Ex-director do FBI diz que Trump se porta como um padrinho da Máfia

Livro de memórias de James Comey é publicado esta terça-feira e traça um retrato altamente penalizador do Presidente dos EUA. Trump acusa-o de mentir.

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James Comey foi afastado do FBI em Maio do ano passado Jonathan Ernst/REUTERS

O lançamento do livro de memórias do ex-director do FBI, James Comey, está a deixar Donald Trump à beira de um ataque de nervos. Numa entrevista, Comey disse que o Presidente dos EUA é “moralmente inapto” para governar e comparou-o a um patrão da Máfia. A Casa Branca tem passado os últimos dias a tentar descredibilizar o ex-director da agência.

Quando era chamado para reuniões na Casa Branca pelo então recém-eleito Donald Trump, Comey recordava-se dos seus tempos como procurador, em que liderou investigações a uma das mais célebres famílias da Máfia nova-iorquina.

“O círculo silencioso de assentimento. O chefe em controlo total. Os juramentos de lealdade. A visão 'nós contra eles'. A mentira sobre todas as coisas, grandes ou pequenas, por respeito a um qualquer código de lealdade que põe a organização acima da moralidade e da acima da verdade”, escreve Comey no livro de memórias que é publicado esta terça-feira, A Higher Loyalty (Uma Lealdade Superior).

Terá sido no final de um desses encontros que Trump pediu directamente a Comey que lhe jurasse lealdade, sugerindo que abandonasse as investigações sobre os contactos que membros da sua equipa de transição tiveram com dirigentes russos. O director do FBI diz ter recusado e, pouco tempo depois, era afastado por Trump, que o acusava de ser incompetente. Desde então, as trocas de acusações – e no caso de Trump, insultos – não cessaram.

Numa entrevista ao canal ABC News no domingo, Comey disse que Trump é “moralmente inapto” para liderar. “Não acredito nessa história de ele ser mentalmente incompetente ou de estar nas fases iniciais de demência. Ele parece-me uma pessoa de inteligência acima da média, que segue as conversas e sabe o que se passa à sua volta. Não creio que ele seja clinicamente inapto para ser Presidente. Acho que ele é moralmente inapto para ser Presidente”, afirmou.

Comey deixou ainda um aviso a Trump de que o potencial afastamento do procurador especial Robert Muller, que está à frente das investigações à interferência russa nas eleições de 2016, seria um dos “ataques mais sérios ao Estado de Direito” das últimas décadas. A sua experiência com Trump leva Comey a não descartar a possibilidade de Moscovo poder ter informações comprometedoras sobre o Presidente.

"Um funcionário descontente"

Do outro lado da barricada, a resposta não se fez esperar. Esta segunda-feira, Trump acusou Comey e o ex-vice-director do FBI, Andrew McCabe, de terem cometido “muitos crimes”, sem explicar quais. Na véspera, o Presidente tinha já chamado Comey de “bola de baba” e disse que os seus memorandos das interacções que o ex-director manteve com Trump – e que estão na base de muito do que é descrito no livro – são “falsos”.

O Partido Republicano também saiu ao ataque, descredibilizando o ex-director como alguém que quer apenas “um cheque”. “Ele usou as conversas privadas com o Presidente e está a fazer dinheiro com isso”, disse à CNN a líder do Comité Nacional Republicano, Ronna McDaniel. A conselheira da Casa Branca, Kellyane Conway, descreveu Comey como um “antigo funcionário descontente”.

No livro, Comey tenta também justificar a decisão de divulgar publicamente que a investigação à utilização de um servidor de email privado por Hillary Clinton tinha sido reaberta, a pouco mais de dez dias das eleições presidenciais – e que muitos no Partido Democrata dizem ter sido um dos factores que terá levado à vitória do seu rival. A justificação dada pelo ex-director do FBI sugere que por trás da decisão de revelar publicamente a reabertura da investigação – que acabou por ser arquivada definitivamente – esteve um juízo político.

“É totalmente possível que, dado que estava a tomar decisões num ambiente em que todos estavam convictos de que Hillary Clinton seria a próxima Presidente, a minha preocupação em que ela se tornasse numa Presidente ilegítima ao ocultar a reabertura da investigação tenha tido mais peso do que teria, caso as eleições parecessem mais renhidas ou se Donald Trump estivesse à frente nas sondagens”, escreveu Comey.