Cannes anuncia Dom Quixote de Terry Gilliam, mas Paulo Branco ameaça que sem acordo “o filme não passa”

O Homem que Matou Dom Quixote, um projecto maldito com 20 anos de tentativas de filmagem está pronto a estrear-se no Festival de Cannes, mas diferendo entre produtor português e actuais produtores continua.

Terry Gilliam
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Terry Gilliam ETTORE FERRARI/EPA

O Festival de Cannes anunciou esta quinta-feira que O Homem que Matou Dom Quixote, o histórico e atribulado projecto de Terry Gilliam, será o seu filme de encerramento mas este é alvo de vários processos judiciais que opõem o produtor português Paulo Branco e a actual equipa internacional de produção. Branco, afastado do projecto há ano e meio, avisa ao PÚBLICO que se não se resolver o conflito, “o filme não passa” em Cannes. Já a portuguesa Ukbar Filmes, co-produtora da quimera cinematográfica de 20 anos de Gilliam, defende que a ida a Cannes não pode estar em causa. É uma “promoção positiva” e “o seu impedimento seria um desrespeito aos direitos dos titulares dos direitos de exploração, sejam eles quem forem”, dizem em comunicado.

O diferendo legal em torno do filme que Gilliam tenta fazer há 20 anos dura há um ano e fez mesmo com que, na apresentação da programação central do 71.º Festival de Cannes, o seu responsável, Thierry Frémaux, admitisse que gostaria de ter O Homem que Matou Dom Quixote a fechar o festival mas que os problemas legais que o rodeiam condicionavam essa possibilidade. Na manhã de quinta-feira, o anúncio chegou via email a jornalistas de todo o mundo. Chegou a não estar visível no site do festival durante parte do dia, mas na manhã desta sexta-feira o comunicado sobre a "selecção actualizada" não só está visível como acrescenta que O Homem que Matou Dom Quixote "será distribuído em França no mesmo dia" 19 de Maio.

Em comunicado enviado ao PÚBLICO, a portuguesa Ukbar Filmes e os seus parceiros de produção e distribuição “congratulam calorosamente” Gilliam. E lembram que “o contrato que uniu Terry Gilliam a Alfama [Films, de Paulo Branco,] foi rescindido”.

Pandora Cunha Telles e Pablo Iraola, responsáveis da Ukbar Filmes, destacam que O Homem que Matou Dom Quixote será “o evento central da sessão de encerramento da edição de 2018” do mais importante festival de cinema do mundo, diz a Ukbar, defendendo que “só o toque de magia do Festival de Cannes poderia quebrar o feitiço” em torno desta aventura cinematográfica de Gilliam. 

Mas o filme maldito do Monty Python, depois de duas décadas de saga de bastidores em que O Homem que Matou Dom Quixote foi acometido por problemas financeiros ou mesmo catástrofes naturais em vários países, continua a ser um pomo de discórdia. O seu regresso aos planos de Terry Gilliam foi anunciado precisamente em Cannes há dois anos, com o português Paulo Branco a revelar que iria produzi-lo. Em Outubro do mesmo ano, porém, Terry Gilliam queixava-se publicamente de problemas de financiamento que impediam a rodagem, que nunca terá começado, e rompia com Paulo Branco. A portuguesa Ukbar Filmes e as estrangeiras Tornasol, Entre Chien et Loup e Kinology passaram a ser as suas produtoras e a rodagem decorreu em Espanha e Portugal em 2017.

Entretanto, o diferendo entre Paulo Branco e os novos produtores tem estado em curso na justiça francesa e britânica a propósito dos direitos sobre o filme, que Paulo Branco defende deter “plenamente”. Diz ter do seu lado duas decisões favoráveis da justiça. A sua intenção de tentar impedir a presença do filme será transmitida à direcção do festival? “Claro. E eles sabem. Estão ao corrente disto”, disse ainda. Se o conflito se mantiver, “a situação pode ser gravíssima. Pode ser um desastre industrial ao mesmo nível que o primeiro desastre [em 2000, com jactos F16, uma inundação e lesões que levaram ao cancelamento da rodagem em Espanha e à perda dos direitos sobre o guião para uma seguradora] porque é um filme que custou 17 milhões de euros, igual ao primeiro. O que seria uma loucura completa”.

As perspectivas das duas partes divergem, tal como têm divergido na imprensa francesa, por exemplo, que tem acompanhado o processo que corre em Paris. Por um lado, Paulo Branco é taxativo: “Os direitos do argumento são nossos e já foi julgado em recurso em Londres e definitivamente nos foram atribuídos, numa decisão de 11 de Abril; os direitos do realizador também são nossos e houve um recurso [no Tribunal de 1.ª Instância de Paris] que ainda não foi julgado e não é suspensivo. Portanto como já aconteceu várias vezes, Cannes seguramente está à espera que este conflito seja resolvido. Se não for, o filme não passa”.

Os novos produtores de Gilliam dizem por seu turno que o contrato do realizador com o português foi rescindido. “O Tribunal da Apelação de Paris pronunciar-se-á no próximo dia 15 de Junho sobre os efeitos desta rescisão, sendo já um facto que, em qualquer das hipóteses, este contrato contempla uma cláusula que prevê de forma clara que: ‘Nenhum conflito jurídico pode ter por efeito atrasar, em qualquer circunstância ou forma, a produção ou a exploração do filme’”, escrevem Pandora Cunha Telles e Pablo Iraola em comunicado.

Referem-se à possibilidade de mostrar o filme num festival, argumentando que “sendo o Festival de Cannes um palco respeitado e que honra qualquer obra cinematográfica e, por consequente, os seus criadores, esta projecção assegura uma promoção positiva bem como uma exploração qualificada na sua melhor conjuntura, e o seu impedimento seria um desrespeito aos direitos dos titulares dos direitos de exploração, sejam eles quem forem”.

Paulo Branco, porém, defende: “Não há circuitos não-comerciais. Não se pode dizer que Cannes seja circuito não-comercial”. Fala de “uma tentativa de passagem em força desesperada” por parte dos co-produtores de O Homem que Matou Dom Quixote e contrasta – “estou extremamente sereno”. Diz que sempre esteve aberto a chegar a acordo. “Seria o primeiro que ficaria contente se definitivamente se ultrapassasse este conflito… Até lá, os direitos pertencem à Alfama [Films] e até lá tomaremos todas as decisões em justiça para fazer valer os nossos direitos. Uma situação que nem é inédita em Cannes.” Ainda assim, diz por telefone ao PÚBLICO, não prescindirá “de direitos portugueses, em qualquer que seja o acordo”.

O Festival de Cannes começa dia 9 de Maio e termina dia 19. Um projecto na mente de Terry Gilliam, autor de Brazil ou 12 Macacos, desde o final dos anos 1990, é uma história que oscila entre a actualidade e o século XVII conta agora com Adam Driver no papel principal e com interpretações de Jonathan Pryce, Olga Kurylenko e a portuguesa Joana Ribeiro.

Notícia corrigida às 18h53 do dia 19 de Abril de 2018 sobre origem dos processos legais 

Notícia actualizada às 09h28 de 20 de Abril com informação do Festival de Cannes que indica data de estreia comercial do filme