Crítica

Um smartphone equilibrado para fanáticos de teclados

O BlackBerry KeyOne (Black Edition) está longe de agradar a quem não abdica do último grito, mas pode despertar paixões adormecidas. Numa era de ecrãs tácteis, fomos ver o que tem para oferecer um telemóvel com teclas físicas.

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O KeyOne Black Edition é para quem faz questão de ter teclas físicas

Há pouco mais de 11 anos, milhões de norte-americanos roíam as unhas de nervosismo enquanto esperavam por deitar as mãos ao excitante gadget que Steve Jobs acabara de apresentar ao mundo. Estávamos em Janeiro de 2007 e ainda faltavam seis meses para que o primeiro iPhone chegasse às lojas.

No meio de tanta excitação, um homem e uma empresa vieram deitar um balde de bom senso em cima daquilo tudo – afinal, aquele telemóvel estranho e sem teclado físico era apenas um desvario da Apple. "É o telemóvel mais caro do mundo e não diz nada aos clientes empresariais porque não tem um teclado, o que não faz dele uma máquina de email muito boa", disse o então presidente executivo da Microsoft, Steve Ballmer, depois de ter soltado uma gargalhada.

Ao mesmo tempo, num escritório no Canadá, os líderes da empresa que dominava o mercado mundial de smartphones reagiam com mais cautela, mas também sem verem motivos para grandes preocupações: "Vamos ficar bem", disse Mike Laziridis, o fundador e presidente executivo da RIM, a fabricante dos BlackBerry, ao seu colega Jim Balsillie, de acordo com um episódio contado no livro Losing the Signal: The Untold Story Behind the Extraordinary Rise and Spectacular Fall of BlackBerry.

Onze anos depois, todos sabemos como é que a história acabou. E o melhor que se pode dizer sobre a BlackBerry é que a empresa ainda existe.

Tentou recriar-se há cinco anos, com a mudança de nome de RIM para BlackBerry e com o lançamento do sistema operativo BlackBerry 10, mais em linha com os desejos dos utilizadores por ecrãs tácteis, gestos intuitivos, rapidez de processamento e qualidade fotográfica. Ainda há smartphones com esse sistema, mas a empresa acabou por adoptar o Android.

Teclado inteligente

Feito o resumo da história, chegamos ao que nos traz aqui: o BlackBerry KeyOne, apresentado em Fevereiro de 2017 e lançado no mercado dois meses depois.

A versão testada pelo PÚBLICO, o KeyOne Black Edition, é mais recente – foi lançada nos Estados Unidos e na Europa já este ano e tem três diferenças em relação à original: a memória RAM passou de 3GB para 4GB; a memória interna subiu de 32GB para 64GB (mantém-se o slot para cartões de memória); e o alumínio prateado que enquadra o corpo foi pintado de negro – daí o cognome Black Edition.

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Antes dos pormenores, um alerta geral: quem tem um smartphone de gama média/alta segundo os padrões do último ano (lançados entre os finais de 2016 e 2018) terá poucos incentivos para pegar num BlackBerry KeyOne – a não ser que o desejo de escrever longos emails num teclado físico seja maior do que a conta bancária.

Na lista de especificações está quase tudo o que se pede a um smartphone Android moderno: sistema operativo Nougat 7.1 (está prometida a actualização para o Android Oreo); ecrã LCD de 4,5 polegadas; câmara principal de 12MP e frontal de 8MP.

O processador é um Snapdragon 625, um pouco ultrapassado em comparação com os topos de gama actuais, mas por uma boa razão: é suficientemente rápido para não soluçar com frequência e permite uma autonomia pouco comum no mercado, com bateria para dois dias.

Mas voltemos ao que interessa: não é por causa das especificações (ou só por causa delas) que alguém se interessará pelo KeyOne. Esse papel está inteiramente reservado ao teclado físico, preparado para reagir ao toque para completar frases, seleccionar uma posição no texto, andar para a frente e para trás com o cursor e até simular a função "corta e cola". Para quem privilegia a produtividade e tem pouco tempo a perder, o teclado permite atribuir teclados de atalho para quase tudo.

No fundo, o que o BlackBerry KeyOne oferece aos interessados é um compromisso, o que faz dele um smartphone de nicho. Dá para jogos? Dá, mas se essa for a actividade principal, é melhor procurar outro smartphone. Dá para ver vídeos no YouTube ou na Netflix? Sim, sem problemas, mas se a ideia for passar o dia a ver séries e filmes, é melhor procurar outro smartphone. Dá para tirar fotografias mais do que aceitáveis para publicar no Instagram? Sim, etc.

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Do antigo sistema operativo da BlackBerry, os novos smartphones herdaram duas das funcionalidades mais admiradas pelos fãs da marca: a preocupação com a segurança e o BlackBerry Hub, a aplicação que agrega notificações de várias aplicações. Mas, mais uma vez, estas duas mais-valias do BlackBerry KeyOne farão pouco para aliciar utilizadores de outras marcas – para os fãs dos teclados físicos e da BlackBerry, o KeyOne é a resposta às suas preces; para os outros, principalmente para quem usa mais o smartphone para lazer do que para trabalho, os vários compromissos deste smartphone podem não ser suficientes para os fazer arriscar.

Em resumo: não é um smartphone que trate a parte multimédia e de fotografia/vídeo de forma excepcional, como as ofertas da Apple, da Samsung ou do Google, por exemplo; mas quem fizer questão de usar um teclado físico pode fazer tudo isso de forma aceitável. E com uma bateria acima da média.