Receita para um "tremendo desafio": menos carros, mais partilha

No lançamento do serviço Emov, que chega a Lisboa com 150 carros eléctricos, Fernando Medina disse que a cidade precisa de mais oferta deste tipo para fazer frente aos problemas da mobilidade.

O serviço Emov foi lançado esta quarta nos Paços do Concelho
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O serviço Emov foi lançado esta quarta nos Paços do Concelho Daniel Rocha/Público

Quando se roda a chave, acendem-se umas luzes, aparecem uns números e mais nada. “As pessoas queixam-se: ‘O carro não trabalha!’”, ri-se Carlos Blanco. Pois, assim parece. O silêncio da viatura propicia a desconfiança de que isto vai dar barraca. Tanto que o madrileno tem de repetir várias vezes que o automóvel já está ligado, pronto a arrancar, é só tirar a manete do ponto morto e seguir viagem.

Enquanto o carro se lança pela Avenida da Liberdade acima, Carlos Blanco explica ao que vem. A Emov, empresa da qual é o director de marketing, chegou esta quarta-feira a Lisboa para se juntar ao crescente batalhão de negócios de partilha de carros, motas e bicicletas. Para já, a companhia nascida em Madrid há ano e meio chega à capital portuguesa com 150 automóveis, fruto de uma parceria com o grupo PSA, que produz os Citroen eléctricos que vão circular por aí.

Tal como as concorrentes DriveNow, CityDrive e 24/7 City, que já operavam em Lisboa, a Emov funciona com uma aplicação para telemóveis e tablets, através da qual é possível reservar a viatura pretendida e pagar as viagens. Pelo menos até ao fim de Maio não há taxa de inscrição, a empresa oferece 20 minutos de condução e o preço por minuto é inferior à concorrência (21 cêntimos em vez de 29). “Um passeio de cerca de 15 minutos vai custar perto de três euros”, referiu o director da Emov, Fernando Izquierdo, durante o lançamento do serviço.

Nem todas as empresas que trabalham em Lisboa se podem gabar de ter uma cerimónia de início de actividade nos Paços do Concelho, com presença e discurso do presidente da câmara municipal. “Esta é uma iniciativa bem-vinda à cidade, uma iniciativa de que a cidade precisa”, justificou Fernando Medina. O autarca crê que a área metropolitana tem pela frente “um tremendo desafio em termos de mobilidade”, que tem de ser resolvido através da melhoria dos transportes públicos, mas que é preciso “também dar força a estas iniciativas”. Porque os carros eléctricos “são bons, são muito bons” para o ambiente, disse Medina, mas isso por si só não chega. “Colocar na rua um veículo a diesel ou eléctrico não reduz o congestionamento”, referiu, argumentando que é tempo de “alterar a lógica da posse do carro próprio”.

É nesse contexto que, disse o presidente da câmara, “a partilha é a chave para a resolução de uma parte importante do desafio”, pois traduz-se, acrescentou, num “ganho colectivo: menos congestionamento, menos tempo perdido no trânsito, menos espaço público ocupado”. Essas benesses, contudo, ainda vão demorar a sentir-se realmente. “Quantos mais operadores tivermos no mercado, maior capacidade teremos para alterar comportamentos. Nós precisamos de escala, de rede, de oferta”, defendeu Fernando Medina.

O autarca mostrou-se disponível para criar zonas de estacionamento exclusivas para carros partilhados e zonas de carregamento para viaturas eléctricas no mesmo regime. Mas, ao contrário do que aconteceu com as bicicletas, não está nos planos da câmara investir num sistema público de carsharing, como já existiu (na Carris). “Creio que se justifica ter uma operação de iniciativa pública se não houver iniciativa privada”, argumentou.

Fernando Izquierdo disse que a Emov quis “começar devagarinho” em Portugal, mas que “chega a Lisboa com o objectivo de se tornar um novo ícone da cidade”. O futuro logo se vê. “O crescimento vai depender da procura”, afirmou o director da empresa.

Na tarifa cobrada pela Emov, à semelhança do que já acontece com ofertas concorrentes, está incluído o estacionamento dentro da zona de serviço – que vai desde Algés e a Ajuda, a ocidente, até Carnide, a norte, abrangendo todo o centro. Marvila, Beato, Olivais e Chelas ficam fora dessa zona, que a oriente apanha apenas o Parque das Nações. O carregamento dos carros eléctricos fica a cargo da empresa, que para já criou 25 postos de trabalho.