Crónica

Beijo às flores

O único sangue indecente que conheço é o que vem agarrado aos punhais e balas que cravamos uns nos outros e que nem sempre é reprimido.

Quando a Primavera acenou com o início do período, chovendo sol, tive o privilégio de estar com duas flores – a Aline Flor e a activista Radha Paudel, uma flor do Nepal – numa entrevista conduzida pela Aline, enquanto eu, nervosamente, transpirava inexperiência, enquanto fotografava e filmava.

Convidámos a Radha para uma conversa na redacção. Quando a recebemos, instintivamente, cumprimentei-a com dois beijinhos, como sinal de afecto, admiração, respeito e apoio na defesa da sua causa. Foi o meu namastê! Sussurrando-me delicadamente ao ouvido, houve quem me lembrasse que o gesto era contra os princípios culturais da nossa convidada. Mas beijei-a. Contra todos os dogmas, protocolos e tabus deste mundo.

PÚBLICO -
Foto
Radha Paudel e Aline Flor

Embaraçado, fui tropeçando em toda a minha genuinidade durante a entrevista. Uma parte da minha concentração dedicou-se à demanda de uma razão humanamente plausível para que beijar pudesse ser considerado uma gaffe. Até porque a razão do encontro e da conversa entre as duas flores era precisamente falar sobre tabus. Alguns povos que levam à risca todos os ensinamentos ancestrais – que com certeza farão sentido em cada fase da história da humanidade – correm o sério risco de se encarcerarem nas teias dos seus próprios mitos.

Ouvi falar convictamente na luta pela liberdade de as mulheres viverem naturalmente a sua menstruação. A chhaupadi é “uma tradição em nome da qual as mulheres são banidas de casa durante o período menstrual e têm que se abrigar em cabanas rudimentares, sujeitas a condições desumanas”.

Confesso que não estava à espera que esta característica de natureza fisiológica fosse mais uma luta que a mulher tivesse que enfrentar em pleno século XXI. O direito à livre menstruação. Desde pequeno que ouço falar da menstruação como uma coisa de mulheres e só delas. Há uma frase ilustrativa que ouvia e que sempre me desagradou: “Os rapazes vão à tropa e as raparigas têm a menstruação”. Só elas sabem e sentem o efeito dessa causa natural que mexe com os seus corpos e com as suas hormonas e que as prepara para gerar vida, se for caso disso.

O único sangue indecente que conheço é o que vem agarrado aos punhais e balas que cravamos uns nos outros e que nem sempre é reprimido.

Ao longo da entrevista, fui possuído por um sentimento de culpa e vergonha pelo que ia ouvindo na conversa entre estas duas mulheres. Valeu-me perder o olhar no vazio das manchas no preto-fosco, pintado de propósito para fundo de fotografia, onde umas camaradas fizeram questão de deixar as suas marcas, durante uma sessão de fotografia para um dia muito especial. O que outrora julgava catastrófico, porque tinha que voltar a pintar a parede, agora era a minha bóia de salvação. Era o meu ponto de fuga, a minha abstracção, ao ouvir a conversa entre aquelas flores.

Quando dei por mim, já a entrevista tinha acabado e senti em Radha – a guerreira – um gesto tímido a demonstrar querer despedir-se com os mesmos beijinhos com que a recebera. A sua sensibilidade compreendeu o carinho com que abraçamos a causa das mulheres do Nepal e de todo o mundo.