Os EUA começaram a esquecer o Holocausto?

Pelo menos 22% dos norte-americanos menores de 34 anos nunca ouviram falar do extermínio de seis milhões de judeus às mãos do regime nazi.

Museus estão à procura de formas de preservar testemunhos na primeira pessoa de sobreviventes do Holocausto para combater indiferença
Foto
Museus estão à procura de formas de preservar testemunhos na primeira pessoa de sobreviventes do Holocausto Reuters/RONEN ZVULUN

Sete décadas após o encerramento dos campos de extermínio nazis onde milhões de pessoas, incluindo seis milhões de judeus, foram assassinados pelo regime de Adolf Hitler, um estudo sugere que os horrores do Holocausto começam a desvanecer na memória colectiva.

Uma pesquisa conduzida pela Schoen Consulting para uma organização judia encarregue de gerir os processos de pedidos de indemnização de vítimas do Holocausto, o Congresso de Reivindicações, cujas conclusões foram publicadas nesta quinta-feira, aponta para “falhas graves no conhecimento de factos básicos sobre o Holocausto”. A sondagem feita junto de 1350 norte-americanos indica que o desconhecimento é progressivamente maior junto das gerações mais jovens. Os piores resultados foram registados entre millennials, termo relativo a jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos.

Pelo menos 11% dos adultos norte-americanos e 22% dos millennials nunca ouviram falar do Holocausto ou não têm a certeza do que se trata. Outra fatia significativa desconhece o número de vítimas, apontando para um balanço inferior a dois milhões de pessoas. Cerca de metade dos entrevistados não consegue nomear um campo de concentração ou extermínio, nem mesmo quando se refere Auschwitz.

"À medida que nos afastamos da data dos eventos, agora com mais de 70 anos, começa a afastar-se da primeira linha do que as pessoas estão a falar, a pensar, a discutir ou a aprender”, explica Matthew Bronfman, membro do Congresso de Reivindicações em declarações ao New York Times. E deixa um alerta: “Se esperarmos mais uma geração antes de fazermos alguma coisa para remediar isto, acredito que vamos ter problemas”.

Se o filósofo e político irlandês Edmund Burke (1729-1797) dizia que “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”, os próprios inquiridos no estudo revelam ter alguma consciência do problema. Cerca de 70% concordam que existe um interesse cada vez menor em aprender sobre o que foi o Holocausto, e 58% acreditam que um semelhante acto de genocídio possa ocorrer outra vez.

Quase todos os entrevistados (93%) concordam que aquele período histórico devia ser um dos temas obrigatórios nos programas de ensino. Ao mesmo tempo, apontam que a forma como se ensina o tema nas escolas “podia ser melhor”. Para alguns especialistas em museologia, a solução está no recurso a novas tecnologias e ao registo da memória dos sobreviventes dos campos de extermínio, hoje com idades avançadas.

A negação total da existência do Holocausto é apenas defendida por 4% dos inquiridos. Para Greg Schneider, vice-presidente executivo da organização que conduziu a investigação, este valor relativamente baixo mostra que “o problema não é o número de pessoas que nega a existência do Holocausto”, mas antes que este "está a desvanecer da memória" colectiva.

Título corrigido às 10h58: onde se lia "humanidade" passou a ler-se "EUA".