Recuperado quadro de Chagall desaparecido há 30 anos

Tela datada de 1911 tinha sido furtada em Nova Iorque. O FBI apreendeu-a numa residência no Maryland, EUA, depois de um homem suspeito de receptação do quadro ter telefonado às autoridades a solicitar uma recompensa.

Investigadores do FBI seguram no quadro "Otelo e Desdêmona" de Marc Chagall
Foto
Investigadores do FBI exibem "Otelo e Desdémona" de Marc Chagall FBI

O FBI recuperou um quadro do pintor Marc Chagall que tinha sido roubado há 30 anos do apartamento de um casal de idosos no bairro nova-iorquino de Sutton Place, em Manhattan. "Otelo e Desdémona", pintura modernista a óleo datada de 1911, foi descoberta ainda em 2017, de acordo com um comunicado divulgado nesta quinta-feira pelo FBI, e entretanto identificada como a obra que estava desaparecida há três décadas.

Os donos do quadro, Ernest Heller e Rose Heller, casal de filantropos e coleccionadores de arte (detentores de obras de outros artistas como Hopper, Picasso e Renoir), foram vítimas do furto em 1988, enquanto estavam de férias na estância de esqui de Aspen, segundo relata o jornal The Art Newspaper. O FBI acredita que o crime terá sido cometido por um funcionário que tinha acesso ao prédio e que sabia que os proprietários estavam ausentes. "Foi uma golpada interna [de] uma pessoa que tinha acesso regular ao edifício", diz o agente especial Marc Hess, agente da Unidade de Crimes de Arte do FBI, citado no comunicado. 

Para além do quadro de Chagall — no valor de cerca de 600 mil dólares (486.130 euros ao câmbio actual) —, terão sido também roubadas outras 13 peças de arte do apartamento do casal Heller, recorda o jornal Washington Post. Após o assalto, a companhia de seguros indemnizou o casal no valor de 100 mil dólares. Além de obras de arte, Ernest e Rose Heller eram proprietários de outras peças valiosas como jóias — Ernest era um conhecido joalheiro —, esculturas, talheres de prata e tapeçaria. No entanto, aquela pintura de Marc Chagall tinha um valor acrescido. "Eu gostava daquele Chagall. Gostava de todos eles [os quadros roubados], mas o Chagall era muito interessante porque era uma pintura de 1911", quando o artista ainda era relativamente desconhecido, explicava na altura Ernest Heller à United Press International (UPI).

Em busca de uma recompensa

O relatório da investigação, que o FBI cita em comunicado, dá conta que, pouco depois do roubo, o assaltante ter-se-á encontrado com um homem do estado norte-americano do Maryland, por identificar, que terá adquirido o quadro de Chagall. De acordo com o Washington Post, o segundo interveniente e o ladrão terão chegado a estabelecer uma espécie de parceria para a venda do quadro a um comprador com alegadas ligações a uma rede de crime organizado da Bulgária. No entanto, o acordo terá fracassado, pelo que o quadro se manteve na posse do "homem do Maryland" que tentou, por duas vezes, vendê-lo à consignação a uma galeria de arte em Washington, em 2011 e 2017.

Contudo, o dono da galeria suspeitou da origem da pintura devido à falta de documentos que comprovassem a sua autenticidade e sugeriu que o homem entrasse em contacto com o FBI. Assim fez o "homem do Maryland", que contactou o FBI em busca de uma recompensa. No entanto, para além de não receber qualquer compensação, o indivíduo viu a sua casa ser alvo de buscas. Foi então que os investigadores encontraram a obra de arte, armazenada no sótão de uma casa no Maryland, dentro de uma caixa de madeira onde estava escrito "Misc High School artwork" ("Trabalhos Artísticos Variados da Escola Secundária", numa tradução aproximada).

Através do cruzamento de informação de bases de dados do FBI e da Interpol, a obra foi finalmente identificada como o quadro que tinha sido roubado em 1988. "A arte bem documentada e conhecida é muito difícil de ser transaccionada depois de ter sido roubada. Os donos de galerias de arte são a nossa primeira linha de defesa na identificação de peças de arte que não têm a documentação apropriada e que devem ser levadas ao conhecimento das autoridades", disse Tim Carpenter, o agente especial de supervisão da equipa do FBI no comunicado.

Uma vez que o crime prescreveu, nem o ladrão nem o referido "homem do Maryland" responderão por qualquer acusação em tribunal. Segundo o processo citado pelo Art Newspaper, o principal assaltante tinha sido já condenado anteriormente e cumprido pena de prisão por crimes de roubo. Os suspeitos — agora com cerca de 70 anos — não foram identificados, uma vez que a investigação relativa a outras 13 obras de arte roubadas continua a decorrer, segundo o Washington Post.

O Ministério Público norte-americano emitiu, na quinta-feira, um pedido ao tribunal para aprovar a devolução do quadro aos herdeiros do espólio do casal Heller, entretanto falecido, para que este possa vir a ser leiloado, avança a BBC. A receita — que poderá chegar a várias centenas de milhares de dólares — servirá para reembolsar a companhia de seguros e para financiar organizações sem fins lucrativos, nomeadamente a MacDowell Colony — uma organização de promoção de arte contemporânea da qual Ernest Heller fez parte —, a Universidade Columbia e o Centro Médico Universitário de Nova Iorque.

Otelo de Shakespeare

No comunicado de imprensa, o FBI assegura que vai devolver a pintura aos devidos proprietários, com o objectivo de "preservar a história". "Esta peça de arte é de significância não só pelo seu valor monetário, mas pelo lugar [que ocupa] no mundo da arte e cultura. O FBI continua a empregar recursos investigativos na recuperação de propriedade cultural", disse Nancy McNamara, um responsável do gabinete do FBI em Washington.

Segundo Alan Scott, procurador responsável pelo caso, "de todas as obras que poderiam ter sido recuperadas, esta é aquela que mais teria agradado [o casal Heller]", disse ao Washington Post.

O quadro, que esteve desaparecido durante três décadas, terá sido comprado pelo casal em 1920, segundo o comunicado do FBI. A obra mostra Otelo a segurar uma espada enquanto olha para a sua noiva, Desdémona, que se encontra deitada numa cama. Foi pintado em 1911 por Chagall, então um jovem artista judeu de origem russa, na altura em que foi viver para Paris.