Inquilinos da Fidelidade vão reunir-se para reagir a despejos

Reunião tem como objectivo perceber como as pessoas que já foram contactadas pela seguradora de que não vão ver os seus contratos de arrendamento renovados se estão a organizar, partilhar experiências e encontrar soluções. Acontece este sábado, na câmara de Lisboa.

Fotogaleria
Bernardo mora há três anos na rua do Telhal, perto da Avenida da Liberdade. No final de Março de 2019 vai ter de entregar as chaves da casa porque o contrato não vai ser renovado Rui Gaudêncio
Fotogaleria
Bernardo mora há três anos na rua do Telhal, perto da Avenida da Liberdade. No final de Março de 2019 vai ter de entregar as chaves da casa porque o contrato não vai ser renovado Rui Gaudêncio

Quando Bernardo entrou no número 70 da rua do Telhal estava longe de pensar que três anos depois teria de deixar a sua primeira casa. Bernardo Silva, de 27 anos, é inquilino da seguradora Fidelidade. No final do mês de Março, chegou-lhe uma carta a casa a dar conta de que teria de entregar as chaves dali a um ano. À semelhança dele, vários moradores pelo país já começaram a receber estas cartas. Em Loures, por exemplo, oito famílias, de três prédios da seguradora, foram notificadas de que não iam ver os seus contratos renovados e que teriam quatro meses para deixar as suas casas.

O trabalho como designer permitia ao jovem lisboeta pagar a renda de 760 euros por um T3, próximo à Avenida da Liberdade, dividindo-o com um colega. A questão que agora se lhe impõe é: “Onde é que vou arranjar uma casa assim em Lisboa?”. É que há três anos era uma renda “perfeitamente normal”, mas, hoje em dia, revela-se já um desafio encontrar uma casa, para não dizer “impossível”, aponta Bernardo.

Depois de ter recebido a carta, foi tocar às portas dos outros apartamentos (no total são 16, mais duas lojas) para perceber se a decisão de não renovar o contrato de arrendamento também lhes tinha chegado. Para já é o único, mas os vizinhos receiam que a carta também lhes chegue, sobretudo as pessoas mais velhas que ali moram há muitos anos e que pagam rendas muito mais baixas. 

Está, por isso, a tentar entrar em contacto com o máximo de pessoas possível. Este sábado, os inquilinos da Fidelidade, antiga seguradora da Caixa Geral de Depósitos e controlada pela chinesa Fosun desde 2013, cujos contratos de arrendamento estão em risco de não ser renovados vão reunir-se para "preparar uma resposta conjunta, partilhar experiências e encontrar soluções". Será pelas 16h00, na câmara de Lisboa, e contará com a presença do vereador bloquista Ricardo Robles, que detém a pasta dos Direitos Sociais e Educação da autarquia da capital.

Para já, diz Bernardo, "o objectivo é fazer com que as pessoas que estão a ser expulsas das casas não o sejam". A longo prazo, sublinha, é preciso "mudar a lei que faça com que as pessoas não tenham apenas quatro meses para deixar as suas casas".

Durante a semana, o PÚBLICO deu nota de um hostel da baixa de Lisboa que foi confrontado pela Fidelidade com a não renovação do contrato de arrendamento. A notícia apanhou de surpresa os gerentes do estabelecimento, que tinham um acordo praticamente fechado com a seguradora para expandir o negócio. O mesmo se está a passar em dois prédios na Rua do Forno do Tijolo, em Arroios, o que levou os moradores a apresentar à seguradora duas propostas para aquisição dos edifícios onde vivem

“Para quem tem um ordenado médio como o meu, é impossível pagar uma coisa que não seja um quarto. Não faz sentido não ser possível viver na cidade com um ordenado médio de lisboeta. Há quem diga que Lisboa se está a tornar uma grande cidade europeia. A questão é que nós não temos ordenados de cidade europeia”, sublinha.

E se está “impossível” morar no centro da cidade, admite Bernardo, também não há condições para morar fora dele. “Se quisermos morar na margem Sul, por exemplo, temos de ter carro", critica o designer.

A par disso, na zona onde mora, por exemplo, Bernardo diz já não ter muitos prédios onde ainda moram pessoas. “Há vários prédios ali que se tornaram hotéis de Airbnb. Imagino que não paguem impostos hoteleiros, mas depois vejo senhoras a chegar com toalhas e lençóis todos os dias de manhã”, conta.  

Fidelidade no Parlamento

Na quarta-feira, o presidente do Conselho de Administração da Fidelidade, Jorge Magalhães Correia, foi ouvido na Comissão de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação, na sequência do eventual despejo de moradores de três prédios da companhia de seguros em Loures.

Magalhães Correia acabou por ser chamado ao Parlamento para dar explicações, onde assegurou que a Fidelidade pretende vender 276 prédios, por todo o país, envolvendo 1299 contratos de arrendamento. Desses, 476 estão abrangidos pelo antigo regime de arrendamento urbano, possuindo um contrato sem termo, e 823 pelo novo regime, precisou o responsável. 

É na capital que se localizam a maioria desses prédios, nas freguesias das Avenidas Novas, Campo de Ourique, Belém e Chiado. O presidente da Fidelidade mostrou-se ainda disponível para dar o direito de preferência de alguns destes prédios à câmara de Lisboa, abrindo ainda a porta à participação em programas governamentais e municipais de arrendamento acessível.