Opinião

Criomicroscopia electrónica: colocar Portugal na vanguarda das áreas de biologia e saúde

O novo centro nacional a instalar no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia vai permitir um salto qualitativo na investigação em ciências da vida.

O INL – Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, em Braga, acolhe no dia 20 de Abril uma reunião entre decisores políticos, docentes e investigadores de universidades e centros de investigação bem como representantes de empresas ligadas ao sector da saúde, no que se espera seja um primeiro passo para a criação de um centro nacional para criomicroscopia electrónica aplicada às ciências da vida e saúde.

Em 2017, o prémio Nobel da Química foi atribuído a três cientistas pela sua contribuição fundamental para o desenvolvimento da criomicroscopia electrónica aplicada a materiais de origem biológica: Richard Henderson, Jacques Dubochet e Joachim Frank. As metodologias desenvolvidas por estes cientistas foram acompanhadas de uma revolução tecnológica que está na base do extraordinário desenvolvimento da aplicação da criomicroscopia electrónica a sistemas biológicos. Por exemplo, a tomografia crioelectrónica e a criomicroscopia electrónica de varrimento e transmissão permitem a visualização de complexos funcionais de proteínas (proteassomas e ribossomas), estruturas celulares (citoesqueleto e cílios) e compartimentos funcionais (organelos), num estado muito próximo do seu estado biológico nativo. Por outro lado, a criomicroscopia electrónica de partículas isoladas é utilizada para a determinação da estrutura tridimensional de biomoléculas e vírus isolados, estudos que abrem caminho ao desenvolvimento de novas terapias para múltiplas doenças.

Em Portugal, as aplicações de microscopia electrónica em ciências biológicas e dos materiais estão amplamente difundidas. Contudo, os desenvolvimentos mais recentes em criomicroscopia electrónica estão ainda longe do alcance da comunidade científica nacional. Embora existam microscópios electrónicos que são utilizados para estudo de amostras biológicas, por exemplo no Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras, na Universidade do Porto e na Universidade de Coimbra, estes instrumentos não têm as potencialidades dos instrumentos de última geração que têm dado origem aos resultados mais excitantes e revolucionários.

Dado o custo elevado de um aparelho de última geração, um grupo de cientistas portugueses associou-se numa iniciativa com vista à criação de um centro nacional para criomicroscopia electrónica aplicada às ciências da vida, abrangendo desde biomoléculas, células e tecidos celulares até novas formulações farmacêuticas. Esta iniciativa conta com a participação de cientistas de 11 universidades e institutos nacionais do Norte a Sul de Portugal: Universidade Nova de Lisboa, Universidade do Porto, Instituto Gulbenkian de Ciência, Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, Universidade do Minho, Universidade do Algarve, Universidade de Coimbra, Universidade de Lisboa, Universidade da Beira Interior, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e Fundação Champalimaud. Para além destes cientistas, várias empresas manifestaram já o seu apoio e interesse numa futura utilização deste centro.

A localização proposta para o futuro centro nacional é o INL, situado em Braga junto ao campus da Universidade do Minho. Este laboratório, fundado em 2008, tem um largo historial e experiência na aplicação da microscopia electrónica às ciências dos materiais, e também em ciências biológicas. O INL dispõe de uma excelente infra-estrutura, não só em termos de espaços adequados para a instalação de pelo menos um microscópio electrónico de última geração, como de técnicos especializados para a sua instalação e manutenção.

Este centro terá um profundo impacto, não só na investigação em ciências biológicas, permitindo a realização de projectos com alto impacto científico, tecnológico e societal, mas também na economia nacional, em particular na região Norte, por múltiplas razões.

Vai permitir um salto qualitativo na investigação em ciências da vida, ambicionando estabelecer-se como um centro de investigação de referência e excelência em todas as áreas de ciências da vida e bioengenharia para universidades, centros de investigação e empresas.

Permitirá o estabelecimento de novas colaborações institucionais financiadas por fundos nacionais (Fundação para a Ciência e Tecnologia), europeus (European Research Council, Marie Curie, EMBO) e internacionais (Howard Hughes Medical Institute, Fundação Bill & Melinda Gates) para além de reforçar as já existentes.

Irá promoverá a criação de start-ups, relocalização de empresas e visitas de empresas à região Norte de Portugal devido à existência de uma base de investigação com instrumentação avançada e do diversificado leque de competências dos seus investigadores e docentes.

Permitirá o recrutamento e formação avançada de estudantes de doutoramento, recém-doutorados e docentes em ciências da vida e bioengenharia.

E vai funcionar como uma plataforma para atrair e reter cientistas e outros especialistas altamente qualificados de renome mundial para trabalharem em Braga com cientistas de todas as regiões de Portugal.

A criomicroscopia electrónica é essencial para uma melhor compreensão dos processos fundamentais em Biologia e, portanto, imprescindível para que as áreas da Saúde e Biomedicina em Portugal possam contribuir para o tratamento de muitas das doenças existentes e melhorar a qualidade de vida dos nossos cidadãos.