercado, chegou a estar em situações complicadas. Não tinha que estar lá, obviamente, podia ter fugido, mas não fugiu e ficou lá até à última e era considerado. Como tinha aquela figura de cabelo branco, aquela imagem enorme da postura dele, era conhecido em todo o lado”, conta. A cena mais marcante dessa viagem, recorda, foi quando Carlos Gil lhe disse que tinham sido convidados para a festa de aniversário de Saddam Hussein, a 28 de Abril. Barba não queria, mas Gil insistiu, para evitar problemas com o regime.

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A festa foi no que João Barba descreve como “uma espécie de sambódromo”, onde estavam “vinte e tal oficiais todos iguais uns aos outros”. Diz que não conseguiu perceber qual deles era o aniversariante e admite ter dúvidas que ele lá estivesse. Mas houve danças, um bolo de aniversário e – surpresa final – um “Parabéns a você” cantado ao som da música que também cá se usa, mas em árabe. “Nem queria acreditar que aquela música de Parabéns a Você também fosse usada no meio de Bagdad, numa praça para fazer desfiles militares e que tinha um general a cortar o bolo e toda a gente a cantar os parabéns ao menino Saddam”, ri.

Curiosamente, apesar de tantos trabalhos internacionais, as fotografias que lhe garantiriam, em dois anos consecutivos, o Prémio Gazeta na categoria da imagem, foram feitas bem perto de casa. Em 1984, conseguiu-o com uma fotografia de Otelo, preso em Caxias. A imagem foi captada com uma pequena Minox, que o fotojornalista levaria escondida. Daniel Gil diz que há a possibilidade de a fotografia ter sido “encenada”. A mãe, Judite, ri ao lembrar a história que ouviu ao marido. “Sabe como aconteceu isso? Vou-lhe contar. Ele, para entrar na prisão, fez-se passar por um diplomata brasileiro. E levava com ele uma maquineta, uma coisinha deste tamanho, que ele escondeu não sei onde.”

No ano seguinte, a imagem que garantiu o segundo Gazeta a Carlos Gil foi uma fotografia dos desacatos à porta da Cinemateca, antes da exibição do filme de Jean-Luc Godard, Eu te saúdo, Maria, considerado atentatório dos bons costumes e preceitos católicos. Os protestos, encabeçados pelo então presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Kruz Abecassis, não impediram que a projecção avançasse, ainda que com quase uma hora de atraso.

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Estes e outros prémios que Carlos Gil recebeu ao longo da vida, estão agora na antiga mercearia da família em Figueira de Castelo Rodrigo. Depois da morte do pai, Daniel Gil, que também se dedica à fotografia e ao vídeo, e gere agora, com a mulher, uma “saborearia” em Lisboa, decidiu mudar-se de armas e bagagens para a vila do distrito da Guarda. Reabilitou a casa de família, reabriu a mercearia, chegou a criar um jornal transfronteiriço, por ali nasceram os dois filhos do casal. Foi uma experiência de cerca de dez anos, entretanto, interrompida (mas não terminada, porque Daniel, recordando os emigrantes que regressam quando têm cabelos brancos, sonha alto: “Há-de ser o que me há-de acontecer, também, que é voltar”). A ligação continua, por isso, e o espaço é agora o grande depósito do espólio de Carlos Gil. Por ali estão as suas máquinas fotográficas, os prémios, as revistas e livros com trabalhos dele, os muitos cartões de imprensa e passaportes, os cadernos em que tomava notas com uma letra invejável.

Só não estão os cerca de 250 mil fotogramas, nos filmes originais, que a família decidiu ceder, através de protocolo, à Fundação Mário Soares (FMS). “Estavam num 3.º andar de um apartamento em Lisboa, sem condições e a determinada altura chegamos à conclusão que era perigoso também [mantê-los ali]. Na altura, [a FMS] foi a opção que surgiu: caixa forte, antifogo, com temperatura controlada”, resume Daniel. Ele e a mãe dizem que não estão muito satisfeitos com a falta de informação dos últimos anos, sobre o que tem sido feito com esse espólio, nomeadamente, sobre a cedência de imagens a algumas publicações. Uma das obrigações acordadas com a FMS é que os originais seriam digitalizados e disponibilizados ao público. Hoje já é possível, a partir de qualquer computador, aceder a algumas dezenas de imagens de Carlos Gil do 25 de Abril de 1974. Muitas outras estão disponíveis para consulta na própria FMS, mas o trabalho é demorado. A família diz que ainda está a pensar no que irá fazer no futuro. “Havemos de tratar disso”, diz Daniel.

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Como também gostaria de tratar de abrir ao público o espólio guardado em Figueira de Castelo Rodrigo. Mas, por enquanto, há um pequeno restaurante para gerir em Lisboa e duas crianças em idade escolar.

Quando tinha a idade dos filhos e depois, mais velho, Daniel recorda-se das inúmeras viagens do pai. Diz que o acompanhou, várias vezes, em deslocações em Portugal e, poucos anos antes de Carlos Gil morrer, fizeram juntos uma viagem pela América Central. Das outras, das deslocações em trabalho em que não participou, recorda-se do regresso, com o pai carregado de pequenos presentes exóticos dos locais de onde vinha. “Ele levava praticamente a roupa que tinha [no corpo] e chegava-me cá sem uma muda, deitava fora a roupa. Mas vinha sempre carregado de lembranças para os filhos”, recorda Judite.

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Maria Judite, a viúva de Carlos Gil Nelson Garrido

À sua volta, na sala que era quarto e que funcionava, de um lado, como o escritório do fotojornalista, e do outro, como o espaço dela, estão máscaras, tapeçarias, estátuas e peças de decoração que ele carregou do mundo para casa. Mas, para ela, o mais identificativo do marido que ali está é um conjunto de cachimbos, junto ao sofá. “Ele fumava cachimbo. Tenho tanta coisa preciosa, mas ele fumava cachimbo”, diz. Fala muito rápido, pede desculpa, diz que se emociona ao lembrar-se de tudo. Que não parece que o cancro lhe levou o marido já há 17 anos. As fotografias dele, os livros, as prendas, tudo a rodeia ainda. “Ele morreu muito cedo. O Carlos Gil faz-nos muita falta”, diz Adelino Gomes sobre o homem que o colocou no 25 de Abril. Para Judite é um pouco mais do que isso. “Ele foi o grande amor da minha vida”, diz.