Reportagem

Raúl põe fim à era Castro e espera que tudo fique na mesma

A passagem do tempo tornou inevitável a “mudança da guarda”. Miguel Díaz-Canel, que não faz parte da “geração histórica”, é o homem que se segue. O partido diz-lhe para não põr em risco o que Fidel, Che, Camilo e os outros heróis revolucionários construíram. Mas tem desafios difíceis para resolver. Os cubanos pedem-lhe muito mais: “O passado já passou e o futuro é incerto.”

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Adriano Miranda/Público
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A poucos dias de uma mudança histórica em Cuba, ainda se ouvem diferentes explicações para a anunciada saída de cena de Raúl Castro, que põe fim a uma era que marcou a História do século XX muito para além da pequena ilha das Caraíbas. Uma diz que o velho general, de 86 anos, está doente e tal como o seu irmão Fidel, o líder revolucionário de quem herdou a presidência, já não consegue responder às exigências do cargo. Outra, que é a mais repetida, é que já estava a ficar sem tempo para cumprir o seu projecto pessoal de regressar a Santiago, a cidade na ponta oriental da ilha de onde é proveniente a sua família, para viver tranquilamente a reforma no ambiente “campesino” que é o seu predilecto.

Se essa é realmente a sua ideia, ainda terá de esperar. “Ele até podia ter vontade e intenção de ir viver para o campo, mas a sede do partido é em Havana, não é em Santiago”, observa um dos habitantes da capital, que como toda a gente em Cuba sabe que a saída de Raúl do Governo, depois de cumpridos dois mandatos de cinco anos (e de um total de 13 anos de presidência), não significa o abandono da vida política para o chefe das Forças Armadas Revolucionárias. Até 2021 está previsto que se mantenha à frente do poderoso Partido Comunista de Cuba, “a força dirigente superior da sociedade e do Estado” que toma todas as decisões no país.

Oficialmente, diz-se que, ao ceder o seu cargo à frente do Conselho de Estado, o presidente Raúl está a cumprir a regra que ele próprio instituiu para promover a renovação dos quadros dirigentes do país e limitar o número de mandatos nas principais instituições políticas cubanas. É por isso, e porque aparentemente Raúl não estava interessado numa sucessão dinástica, que pela primeira vez nos 60 anos da Revolução Cubana, o apelido da pessoa que assumirá a representação do Estado e do Governo já não será Castro.

O escolhido

Ao que tudo indica, o futuro Presidente será Miguel Díaz-Canel, um homem que não combateu na revolução nem nunca teve carreira militar. O actual primeiro vice-presidente do país será o primeiro chefe de Estado civil e o primeiro que só conheceu o actual regime e o único partido que é legal em Cuba. Terá sido escolhido pessoalmente por Raúl Castro para assegurar a “continuidade” e garantir que a “mudança da guarda”, inevitável pela passagem do tempo, não coloca em risco o regime que foi construído por Fidel e os outros heróis revolucionários (Che Guevara, Camilo Cienfuegos), consolidado pela Guerra Fria e alimentado até aos dias de hoje com mão de ferro pela chamada “geração histórica” de dirigentes militares comunistas.

Talvez porque todos os cubanos estudam a organização política do Estado e conhecem a importância e protagonismo do primeiro secretário do partido, pelas ruas de Havana e no resto do país, a mudança na liderança do Governo está a ser encarada com algum cepticismo e uma relativa indiferença. Julgar-se-ia que um acontecimento tão simbólico e significativo como a passagem do poder das mãos da “geração histórica” para os novos membros do Partido Comunista nascidos já na vigência do sistema socialista instaurado por Fidel Castro em 1961, após a vitória da Baía dos Porcos, provocasse mais curiosidade e estimulasse maior debate na ilha. Mas, por defesa ou por cansaço, os cubanos não parecem dispostos a alimentar grandes expectativas de mudança: a experiência das últimas décadas ensinou-lhes que esses são acontecimentos raros.

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Mais do que de uma verdadeira transição, o que está prestes a ocorrer em Cuba é uma calibrada transferência de poder — tão discreta quanto o novo Presidente, que, apesar de já levar três décadas de liderança no aparelho do Partido Comunista, é ainda um desconhecido para muitos no país. “Diz-se que será ele, mas temos de esperar para ver, até ao dia nada é certo”, respondem os cubanos, quando se pergunta por Miguel Díaz-Canel, que se espera seja nomeado e eleito pela Assembleia Nacional já a 19 de Abril, a véspera do seu 58.º aniversário. “Ele é que tem estado a ser preparado para assumir o palco. Mas Raúl vai continuar nos bastidores a dirigir a cena”, garante o dono de um dos muitos paladares (restaurante privado) que nasceram em Havana. “Seja quem for, vai ser dirigido por trás. Toda a gente sabe isso, não é nenhum segredo”, concorda um dos seus clientes.

Cabe aos 605 deputados da Assembleia Nacional (o parlamento é um órgão unicamarário que reúne duas vezes por ano) aprovar os nomes dos novos membros do Conselho de Estado e de Ministros, onde se concentra o poder executivo. E se parece assente que o novo chefe do Governo será mesmo Díaz-Canel, ainda restam dúvidas sobre o alcance da transição do poder e da mudança geracional nos altos escalões da hierarquia política cubana. Com quem é que o novo Presidente vai trabalhar? Permanecerão no cargo os dois mais importantes combatentes históricos, José Ramón Machado Ventura, o segundo secretário do partido de 87 anos, ou Ramiro Valdés, o responsável pela segurança do Estado de 85 anos?

O facto de não haver certezas não quer dizer que a transição não tenha sido cuidadosamente planeada e executada pelo Partido Comunista — cujo funcionamento se mantém propositadamente opaco — para que em Cuba fique tudo na mesma. Alguns analistas e observadores internacionais identificam diferentes correntes internas no partido, referindo a existência de fileiras mais ligadas à ortodoxia, quer por respeito aos históricos, quer por interesse na burocracia, e ao mesmo tempo uma linha de pragmáticos, designados como “reformistas”, dispostos a aceitar uma revisão do modelo económico do país.

Não subestimar o que se passa

“Esta mudança geracional é mais do que simbólica. Pessoas com uma experiência de vida diferente vêem o mundo de uma maneira diferente e por isso abordam os problemas de maneira diferente. É verdade que Raúl Castro continuará muito poderoso no seu papel de primeiro secretário do Partido Comunista, mas Díaz-Canel terá oportunidade de modelar o Governo ao instalar a sua própria equipa na liderança”, diz ao PÚBLICO William LeoGrande, vice-reitor da American University de Washington e especialista em política cubana, que não subestima o actual momento político em Cuba. 

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Transposta para as ruas de Havana, essa distinção entre ortodoxos e pragmáticos manifesta-se mais ou menos na maneira como as diferentes gerações respondem às perguntas sobre o futuro de Cuba. É na conversa com os mais velhos que ainda se sente o famoso “fervor revolucionário” alimentado por Fidel Castro e se ouvem críticas ao embargo económico que ameaça a soberania do país. “Temos de seguir em frente, respeitando as linhas traçadas pelo nosso comandante. Esse alinhamento não é para mudar”, diz um homem de cabelos brancos, que não dá o nome e que mastiga o seu charuto no café Bocoy, que se gaba de oferecer o melhor café de Cuba (tão doce que mais do que um café parece uma sobremesa). 

Para os mais jovens, a política doméstica não é uma preocupação: queixam-se mais depressa dos efeitos da eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos do que da linha do Governo de Havana. E mesmo assim as críticas dizem respeito à diminuição da chegada de turistas norte-americanos à ilha, que travou o crescimento (e enriquecimento) dos negócios particulares liberalizados do sector turístico. “Depois de Obama sentimos que as coisas estavam a mudar, mas a seguir veio Trump e voltou a hostilidade. O impacto sentiu-se de imediato”, reclama Mayra Valido, que precisa de turistas para escoar a sua produção artesanal no centro de Havana.

É repetindo palavras como “incerto e imprevisível” que muitos cubanos definem o seu futuro. “O futuro do país é incerto. Ninguém sabe o que vai acontecer. Fazer previsões é quase impossível. Eu espero que as coisas melhorem, mas é difícil. Pode ser que sim, mas não creio, não me parece”, diz Jorge LeBlanche, um DJ, pintor e fotógrafo de 28 anos que aos domingos está no passeio do Prado, no centro da capital cubana, a participar na concorrida feira do saber organizada há 25 anos pelo colectivo Imagem 3 para promover artistas e desenvolver capacidades ligadas à música, artes plásticas e artesanato.

Cecilio Avilés, o director deste projecto sociocultural comunitário, responsabiliza o bloqueo (o embargo económico decretado pelo Congresso dos Estados Unidos em 1961 e que se mantém em vigor, apesar de algumas medidas de abertura a intercâmbios, investimentos e trocas comerciais e ensaiadas pela Administração de Barack Obama depois de 2015) pelo facto de Cuba ainda ser “um país subdesenvolvido”. “Por causa do bloqueio é muito difícil o financiamento necessário para fazer avançar a economia”, explica. Mas Avilés considera que Cuba tem um potencial que “poucos outros países no mundo têm, que é um potencial de inteligência”: “É a educação que nos fortalece.”

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O que Fidel ensinou

A educação gratuita para todos, que além das qualificações garante também um posto de trabalho para cada aluno, está ao lado do sistema de saúde como uma das grandes conquistas revolucionárias e um pilar do sistema de que os cubanos mais se orgulham e no qual não vêem necessidade de mudanças — mesmo se cambio é o que mais reclamam para poder ter uma vida mais confortável. “Não foi isso que Fidel nos ensinou, que a revolução é mudar aquilo que precisa de ser mudado?”, questiona Esteban, um empresário que leva turistas a conhecer Havana num dos milhares de calhambeques restaurados cujo escape deixa um trilho de fumo negro nas ruas da capital. Enquanto aponta monumentos e conta histórias das disputas entre os mafiosos norte--americanos que controlavam os casinos de Cuba nos tempos da ditadura de Batista, Esteban enumera as grandes virtudes do seu país: a Saúde, a Educação e a segurança. E também os “valores humanos”, aos quais gostaria de acrescentar a liberdade de expressão. Mas, como os seus concidadãos, habituou-se a contar apenas com aquilo que tem “no presente”. “O passado já passou e o futuro é incerto”, justifica.

Onde não se distinguem idades nem profissões é nas referências às dificuldades quotidianas. A vida “está difícil” e “é muito dura”. “Sinceramente, a coisa está má, passamos um mau bocado”, desabafa Luís, um antigo bailarino de 72 anos, que depende da comida distribuída a preços controlados pelo Governo para sobreviver e não tem vergonha de pedir uma “ajuda” a turistas. “É certo que está difícil, mas já esteve pior. E nós cubanos estamos habituados a aguentar.”

Esse é o grande risco político que o novo Presidente enfrenta, diz William LeoGrande. “O novo Governo está confrontado com uma economia estagnada, cujo processo de reforma ou falhou ou foi suspenso, o que priva a população de esperança num futuro melhor. O aumento das desigualdades é certamente uma preocupação para muitos cubanos, mas seria um problema político muito menor, se as condições de vida fossem melhores”, diz. 

Por isso, aponta, o principal desafio de Días-Canel será “relançar o processo de reformas económicas para elevar o nível de vida dos cubanos”, uma missão complicada que o obrigará a “gerir o descontentamento das elites perante a expansão das críticas da opinião pública” e a “navegar a difícil relação com os Estados Unidos” depois de Donald Trump ter voltado a pôr as relações entre os dois países no congelador.