ETA pede desculpa pelos “danos causados”: “Provocámos muita dor”

"Estamos conscientes de que neste longo período de luta armada provocámos muita dor”, escreveram os separatistas bascos. O comunicado surge pouco antes da data prevista para a dissolução: 5 de Maio. O Governo espanhol já reagiu, assim como as associações de vítimas do terrorismo.

Em comunicado, o grupo pediu desculpa às vítimas e às famílias
Foto
Em comunicado, o grupo pediu desculpa às vítimas e às famílias Reuters/VINCENT WEST

Depois de ter antecipado a sua dissolução para a primeira semana de Maio, o grupo separatista basco ETA – ou Euskadi Ta Askatasuna (Pátria Basca e Liberdade, em português) – publicou, na madrugada desta sexta-feira, um comunicado em que reconhece os “danos que causou durante a sua trajectória armada” e apela à reconciliação. “Oxalá nada disto tivesse acontecido”, escreveram os separatistas.

No comunicado, difundido pelos diários bascos Gara e Berria, a ETA reconhece o “sofrimento desmedido” que provocou, com “mortos, feridos, torturados sequestrados e pessoas que foram obrigadas a fugir para o estrangeiro”. “Estamos conscientes de que neste longo período de luta armada provocámos muita dor, incluindo muitos danos que não têm solução”, escreveram os separatistas: “Pedimos desculpa.”

Numa nota explicativa, traduzida do basco pelo jornal Gara, pela importância e “transcendência”, o grupo separatista explica que teve necessidade de mostrar empatia e respeito pelo sofrimento provocado. A organização considera que há que encerrar este capítulo porque “não se deve esquecer o passado” nem “hipotecar o futuro”. Na mesma nota, o grupo afirma que reconheceu todas as actividades da sua autoria e aponta o dedo aos que não se responsabilizaram pelas “muitas acções violentas que aconteceram no País Basco e que ninguém assumiu”. “A verdade deve conhecer-se".

No comunicado, o grupo separatista menciona as vítimas “que não tiveram uma participação directa no conflito”, mas que sofreram em “consequência de erros e decisões erradas”, tanto dentro como fora do País Basco. A ETA reconhece, por diversas vezes, a responsabilidade por essa dor – infligida tanto às vítimas de assassínios e sequestros quanto às suas famílias.

“A ETA reconhece a responsabilidade directa dessa dor e deseja manifestar que nada disso devia ter acontecido e nunca se devia ter prolongado tanto tempo, porque há muito que este conflito político e histórico devia ter tido uma solução democrática e justa”, escreveram. “Oxalá nada disto tivesse acontecido, oxalá a liberdade e a paz tivessem criado raízes no País Basco há muito tempo”.

“Percebemos que muitos considerem a nossa actuação inaceitável e injusta e respeitamo-lo, porque ninguém deve ser forçado a dizer o que não pensa nem sente”, reconhece o grupo. Mas, apontam, o “sofrimento imperava antes do nascimento da ETA e continuou depois de a ETA ter abandonado a luta armada”. “As gerações posteriores ao bombardeio de Guernica herdaram a violência e o pesar, e cabe-nos fazer com que as gerações vindouras tenham outro futuro.”

A ETA apela então à “reconciliação” democrática, salienta o seu “compromisso com superação do conflito e a sua não-repetição”, de forma a “apagar definitivamente as chamas de Guernica”.

Reacção de Madrid

O Governo espanhol já reagiu ao comunicado. “Parece bem que o grupo terrorista peça desculpa às vítimas, porque as vítimas, a sua memória e a sua dignidade, foram determinantes na derrota da ETA”, diz um comunicado do Palácio da Moncloa (sede do executivo). Prossegue: o arrependimento “não é mais do que consequência do fortalecimento do Estado de Direito”. Para o Governo espanhol “há muito tempo que a ETA devia ter pedido desculpa de forma sincera e incondicional pelos danos causados”.

O secretário-geral do PSOE, Pedro Sanchéz, recordou no Twitter “as famílias e as suas vítimas”. “Foi um longo caminho”, afirmou. 

Vítimas falam em "branqueamento" histórico

Já a Associação de Vítimas de Terrorismo lamentou que a ETA tenha aproveitado o comunicado para “justificar mais uma vez a sua actividade terrorista”. Em declarações ao El País, a associação acrescenta que a “ETA reconhece o dano causado mas nunca faz uma auto-crítica” e condena que as vítimas sejam colocadas “ao mesmo nível que os torturados”. Não ficaram convencidos com o pedido de desculpa e afirmam que a ETA está apenas a tentar “branquear o passado criminoso da organização”, transformando os seus assassinatos em consequência de um “conflito”. 

A presidente da Fundação Vítimas do Terrorismo, Mari Mar Blanco, em entrevista à TVE, insta o grupo a traduzir o seu “suposto” reconhecimento dos danos causados em colaboração com a justiça. Blanco, irmã do deputado Miguel Ángel, do PP, que morreu em 1997 às mãos da ETA, classifica como “vergonhoso e imoral” que a ETA distinga entre “os que mereciam um tiro na nuca ou uma bomba no carro e os que foram vítimas por coincidência, porque não mereciam”.

O Colectivo de Vítimas do Terrorismo (conhecido pela sigla Covite) afirma, em comunicado de imprensa divulgado pelo El Mundo, que as palavras da ETA apenas “esfumam a sua responsabilidade pelos crimes cometidos”. “Enunciar uma petição de perdão selectiva significa insultar as vítimas de terrorismo e toda a sociedade”, diz.

Em cinco décadas de acção armada, a ETA fez cerca de 800 vítimas. O grupo, que foi um dos principais actores do conflito basco, tinha tornado pública a sua dissolução em Fevereiro, altura em que deu por concluído “o seu ciclo e a sua função”.

Em 2017, a ETA entregou todas as armas que tinha em sua posse ao Governo espanhol – quase três toneladas de explosivos, 118 armas e mais de 25 mil munições. Fizeram-no por considerarem a luta política mais eficaz, e por continuarem politicamente activos através do movimento de esquerda “Abertzale”, desde que o seu braço político oficial, o Batasuna, foi ilegalizado, em 2013.

"Desde há muito que o projecto da organização não é apenas a ETA. Além disso, o movimento político que denominamos de izquierda abertzale, que demonstrou suficiente maturidade e capacidade de luta, é muito mais eficaz para concretizarmos o desafio que enfrentamos hoje em dia", escreveu a direcção do grupo, em Fevereiro.