Família Paulouro sai do Jornal do Fundão

Acabou relação mantida ao longo de 72 anos com o nome do fundador.

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Na quinta-feira, 12 de Abril, a família Paulouro vendeu à Global Media Group os 39% de capital que mantinha no Jornal do Fundão (JF). Termina, deste modo, a história ímpar de uma publicação, nascida em 1946, que, pela defesa da Beira interior e, sobretudo, pela qualidade dos seus suplementos culturais, teve uma dimensão nacional e de referência na luta contra a ditadura.

“Fiz corpo com a memória do jornal, sempre acompanhei profissionalmente o meu tio [o fundador António Paulouro], fui chefe de redacção e substituí-o na direcção quando ele morreu, entre 2002 e 2012”, explica, ao PÚBLICO, Fernando Paulouro. “Foi um jornal com um percurso muito singular antes do 25 de Abril, sempre com um papel muito importante em relação à coesão social da Beira Interior, teve suplementos e colaboradores na área da cultura que lhe deram uma dimensão nacional”, prossegue o antigo director.

“Vultos da cultura portuguesa como António José Saraiva, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Artur Portela, Victor Silva Tavares e José Cardoso Pires, no suplemento & etc, Alexandre Pinheiro Torres, José Saramago, Baptista-Bastos foram nossos colaboradores”, enumera. O JF tinha, ainda, uma colaboração exclusiva, à revelia dos jornais de âmbito nacional, e que não deixava de surpreender: “Tínhamos o exclusivo para Portugal de Carlos Drummond de Andrade”, lembra Fernando Paulouro.

“O jornal fazia encontros culturais”, de que recorda, entre outros, o Encontro Nacional de Teatro. Em 1965, o Jornal do Fundão foi suspenso pela censura durante seis meses, por ter divulgado, com foto do premiado, a consagração de Luandino Vieira pelo seu romance Luuanda, Grande Prémio de Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores, então presidida por Jacinto Prado Coelho. “A partir de então, passámos a ser controlados pela censura em Lisboa, para onde enviávamos as provas de página”, sintetiza.

Estes e outros episódios tornavam o JF como uma realidade ímpar na imprensa portuguesa, que se deve à tenacidade da família Paulouro. “Em 1998, vendemos 51% do Jornal do Fundão ao coronel Luís Silva, da Lusomundo. A parceria sempre correu lindamente, foi de excelência”, refere Maria José Paulouro, uma das duas filhas do fundador. “Mais tarde, o coronel Luís Silva vende a sua participação à PT, as coisas não correm mal, mas começam a correr mal com a venda a Joaquim Oliveira, da Controlinveste”, narra.

PÚBLICO -
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Primeira página da última edição (retirada das fotografias de acesso público na página de Facebook do JF)

Depois de operações que passaram pelo empresário angolano António Mosquito e pela entrada de capitais chineses na Global Media, este grupo pôs à venda os 51% do JF. “Tentei comprar, mas não arranjei parceiros”, revela Maria José Paulouro. “Eu e a minha irmã [Maria Teresa] decidimos vender a nossa parte de 39% à Global Media, operação feita na quinta-feira da semana passada [12 de Abril]”, conclui.

“Simbolicamente, os 39% eram importantes porque havia uma relação que se mantinha, havia ainda alguém da família Paulouro”, lamenta Fernando Paulouro. “Saí da direcção do JF porque achava que a ideia da administração era fazer um jornal cada vez mais igual aos outros, o que era uma perversão da nossa história”, comenta.

“O jornal com preponderância cultural que lhe dava dimensão nacional acabou de vez. Chegaram-me a dizer da administração que a cultura não era boa para o negócio”, recorda. “Fui director em choque com a Controlinveste, entendi que o Jornal do Fundão estava a ser descaracterizado por um conjunto de conferências de âmbito comercial que eram contrárias ao espírito fundacional”, relata.

Para saber os planos para o futuro da publicação, o PÚBLICO tentou contactar Victor Ribeiro, presidente da comissão executiva da Global Media Group. Um porta-voz do grupo disse não haver comentários a fazer.

Em 7 de Novembro de 2015, quando se assinalavam 100 anos sobre o seu nascimento, António Paulouro foi homenageado numa iniciativa das filhas Maria José e Maria Teresa. A comissão de honra foi encabeçada por Ramalho Eanes, era integrada pelos antigos presidentes da República Mário Soares e Jorge Sampaio, por Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, António Guterres, Eduardo Lourenço, Proença de Carvalho e António Arnaut, entre outros.