Editorial

O PS tem um trauma (e Centeno é antídoto)

A convicção de Centeno em mostrar contas sólidas em Bruxelas liga na perfeição na necessidade que Costa tem de mostrar, nas eleições de 2019, que o PS é da esquerda que sabe fazer contas - e segui-las à risca.

Na longa e bonita aprendizagem da esquerda sobre a arte de governar, a lição mais difícil é sempre a das contas públicas. É da mais elementar justiça reconhecer que tem passado nos exames com boa nota: no Bloco, como no PCP, já se fazem contas aos custos das medidas, com dados fornecidos pelo Governo; procuram-se compensações, para não prejudicar objectivos; respeitam-se metas definidas com Bruxelas; sublinha-se até a importância de manter as contas em ordem e a dívida em trajectória descendente.

Daí que seja cada vez mais racional este debate com o Bloco e o PCP. É no mínimo compreensível que Catarina e Jerónimo exijam ao Governo que entregue ao Hospital de São João os milhões há um ano prometidos para fazer as obras na ala pediátrica, como é de bom senso que digam que é preciso fazer contas para integrar precários que no privado já não o poderiam ser - apenas para dar dois exemplos. 

É, também, racional que o Bloco exija a Centeno que explique por que tem que baixar o objectivo do défice deste ano, quando o país vive ainda num relativo fôlego externo (via BCE), tendo muitos buracos por tapar em serviços públicos depauperados por décadas de crise.

O que o Bloco sabe, como a ala esquerda do PS sabe também, é que o PS tem um trauma por resolver com a sua história. E que esse trauma é a razão maior da aliança sólida que António Costa estabeleceu com o seu ministro das Finanças. Esse trauma é o do pedido de resgate à Comissão Europeia e ao FMI, uma conta que José Sócrates deixou por pagar - e que perdura na maneira como os portugueses olham para o partido.

Não, Costa não deixará cair Centeno. Porque a convicção de Centeno em mostrar contas sólidas em Bruxelas liga na perfeição com a necessidade que Costa tem de mostrar, nas eleições de 2019, que o PS é da esquerda que sabe fazer contas - e segui-las à risca.

É por isso que a questão central deste programa de estabilidade, que hoje vai ser conhecido, não é tanto se o défice lá escrito vai ser de 0,7% ou não. É saber se Centeno não vai querer que acabe o ano bem abaixo disso, com a complacência de Costa. É aí, mesmo na gaveta do centro, que ele quer arrumar o trauma do PS. 

P.S. António Costa e Rui Rio acabam de fechar o primeiro acordo formal ao centro desde 2006. Têm um outro por um fio, na descentralização. É sintomático, também, que o PSD tenha deixado a oposição a Centeno para a esquerda. Na verdade, como dizia o Manuel Carvalho aqui, não teria muito a dizer.