Humberto Lopes

O sabor da cerveja

Lovaina, na Flandres, é uma cidade antiga, onde alguma cosmética se esforça por dissimular as tão legítimas rugas da patine. E é a capital da cerveja belga. Escrita certa por linhas tortas: talvez seja esse o cenário apropriado para o contínuo e sempre popular renascimento das antigas artes cervejeiras do país.

Estamos na Oude Markt, a grande praça do antigo mercado medieval de Lovaina (Leuven em flamengo), na província da Brabante flamenga. Estamos ao sol, sob o esquivo sol primaveril da Bélgica, na Oude Markt, a maior assembleia de esplanadas cervejeiras da Europa, com umas quatro dezenas de anfitriões. A fama que tem é do tamanho do proveito tomado por esta multidão de arraiais assentados no fio de bares e restaurantes que corre de uma ponta à outra da praça e se vai deleitando com os sabores plurais das muitíssimas cervejas belgas.

Quase tudo se pode descrever de forma hiperbólica: um mar de gente, uma infinidade de mesas, um imensidão de copos, uma galáxia de cervejas, um caleidoscópio de gentes. E um emaranhado de vozes confusas. Se as cabeças loiras parecem ter, à primeira vista, maioria aritmética, um olhar mais atento desvela uma panóplia de gentes de múltiplas origens e credos e línguas e poses e estilos e gostos e tudo o mais que cabe na categoria do variável. E ao ouvido vêm chegando rumores vagos, voláteis, fragmentos de frases, uma ou outra palavra solta, solitária. Um velho poema de António Gedeão — dessas canções que de manhã se ouvem, ou renascem sem explicação das tumbas do esquecimento e se colam com teimosia à pele da memória para o resto o dia — vem ajudar a pintar o retrato do ambiente sonante da praça: “Que língua estrangeira é esta/ que me roça a flor do ouvido/ um vozear sem sentido que nenhum sentido empresta?”

O viageiro, um pouco afadigado da caminhada matinal pelas ruas da Grand Beguinage, abandonado ao sol tépido dos últimos dias de Abril, sente-se como um figurante, ou, pior ainda, personagem livresco apenas sonhado por outrem, como o de um famoso conto de Borges. Desperta-o a materialidade da cerveja fria, mas também a da linguagem que continua a roçar a memória do ouvido: “Sussurro de vago tom/ Reminiscência de esfinge/ Voz que se julga ou se finge/ Sentido e é apenas som”. À volta do clamor de vozes, a praça cinge o coro das conversas como se fora um cenário em 3D, tão material como tudo o resto, os rostos, o poema de Gedeão, o sabor da cerveja: um quadrangular friso bordado em arquitectura flamenga, recortado sobre céu azul da Flandres.

De um bar próximo vem uma toada um pouco mais recente, aquela espécie de country-punk apocalíptico da banda norte-americana Sixteen Horsepower: “Every man is evil, yes, every man’s a liar...” Mal se ouve a voz de David Eugene Edwards, é verdade. Noutros sítios a obsessão da música-ambiente-para-entreter-clientes é mil vezes pior. Há outras contemporaneidades tecnológicas à vista, as dos smartphones, tablets, iPads, etc., embora o número de utilizadores seja mais ou menos discreto — talvez até estejam só a testar a app local que ajuda os visitantes a não se perderem nas ruas de Lovaina e a encontrarem mais depressa os spots turísticos.

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O edifício da Câmara Municipal é um dos ícones de Lovaina Humberto Lopes

Melhor do que esses dispositivos é contar com um(a) cicerone local: Antonella, desde 1994 a viver mais ou menos em Lovaina, mais ou menos nas redondezas, mais ou menos meio italiana meio portuguesa, meio belga meio alemã, meio flamenga meio francófona, em tudo mais ou menos pouco ou nada definida, sobretudo nada de essências, esse veneno de que se fazem os muros, nem ela sabe já em quantas metades é possível um ser humano repartir-se: em mais de duas, de certeza. Durante a manhã, desde cedo, deambulámos pela Grand Beguinage e alargámos os passos até ao novo-velho complexo industrial Hal 5, espaço de eventos artísticos e sociais onde uma Taverna Lisboa serve coisas lusas como pastéis de nata, apresentados como “the sweet side of Portugal”.

Agora, na Oude Markt, rendidos ao paladar trigueiro de uma Hoegaarden Grand Cru (não muito fria, como deve ser bebida), como se estivéssemos à volta de uma fogueira ou de um chá no deserto, vamos desenhando planos para o dia seguinte: o Abbey Park, o interior do gótico Stadhuis (a Câmara Municipal), o Jardim Botânico e a exposição, no Museu M, de Edgard Tytgat, um pintor belga da primeira metade do século XX, de difícil classificação — entre o impressionismo, o expressionismo e o naive. Daqui a pouco, ao início da noite, há um concerto da cantora sarauí Aziza Bhraim, cujo rosto está espalhado em cartazes pela cidade. Que familiares e estranhas, ao mesmo tempo, soarão mais logo, na noite um pouco fria de Lovaina, sob estrelas que nos recordarão as do distante Sara, as cordas das guitarras de Julud, de Calles de Dajla e de Lagi, a canção dedicada por Aziza aos que vivem as suas vidas em campos de refugiados...

Uma moderna bebida antiquíssima

A imagem não é nada por aí além, mas aqui vai: uma miríade de reflexos dourados fulgura nos copos acabados de desembarcar da bandeja. Na transparência do vidro e dos líquidos brilha uma paleta de cores, tons de ouro e de rosa, de bronze, de cereja. Cada copo tem uma forma diferente, tem inscrito no vidro frio um nome e um desenho distinto por onde deslizam, lentíssimas, gotas de condensação. Cada um deles traz consigo um sabor particular.

Como script publicitário seria pouco imaginativo, bastante déjà vu, cansado refrão. Mas que lance a primeira pedra quem ache que não daria a imagem boa conta do recado. Pois, é esse o argumento: a imagem dá conta de que por vezes parece vivermos pedaços de vida como se fossem inspirados, modelados pelos scripts publicitários. E de tal maneira que se nos afigura a imitação da imitação tão ou mais verosímil e autêntica do que aquela que as idealizações e as fantasias do marketing se propõem reproduzir. Nada de novo: onde o mundo se esforça por se fingir “real” à medida dos contos de fadas — dos imaginários que nos escoram a existência —, a espontaneidade pode levar uma vida inteira a alcançar.

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Preto no branco: a atmosfera geral da cidade não é propícia a melancolias, mau grado as neblinas e os cinzentos invernais que sobrevivem por vezes quase até ao tempo estival. As notas de cor das fachadas flamengas (uma sobrevivência notável da danosa ocupação alemã durante a I Grande Guerra) dão uma boa ajuda, o ambiente cosmopolita e festivo também, mas dificilmente se pode declinar a influência do contexto universitário e dos seus milhares de estudantes. A cidade acolhe a mais antiga instituição do género do país, a  Katholieke Universiteit Leuven, fundada no início do século XV, encerrada temporariamente durante uma invasão napoleónica e “reinaugurada” vinte anos depois para um devir de luzes. Há exactamente quinhentos anos, em 1517/1518, os estudantes desta espécie de Oxford belga tiveram como mestre um dos mais famosos humanistas europeus, Erasmo de Roterdão, que já havia passado por Lovaina uns anos antes. O nosso Damião de Góis também por aqui andou, fez amizade com Erasmo, conheceu Lutero, escreveu sobre os seus dias europeus e acabou incomodado, por tudo isso, pelos seus compatriotas fiéis funcionários da lusa Inquisição.

Lovaina é celebrada como a capital da cerveja belga — ou a capital belga da cerveja. É sede do maior complexo de produção de cerveja do mundo, a multinacional Anheuser-Busch InBev, onde se produz, entre outras marcas, a histórica Stella Artois . Mas a universidade também tem culpa no desenvolvimento do ambiente cervejeiro, e não apenas como fornecedora de boémios. É verdade que as tradições cervejeiras são imensamente antigas, anteriores a Cristo, Buda e Maomé, vêm dos idos medievais e de muito mais antanhos tempos, ainda: são herança de saberes e práticas trazidas dos antigos reinos de Ebla, na Síria, do Egipto, da Mesopotâmia, do Irão. Agora, a inovação desta antiquíssima bebida está nas agendas de produtores e de instituições como o Lovaina Institute for Beer Research, um departamento da Katholieke  Universiteit Leuven focado na investigação e na ligação à indústria cervejeira.

Os olhos também bebem

Abril é uma época especialmente interessante para visitar Lovaina e imergir na cultura da cerveja belga. Ao longo de três fins-de-semana, a cidade vive ao ritmo de iniciativas relacionadas com a produção — e a criação — de cerveja. A sequência culmina no Zhytos Beer Festival, agendado para o próximo fim-de-semana. O carácter de oportunidade nesta altura do ano não implica que outras ocasiões não sejam propícias para a viagem. A diversidade e a qualidade da experiência cervejeira belga permanecem vivas todo o ano, assim como a possibilidade de degustação dos frutos do labor de pequenas e grandes unidades de produção, industriais e artesanais.

A cerveja belga passou recentemente a integrar a lista de Património Imaterial da Humanidade (em Novembro de 2016). O que se celebra com essa comenda é o valor cultural e a popularidade de práticas centenárias de produção, consumo e degustação de cerveja — como bebida, mas igualmente como elemento presente na invenção culinária belga —, práticas marcadas por uma contínua vontade de reinvenção e inovação, por uma assinalável diversidade de métodos e estilos de fabrico que tem como resultado uma caleidoscópica variedade de sabores. Os critérios da UNESCO sublinham a existência, não apenas histórica, de mais de 1500 tipos diferentes de cerveja que desempenham um qualquer papel na vida quotidiana da sociedade belga, um incomensurável património vivido intensamente pelos belgas. Que monumental roteiro aguarda o viajante, mesmo se a paixão — ou tão-só a mera curiosidade — se circunscreva a um complemento da estância turística na bela Lovaina!

A jornada pede tempo, entrega, persistência, resistente curiosidade. Para uns será um labor de busca de conhecimento, para outros simples e desinteressada boémia, para outros, ainda, as duas coisas. Pátria da Stella Artois, da Leffe e da Keyzersberg (a saborosa Hoegaarden nasceu numa aldeia próxima, homónima), Lovaina é um relicário de bares e cervejarias onde podemos provar um grande número de cervejas belgas — algumas de produção artesanal local. Estamos, como na produção vinícola, num reino de variados factores: os ingredientes, graus e tipos de fermentação (e as respectivas temperaturas, o que origina cervejas de características diferentes), tipos de lúpulo, métodos de envelhecimento (em tonéis usados previamente para envelhecer aguardente, uísque, xerez ou vinho do Porto).

Beber cerveja tem nestas bandas as suas singularidades, algumas “normas” que garantem degustações equilibradas e proveitosas, para além de aspectos mais formais (mas igualmente relevantes), como a forma do copo — diferente para cada marca e tipo de cerveja. E o tempo disponível para o itinerário de provas pode ditar, ou não, um bis. Há outros, imensos, pormenores, que têm a ver, por exemplo, com aspectos como a sequência das degustações: passar de uma cerveja de dupla fermentação para uma kriek, de sabor frutado, mais suave e de mais baixo teor alcoólico, pode ser menos agradável e estimulante — mas aqui entramos nos infinitos reinos da subjectividade. Bem se fará em não deixar de fazer acompanhar as provas com queijo, servido por vezes com mostarda caseira, salame, anchovas ou azeitonas. Cedo se descobrirá que na imensa galáxia das cervejas belgas, há-as para todos os gostos. Com mais ou menos álcool, mais ou menos frutadas, doces, amargas, claras, escuras, bronzeadas, encorpadas, leves, com classificações que revelam os processos que as trazem ao mundo e lhes definem os géneros: trappistes, amber, gueuze, krieken, lambic, oud bruin, etc. E com um esplêndido espectro de cores e variedade nas transparências, nos brilhos, na luz: os olhos também bebem.

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Uma caça ao tesouro

Noite dentro, uma volta pela Oude Markt leva-nos a três sítios populares. O Cafe Belge está a abarrotar de gente, o bar tem uma razoável lista de cervejas, incluindo os néctares artesanais da local Domus, e queijos belgas com preços em conta. Mas o espaço não é grande, cá fora não há mesas livres, damos com dezenas de estudantes solidamente acampados de copo na mão. Ainda na praça, acabamos por conquistar uma mesa no De Kroeg, que se diz ser o mais antigo bar da praça. É altura de provar uma Triple Karmeliet, uma cerveja bem fermentada, feita com três cereais, cevada, aveia e trigo, originária do leste da Flandres e de tradição forjada em conventos carmelitas, como o nome indica. A colheita de sabores é riquíssima, é uma cerveja frutada, mas não excessivamente. Lá pelo meio voam aromas de limão e laranja, e vagos sabores a baunilha e... banana. Um pouco alcoólica — 8,4 —, embora não tanto como algumas das suas confrades belgas.

Os ambientes pesam sempre e são mais ou menos apetecíveis — o que, de novo, remete para a subjectividade com que se vive a experiência. No Blauwe Kater, na Mechelsrstraat, por exemplo, bebe-se ao som de um certo ar de rock, mas às segundas-feiras o cartaz faz-se com jazz. Sempre música ao vivo. Noutros lugares agitam-se as figuras regulamentares de DJ não muito eclécticos. Na zona da Tiensestraat, onde se situa a pequena fábrica artesanal da Domus, há também alguns bares e restaurantes recomendáveis, com listas povoadas por centenas de cervejas diferentes — parte delas com rotulagem visivelmente artesanal, tão artesanal que só por essa faceta se aguça a curiosidade. Os copos são curiosidades estéticas: se por graça do acaso se encontrar a Pauwel Kwak, vale a pena encomendar — pela cerveja, evidentemente, mas também pelo copo, singularíssimo, que se assemelha na base a um balão de laboratório e vem para a mesa embutido num suporte de madeira.

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A Tiensestraat estreita-se à medida que se aproxima da gótica igreja de São Pedro. À beira de uma famosa fonte — dita da sabedoria — que representa um estudante dividido entre cartapácios e cerveja, entramos no Fiere Margriet, um dos locais mais populares do centro histórico. A lista de cervejas é ampla e o sítio propício para tentar uma das prestigiadas referências da cerveja belga: a Chimay Triple, a Liefmans Goudenband, a Rodenbach Grand Cru, a Cuvée van de Keizer, a Houblon Chouffe, a Saison Dupont, a Troubadour Magma, a Orval, a Westmalle Tripel, a St. Feuillien Blonde, a Taras Boulba, a 1894 Oak & Hops, a Duvel, a Rochefort Trappistes, a Kameleon Tripel, a Arend Tripel, etc., etc., etc. São escolhas de uma razoável variedade de provadores e é imaginável que algumas delas só possam ser encontradas em lugares mais especiais. Pode até acontecer ao mais perseverante curioso ver-se a braços com uma caça ao tesouro.

Na capital belga da cerveja, e num país de memoráveis tradições cervejeiras, depressa se aprende que seria um milagre se um breve itinerário fizesse justiça aos tesouros de Lovaina. Este não é um roteiro-bíblia, naturalmente. Haverá muitíssimos outros locais onde os forasteiros se poderão sentir mais a l’aise e onde disponham, também, de uma boa carta de cervejas e de uma atmosfera eventualmente mais cúmplice das suas afinidades electivas. Viaje-se, modernamente, com guias, planos e sugestões de terceiros. Mas talvez o melhor que pode acontecer a um viajante seja descobrir, sozinho, o chinelo que lhe serve no pé. Ou o paladar providente que lhe abrirá o espírito para o espantoso mundo das cervejas belgas. De surpresa. Como aquele personagem de um filme do iraniano Abbas Kiarostami, que passou a ver o mundo de forma diferente depois de provar, no que pensava ser o seu último dia de vida, o sabor inesperado de umas certas cerejas.