Satélite “caçador” de exoplanetas da NASA é lançado esta segunda-feira

A missão chama-se TESS e conta com a participação de um grupo de cientistas portugueses. O lançamento do satélite será feito do Cabo Canaveral, nos EUA, às 23h32 de Lisboa.

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Ilustração artística do telescópio TESS NASA/GSFC
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O mais recente instrumento da agência espacial norte-americana NASA para a investigação astrofísica deverá descolar da base da Força Aérea do Cabo Canaveral, na Florida, EUA, esta segunda-feira quando forem 23h32 em Portugal continental, a bordo de um foguetão Falcon 9 da SpaceX, a empresa do empresário Elon Musk. O TESS (sigla em inglês para Transiting Exoplanet Survey Satellite, ou Satélite para Levantamento de Exoplanetas em Trânsito) é o sucessor do célebre telescópio espacial Kepler e tem como missão principal detectar mais planetas semelhantes à Terra noutros sistemas solares. E há mais de uma dezena de cientistas portugueses do Instituto de Astrofísica (IA) envolvidos nesta aventura que procura sinais de vida distantes de nós.

Margarida Cunha, investigadora do IA e da Universidade do Porto, e membro executivo do Consórcio de Ciência Asterossísmica do TESS, vai estar esta segunda-feira à noite em casa, juntos dos filhos, a assistir à transmissão que deverá ser feita pela NASA TV do momento em que o foguetão que transporta o telescópio da NASA vai descolar dos EUA às 18h32 locais. Depois, será a altura de esperar cerca de dois meses de testes e pela viagem do instrumento até ficar colocado na órbita terrestre. E depois esperar mais um pouco até que “no final deste ano”, aqui na Terra, se recebam os primeiros dados sobre estrelas brilhantes e os planetas ao seu redor. “Uma das grandes vantagens em relação à missão anterior [do telescópio Kepler, também da NASA] é que este vai procurar planetas em torno de estrelas brilhantes”, refere.

O antecessor de TESS terá ajudado a descobrir a maior parte dos 3700 exoplanetas documentados durante os últimos 20 anos e está prestes a ficar sem combustível. Agora, explica Margarida Cunha, a expectativa dos cientistas envolvidas nesta missão de dois anos é que o TESS olhe para “mais de 200 mil estrelas, registe entre 1500 e 2000 trânsitos e ajude a confirmar a existência de cerca de 500 exoplanetas do tamanho da Terra ou superior (super-Terras) em zonas consideradas habitáveis, a uma distância da sua estrela que torna possível encontrar água em estado líquido”.

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O equipamento com asas de painéis solares está equipado com câmaras especiais (quatro câmaras CCD de grande campo, com 16,8 megapixéis cada), capazes de rastrear 85% do céu com um método de detecção chamado fotometria de trânsito, que procura quedas periódicas e repetitivas na luz visível das estrelas causadas por planetas que passam à sua frente.

“O telescópio vai cobrir uma grande área do céu e registar as variações de brilho. São câmaras que tiram fotografias sucessivas a uma cadência de dois minutos, onde fica registado o número de fotões, a quantidade de luz”, simplifica a investigadora do IA em declarações ao PÚBLICO. Depois é preciso analisar a quantidade luz que varia e como varia.

No primeiro ano da missão será observado o hemisfério Sul e no segundo ano o hemisfério Norte, com o telescópio a concentrar-se em planetas que orbitam estrelas próximas da Terra, a menos de 300 anos-luz de distância, e 30 a 100 vezes mais brilhantes do que as estrelas-alvo do Kepler. “Um dos objectivos do Consórcio de Ciência Asterossísmica do TESS é usar asterossismologia para determinar propriedades como a massa, o raio ou a idade de objectos de interesse para o TESS, isto é, estrelas em torno das quais se suspeita existirem planetas. A caracterização destas estrelas é essencial para a determinação das propriedades dos planetas em causa e também para a caracterização dos respectivos sistemas exoplanetários”, refere a investigadora no comunicado do IA enviado sobre a missão.

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No mesmo documento, sublinha-se que Tiago Campante é também um membro do grupo de trabalho responsável pela selecção e priorização de alvos científicos do TESS. “Recentemente [este investigador] recebeu uma bolsa Marie Sklodowska-Curie, para aplicar no estudo da evolução conjunta das estrelas e dos planetas. O projecto, distinguido pela Comissão Europeia com 160 mil euros, visa detectar e caracterizar planetas gasosos em torno de gigantes vermelhas, estrelas mais velhas do que o Sol, usando dados obtidos pelo satélite TESS.”

A missão TESS envolve mais de uma dezena de cientistas do IA, dos grupos das estrelas e dos planetas. Nuno Santos, investigador do IA e conhecido “caçador de exoplanetas”, lembra ainda que o instituto  “está envolvido em vários esforços que vão permitir complementar de forma crucial os dados do TESS”, referindo-se a instrumentos como o espectógrafo ESPRESSO. “Esta participação vai ainda ajudar a preparar as missões espaciais Cheops e Platão, da Agência Espacial Europeia (ESA), nas quais o IA está envolvido ao nível do planeamento e da construção”, conclui.

O TESS vai fornecer a matéria-prima preciosa para traçar o perfil das longínquas estrelas e dos planetas à sua volta. Mas a confirmação e validação da descoberta deste ou daquele exoplaneta será feita aqui, na Terra. É preciso contar com alguns falsos positivos que podem ser apenas sombras, manchas um simples corpo pequeno e denso que não passa de um estrela anã, alerta Margarida Cunha. Ou seja, o TESS não vai sozinho detectar a vida além da Terra. Mas tudo o que vai registar nesta sua viagem será minuciosamente analisado em Terra e confirmado por outros instrumentos que podem levar a esse final feliz.

A aventura, que terá custado à NASA 337 milhões de dólares (mais de 270 milhões de euros) deverá demorar dois anos mas, se ainda restar combustível, poderá prolongar-se por mais algum tempo como acontece neste tipo de missões. E se o foguetão não explodir nem acontecer nenhuma catástrofe, não parece haver espaço para um falhanço da missão na parte científica. “Mesmo que as expectativas que temos não se confirmem ou falhassem redondamente e se, por acaso, não se encontrassem estas estrelas e exoplanetas que esperamos, a missão também seria interessante porque iria levantar uma série de outras questões”, sublinha Margarida Cunha.