Reportagem

Num antigo quartel da ditadura "o futuro de Cuba está assegurado"

As crianças da escola primária Pedro Domingos Murillo dizem que a revolução assegurou ao país “um futuro cada vez melhor”. O deles está nas suas mãos: basta que explorem o seu interesse em tornarem-se médicos, professores ou poetas, porque o ensino está garantido.

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Adriano Miranda/Público
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Às 11h da manhã, sem se importar muito com a força do sol que já pica no céu, centenas de crianças correm à solta, jogam à bola, empurram carrinhos de plástico e saltam à corda no recreio matinal da escola primária de ensino geral Pedro Domingos Murillo, que como tantas outras escolas em Cuba ocupa um conjunto de edifícios que antes da revolução perfazia uma das maiores instalações militares do país. “Aqui era o quartel de Columbia, a maior fortaleza da ditadura”, informa Carlos Perez Palmero, um dos pedagogos que acompanha a actividade lectiva do enorme complexo conhecido como a Cidade Escolar Liberdade, no município de Marianao, área metropolitana de Havana.

Valery, aluna do 6.º ano, distrai-se da brincadeira com as amigas, que aproveitam os minutos de recreio sentadas à sombra. Acerca-se para conversar, conta que antes do intervalo houve teste de Matemática. Correu bem ou foi difícil? “Para mim não, de certeza que me saí muito bem”, garante, explicando que das seis disciplinas do currículo, Matemática é a que mais lhe agrada. Segundo um estudo realizado pelo Banco Mundial, os estudantes cubanos — rapazes e raparigas — são aqueles que alcançam melhores resultados a Matemática em toda a América Latina. Valery espera continuar a sua aprendizagem até à universidade. “A Matemática faz-te pensar mais”, justifica.

A escola já abriu as portas às 6h30, para que os pais trabalhadores possam deixar as crianças antes de ir trabalhar (pela mesma razão, encerra às 19h). “Aqui em Cuba não temos armas nem violência, os pais podem deixar os filhos na escola tranquilamente, em total segurança”, diz Carlos, que dispensa mencionar a evidente comparação com os Estados Unidos da América, o país vizinho onde se repetem tiroteios em estabelecimentos de ensino. As crianças que chegam mais cedo não vão para a sala de aula: “A essa hora, o que mais gostam é de ficar por aqui pelo pátio na brincadeira”, diz Alina Verde León, a directora do estabelecimento, que além de conhecer pelo nome, parece saber dizer tudo o que gostam ou não gostam os 546 alunos da primária Domingos Murillo.

O pátio é uma espécie de claustro, o centro nevrálgico da escola a partir de onde se distribuem os vários pavilhões com as salas de aula, o refeitório, o auditório ou as salas da direcção. Não só tem um espaço vasto para as correrias como oferece recantos mais acolhedores, onde os meninos se entretêm a jogar ao pião e as meninas ensaiam penteados. As árvores e plantas, e também a sombra dos beirais dos telhados, atraem os passarinhos, que repicam e esvoaçam de sala para sala, imunes ao silêncio e atenção exigidos pelos 38 professores.

"Seremos como o Che"

Às 7h50, no arranque da sessão matutina, toda a comunidade escolar — os alunos, os professores, os funcionários e, se quiserem, os pais — reúne no pátio da escola para o ritual do juramento diário. “Pioneiros do comunismo”, chama-se, “Seremos como o Che!”, respondem as crianças, que, respeitando o desejo de Fidel Castro, todos os dias se comprometem a crescer como Ernesto Che Guevara, o guerrilheiro argentino que ainda hoje é um dos maiores heróis da revolução. Na Domingos Murillo, curiosamente, um outro líder revolucionário tem direito a homenagem na forma de uma galeria de retratos: o venezuelano Hugo Chávez, com fotografias ao lado de Fidel. “Eram muito amigos”, diz uma das professoras.

Com a comoção do intervalo para trás, os alunos regressam em ordem, numa fila indiana, para a disciplina da sala de aula. Se são interrompidas pela reportagem, não deixam de exibir os seus progressos educativos. As crianças da sala do pré-escolar, de cinco anos, que estavam a pintar o desenho de uma borboleta, levantam-se da cadeira para cantar e dançar uma música, “La caña baila”. No primeiro ano, os alunos estão a desenhar com cuidado as letras do alfabeto entre as duas linhas marcadas para o efeito tanto nos cadernos como no quadro. Já foi no pré que começaram a ler a “letra de máquina”, mas só agora aprendem a escrita cursiva e fazem os primeiros cálculos — “já sabem somar”, conta a professora.

Àquela hora, os estudantes do 5.º ano têm abertos os cadernos de Ciências Naturais e discutem as ilustrações que acompanham uma lição de biologia. As ciências, tal como a História de Cuba, são introduzidas no currículo a partir do 5.º ano; além dessas, as outras disciplinas são as mesmas desde o primeiro ano: Língua Espanhola, Matemática, Inglês, O Mundo Em Que Vivemos, Educação Cívica e Educação Física.

Todos envergam o uniforme de cor vermelho-grená que identifica os alunos dos dois ciclos do ensino primário (do primeiro ao sexto ano). “O uniforme tem as meias altas, camisa branca, a saia não pode ser nem muito curta nem muito larga”, explica Valery. Quando passarem ao secundário básico, as saias e calções passarão a ser amarelos, e no pré-universitário (10.º ao 12.º anos) a combinação muda para azul: um tom claro para as camisas e escuro para a farda. O uniforme é das poucas despesas obrigatórias para os estudantes: são vendidos a preços especiais, mas não são gratuitos como todo o restante material escolar — cadernos, livros, lápis, canetas, réguas, tudo o que for preciso, esclarece uma professora.

Durante a tarde, “a escola transforma-se”, refere a directora. As crianças largam os livros, e dedicam-se aos “clubes de pioneiros” onde são convidadas a explorar os seus interesses: as ciências ou as artes, o desporto, a música ou a pedagogia, que na sala do 5.º ano é aquela que tem mais clientes. Quantos de vocês querem ser professores, pergunta-se, e quase todos os braços se levantam. Mas não serão só futuros professores que vão sair da Domingos Murillo: este ano, a escola já deu vários estudantes à selecção cubana de atletismo e Alina Verde Léon acredita que pelo menos um deles entrará no programa de alta competição do Instituto do Desporto. E também já colocou uma aluna na companhia da conhecida bailarina e coreógrafa Lizt Alfonso, fundadora do estilo da dança-fusão cubana, que mistura elementos do ballet e dança contemporânea com o flamenco e os ritmos africanos.

"Um bom futuro"

Na visita à Domingos Murillo, é fácil perceber as críticas que são feitas à componente doutrinária do ensino cubano: quando se pede a alguns dos alunos que nos digam em duas ou três palavras o que pensam sobre o futuro do país, as respostas — que saem prontas, claras e concisas — parecem lidas directamente da cartilha do partido. “O futuro de Cuba está assegurado graças às conquistas da revolução“, diz Amália Castañeda, do 5.º ano. “Graças à revolução cubana, no nosso país podemos ter mais médicos, enfermeiras e professores, e por isso o futuro está assegurado”, considera Margarita, de 11 anos.

Patricia Lopez Hernandez sublinha que “temos muitas escolas e centros educativos que permitem que todas as crianças tenham um bom futuro à sua frente”. “O futuro será cada vez melhor”, acredita Bruno Garcia Ortega, ou Brunito, de nove anos. “Eu, quando for grande, continuarei a estudar até fazer um doutoramento”, promete.

Tal como os seus alunos, a directora Alina Verde Léon confia que o futuro do país será “feliz”, enquanto os cubanos continuarem a “seguir as ideias por que trabalhou Fidel”. “O futuro de Cuba está em muito boas mãos graças a Fidel, que nos deixou um país muito bem preparado”, concorda Elisa Rojo, que frequenta o 5.º ano.

Mais à vontade no papel de oradora, Sheilyn Morera Rodriguez afirma que “Cuba é e será sempre um país livre”. A extrovertida menina de 11 anos, que adora poesia e ambiciona uma carreira como actriz, surpreendeu as professoras com uma ode a José Martí, o escritor, filósofo e líder republicano que liderou a guerra da independência (1895-98) e é considerado o pai da nação.

Alina Verde Léon esperou pela chegada do PÚBLICO para assistir à declamação — “Vocês vão ter aqui a honra de assistir à estreia absoluta de uma futura grande artista”, anuncia, e Sheilyn não se faz rogada em confirmar o seu talento. Concentrada na audiência, pronuncia as palavras com o ênfase e a emoção devidas, a entoação a mudar conforme as rimas são mais simples ou ganham uma vivacidade heróica. Quando termina, os aplausos irrompem na sala dos professores. A directora está satisfeita. “Sim, estas crianças são felizes.”