Uma escalada entre as duas superpotências não se faz com um pré-aviso de cinco dias

Os ataques dos EUA, da França e do Reino Unido a alvos do regime de Assad na Síria são “só uma sinalização de músculo geopolítico”, diz o investigador Bernardo Pires de Lima, com livros publicados sobre a guerra da Síria e a Rússia.

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Um Rafale francês levanta voo em Chipre Yiannis Kourtoglou/REUTERS

Havia um imperativo moral de fazer alguma coisa que mostrasse a condenação dos Estados Unidos a mais um ataque com armas químicas de Bashar al-Assad. Só que a Síria não é uma prioridade para a Administração Trump, tal como não foi para Barack Obama, e não justifica que Washington compre uma guerra com a Rússia, diz Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) da Universidade Nova de Lisboa. Por isso, os bombardeamentos foram feitos com amplo aviso prévio e nada mudará na guerra da Síria.

Os ataques de sábado mudam de alguma forma a dinâmica da guerra na Síria?
Se for só isto, não mudam rigorosamente nada. Parecem ser apenas uma sinalização política. Uma das conclusões destes sete anos de conflito é que as dinâmicas da guerra síria não dependem nem são influenciadas pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido ou por França. 

Foram mais aparato do que uma acção realmente eficaz?
É uma sinalização política em função de um contexto: uma resolução do Conselho de Segurança vetada pela Rússia; mudanças na Casa Branca que levaram a uma estratégia de retirada [de forças americanas na Síria], que tinha sido anunciada há uma semana; e uma característica desta Administração, que já vinha da anterior [de Obama], que é não ter a Síria no top das prioridades de política externa e de segurança dos EUA, nem ter qualquer estratégia para o que se segue a um ataque cirúrgico. Os ataques são apenas e só uma sinalização face a um contexto e a uma necessidade de intervenção quase moral, perante mais uma tragédia, que estou em crer que não será a última.

Ao mesmo tempo, aprofunda-se o fosso entre os países do Ocidente e os rivais Rússia e Irão, numa altura em que se aproxima o fim do prazo (12 de Maio) dado por Trump aos seus aliados para a revisão do acordo nuclear com o Irão. Que consequência poderá ter?
A Administração Obama secundarizou a guerra na Síria em função de uma nova relação com o Irão. Atribuiu uma vantagem ao Irão no terreno, e indirectamente depois à Rússia, em detrimento de um envolvimento que, hipoteticamente, poderia solucionar a guerra. A opção foi escolher um bem maior, monitorizar o programa nuclear do Irão e trazê-lo para a órbita do concerto internacional e secundarizar a guerra civil síria. Já a Administração Trump não consegue fazer nem uma coisa nem a outra. Rasga um acordo e não soluciona a guerra.

Porquê?
Porque os EUA, por três razões fundamentais, chamadas Afeganistão, Iraque e Líbia, não têm vantagem competitiva, nem vontade política para tentar forjar um alinhamento entre os interesses presentes na Síria. Como nem esta Administração nem a anterior têm vontade de colocar a Síria no topo das suas prioridades, não têm um peso decisivo. É muito mais decisivo para uma solução diplomática ou política na Síria um alinhamento entre a Turquia, a Arábia Saudita e o Irão, do que entre a Rússia e os EUA. Vejo toda esta investida como uma sinalização de um músculo geopolítico.

Mas a sua pergunta tem outra escondida. Isto levanta uma escalada bilateral entre os EUA e a Rússia? Eu acho que não. Porque ninguém que pretenda uma escalada entre as duas superpotências faz um pré-aviso de cinco dias de uma intervenção e depois acautela que nos ataques cirúrgicos todos os interesses russos estejam protegidos. Há aqui um jogo em que os analistas não podem cair, que é o do imediatismo, de toda esta espuma de ataques e contra-ataques propagandísticos.

No estrutural, e mesmo no caso da expulsão de diplomatas e de espiões do último mês, nada abanou. Pelo contrário, a Rússia até ganhou vantagem na Europa. Não perdeu nada no caso da assinatura do gasoduto Nordstream 2 [a Alemanha emitiu as últimas autorizações para a construção do novo braço do gasoduto que duplicará a quantidade de gás natural russo que chegará à Europa a partir do fim de 2019 através do Mar Báltico, mas outros países têm ainda de dar luz verde a este projecto polémico]. Nem perdeu nada da central nuclear Paks II na Hungria, que é patrocinada pela Rússia, num negócio bastante obscuro [a Áustria processou a Comissão Europeia por ter permitido a expansão da central]. Na Síria, a Rússia também não perdeu nada – pode até vir a ganhar do ponto de vista comercial, porque o regime sírio precisará de compensar as perdas sofridas com o ataque. É preciso algum distanciamento. Acho que no essencial nada mudou.

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Bernardo Pires de Lima: "No estrutural, e mesmo no caso da expulsão de diplomatas e de espiões do último mês, nada abanou" DR
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