Opinião

Cartas ao director

Vintage 

Gosto deste homem que, sentado na mesa ao lado deste cafezinho portuense, lê, ou melhor, contempla mais do que lê, a entrevista ao padre e poeta José Tolentino Mendonça impressa no jornal PÚBLICO de domingo, 15 de Abril. Lê-a, pára, escuta, pensa. Lê-a, e com régua de metal e esferográfica Parker a sublinha, que é uma forma de ler com o corpo todo: cabeça, braços e mãos. Sinto-me irmanado e apaziguado à sua concentração, ao seu regime horaciano de leitor de jornais de domingo. Sinto-me eterno e seguro olhando o seu gesto geométrico de saborear um texto tão efémero como um café expresso, a sua atitude, o seu carácter, de sublinhar a poesia que também pode existir nesta manhã cinzenta e portuguesa de domingo impressa em papel de jornal. Carpe diem.

Nelson Miguel Bandeira, Porto

P2 : um suplemento cultural

É também por ele que me é impossível "zangar" com o PÚBLICO. Então o de domingo é um verdadeiro espanto. Uma longa entrevista com Tolentino de Mendonça ( mesmo que não "perceba" o que é isso de ele dizer que "a fé tem de ser uma escola do desejo"...), a recordação prenhe do Caramulo e da tuberculose ( também por lá andei a tratar-me ... do que não tinha), a Estação Imagem (com fotografias de... "morrer"), a entrevista ao neurocientista Adam Kampff (embora não deseje, como ele, que "o córtex cerebral tenha o mesmo tipo de controle sobre o que sinto que aquele que tem sobre como me movimento")... Um espanto, como disse. Parabéns PÚBLICO que tal suplemento publicas!

Fernando Cardoso Rodrigues, Porto

Recordar Mota Amaral

Costumo dizer que a nossa actual classe política, na sua maioria, é uma classe política sem classe. Mas o país já teve – e ainda tem, se bem que muito poucos – bons políticos. Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Álvaro Cunhal foram quatro grandes senhores da política. E houve mais. Entre eles, permitam-me que recorde a figura, algo esquecida, de João Bosco Mota Amaral.

Foi presidente da Assembleia da República e presidente do Governo Regional dos Açores, entre outros desempenhos, tendo exercido essas funções com elevada competência e brilho. Fundador do PPD/PSD, Mota Amaral seria um político de grande probidade, nada politiqueiro, assumindo-se como verdadeiro estadista. Nas vésperas do 25 de Abril, parece-me oportuno realçar a sua acção determinante na chamada ala liberal, de combate ao regime deposto. A ligação à Opus Dei em nada influenciou a conduta política de Mota Amaral. Também foi, ele mesmo, um grande senhor. O país e a política ficaram a dever-lhe muito. Que o seu exemplo frutifique nas gerações vindouras!

Simões Ilharco, Lisboa