Deputados independentistas catalães emocionam Marcelo com a Grândola

O Presidente português foi aplaudido de pé à chegada às Cortes Gerais. Lutar pela democracia, disse, é “um imperativo de todos os dias”. Os parlamentares da Catalunha não perderam a oportunidade de evocar a revolução portuguesa e a sua própria luta.

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LUSA/JUAN CARLOS HIDALGO

A terça-feira começou com a abertura de um fórum empresarial, incluiu uma audiência com Mariano Rajoy e só terminou muito depois, com a recepção oferecida por Marcelo Rebelo de Sousa ao rei Felipe VI e à rainha Letizia. Mas foi um breve momento durante a tarde que acabou por marcar o penúltimo dia desta visita de Estado, aquele em que os independentistas da Catalunha cantaram a Grândola, Vila Morena de cravo amarelo na mão, no final da intervenção do Presidente português nas Cortes Gerais.

Marcelo acabara de falar sobre a democracia como algo “nunca acabado, que é preciso reconstruir perpetuamente”, “um desafio inesgotável”. Lembrando que portugueses e espanhóis sabem o que é “viver em ditadura e lutar pela democracia, construindo-a, passo a passo”, evocou a sua experiência de deputado constituinte para defender que “não basta que a democracia e os direitos humanos estejam consagrados na Constituição, têm de passar à prática, não são nunca um dado adquirido”.

Só com a democracia, afirmou o chefe de Estado português, Portugal e Espanha puderam encontrar “o equilíbrio entre identidades, instituições, pessoas" e “ser realmente” o que queriam. Marcelo, que antes de iniciar o discurso tinha sido aplaudido de pé por todas as bancadas da Câmara dos Deputados e do Senado, não teria o processo soberanista catalão em mente. Mas os independentistas, que há anos pedem uma revisão constitucional que lhes permita referendar a secessão, já tinham decidido que não deixariam passar a sua visita em claro.

Ao discurso, seguiu-se de novo um aplauso unânime, de pé e ainda mais prolongado que o primeiro. Até que os deputados e senadores da ERC (Esquerda Independentista da Catalunha) e do PDeCAT (Partido Democrata Europeu da Catalunha, do ex-líder catalão Carlos Puigdemont) começaram a cantar a Grândola, Vila Morena de cravo amarelo na mão. O Presidente português ouviu, começou a entoar com eles e sorriu, mas rapidamente foi interrompido por Ana Pastor, a presidente do Congresso dos Deputados, que deu por terminada a sessão.

Os deputados catalães continuaram enquanto os membros das outras bancadas aplaudiam ainda mais alto, tentando abafar o som das suas vozes. No meio deles, Gabriel Rufián, um dos porta-vozes da ERC no Congresso, segurava uma folha onde se lia “Liberdade para os presos políticos”, abaixo do habitual laço amarelo usado em protesto pelos dirigentes presos e já pronunciados por rebelião depois de referendarem (ilegalmente) e declarem a independência, em Outubro.

Homenagem a Portugal

Marcelo pode não saber o significado do amarelo dos cravos empunhados, tal como pode não saber que a canção da revolução portuguesa é habitualmente cantada em manifestações nas ruas de Barcelona. Mas emocionou-se. Primeiro com as palmas, depois com a Grândola.

“Fiquei muito emocionado com o aplauso de todas as bancadas”, disse o Presidente aos jornalistas portugueses que o acompanham, já a noite ia longa e Marcelo se despedira dos reis. “Isso aconteceu por ser uma homenagem a Portugal, não a mim, ao Presidente, não ao discurso, mas aos portugueses”, defendeu.

Para Marcelo, este imenso aplauso “foi o reconhecimento do que os espanhóis gostam de Portugal”, o que o deixou “muito lisonjeado”. “Foi uma sensação especial, diferente da que costumo ter na Assembleia da República, onde não tenho suscitado o aplauso unânime”, não deixou de sublinhar.

Para os independentistas catalães, a canção de José Afonso é um de vários símbolos da revolução que dizem estar a fazer pela sua independência e liberdade. Para o Presidente português, “não há democracia sem 25 de Abril e não há 25 de Abril sem a Grândola”. E por isso: “Também me emocionou, claro. Ouvir cantar o símbolo do 25 de Abril depois de fazer um discurso sobre democracia”.

Joan Tardà, da ERC, e Carles Campuzano, do PDeCAT (nacionalistas de direita), sugeriram que o Presidente português quis ficar a cantar com eles mas foi levado por Ana Pastor, membro do Partido Popular, de Rajoy. Foi o que pareceu. Para Marcelo, pouco importa. Aplausos e a Grândola cantada “por formações de diferentes campos políticos” significaram uma e a mesma coisa: uma “homenagem a Portugal”.