Editorial

O cerco a Trump

O presidente americano está num beco cada vez mais apertado e o livro do ex-director do FBI vem criar novos problemas

Mesmo em tempos relativistas como estes que vivemos, comparar um presidente em exercício a um chefe da máfia não é de somenos. Mas foi exactamente isso que fez o ex-director do FBI James Comey, no livro que fica hoje à venda e nas entrevistas que tem vindo a dar.

James Comey será a testemunha-chave do processo que o procurador especial está a desenvolver contra o Presidente. Mas é importante esclarecer que Comey não é nenhum santo: com um ego de um tamanho quase comparável ao do actual Presidente, este é mesmo homem que não teve problemas em denunciar uma averiguação contra Hillary Clinton ao mesmo tempo que silenciou as investigações contra Trump a poucos dias das eleições. O antigo director do FBI escreveu este livro por despeito face à sua demissão – porque se essa não tivesse ocorrido o funcionário público continuaria seguramente calado no que toca a estas revelações.

E é alguém que não se consegue controlar ao ponto de evitar tecer considerações sobre a cor da pele de Trump, o tamanho das suas mãos ou o comprimento da gravata. A quebra de solidariedade institucional justificada pela megalomania e pelo ódio não fazem muito pela credibilidade do conteúdo, mas este continua a ser grave. E é o produto directo do estilo de poder que Donald Trump cultiva, em que fala mais alto quem mais pode – e em que nem os cinquenta milhões de seguidores no Twitter podem concorrer com milhares de notícias relacionadas com o livro polémico.

O presidente americano está num beco cada vez mais apertado: ou deixa que a investigação se arraste e ponha em causa todos os seus aliados e familiares e no limite o atire para uma prisão, ou despede o procurador especial e arrisca levantar uma onde de indignação que pode virar o próprio partido Republicano contra ele, à semelhança do que aconteceu com Richard Nixon. É uma escolha entre duas opções demasiado más, mas seja o que for que aconteça não haverá maneira de manter a experiência americana de democracia sem mácula. Seria sensato que algo mudasse nas lógicas de financiamento das campanhas e no sistema político, de forma a reduzir a extrema dominação bipartidária. Este é mais um paradoxo dos extraordinários Estados Unidos, que se entregam a experiências extremas de democracia directa ao nível do poder local mas depois se colocam num modelo oligárquico a nível nacional. Afirmar que a coisa não está a correr bem é o mínimo.