Nelson Garrido

É deste século o último grande romance do século XX e tornou-se a obsessão de um tradutor português

Uma obra literária tornou-se a obsessão de um tradutor. Manuel Neto estava apostado em mudar a sua vida para dar a conhecer William T. Vollmann aos portugueses. Acaba de traduzir e editar Central Europa, grande exemplar de uma tradição literária que se extinguiu com o século XX.

William tinha nove anos quando os pais lhe pediram que olhasse pela irmã de seis enquanto iam nadar. Distraiu-se a brincar e a irmã afogou-se na lagoa. Ele conta essa história em quase todas as entrevistas — contou-a em 2014 numa conversa com o Ípsilon — como definidora do seu carácter e o molde em que se fez escritor. Escreve sempre em cima desse trauma. “É muito misteriosa e complicada a relação entre trauma, tentativa de entendimento do trauma, empatia e arte”, disse nessa conversa este homem que se vê como uma pessoa entre tantas outras cuja vida foi “lixada” por uma circunstância. Talvez por isso se aproxime tanto dos da margem — drogados, bêbados, prostitutas/os, criminosos, vítimas de violação, violadores, os que por um acidente se desviaram de uma norma, romperam com a normalidade. Ele é William T. Vollmann e expia a sua culpa em tudo o que escreve. Obsessivamente.

Considerado um dos mais virtuosos autores da sua geração, onde se incluem Jonathan Franzen, Jeffrey Eugenides, David Foster Wallace ou Jennifer Egan, é de todos o mais prolífico. Mas nunca conseguiu o estatuto de estrela das letras americanas. Tem dito que não gosta de palco. Escreve e aventura-se em territórios — geográficos e temáticos — considerados interditos. Experimenta a realidade sobre a qual quer escrever e não tem medo de dizer que procura nisso a empatia, estar na pele de prostitutas, soldados, terroristas, mesmo que essa pele muitas vezes só fique mais próxima do entendimento quando a transpõe da realidade para a ficção. É o paradoxo com que vive. Esteve inédito em Portugal até ao final de 2014, já tinha vasta obra publicada. O título de estreia por cá foi Vós, Luminosos e Elevados Anjos, livro muito longo como quase tudo o que escreve. Passou ao lado do público e o nome de William T. Vollmann não saiu da sombra. Agora publica-se outro título, o seu romance mais celebrado, Central Europa, original de 2005, vencedor do National Book Award, ambiciosa narrativa sobre o sofrimento, o trauma, a humanidade que pode existir mesmo no Mal. Por detrás dos dois livros está outra obsessão de outro homem: a obsessão de Manuel João Neto por William T. Vollmann.

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Ele é William T. Vollmann, autor que expia a sua culpa em tudo o que escreve DR

Manuel Neto, 35 anos, descreve-se como um freelancer ligado a projectos artísticos. Formado em Direito, traduziu e editou os dois livros de Vollmann num plano que não vai acabar aqui e no qual entra uma pequena editora do Porto, a 7 Nós, que desde 2014 não publicou mais nenhum autor. “Conheci o Vollmann através da tradução francesa do Central Europa, há dez anos, num período em estive ligado à Nouvelle Librairie Française. Na altura, o que me atraiu no livro foi o tema — a Segunda Guerra Mundial. Há também o facto de sempre me ter interessado por autores de ficção norte-americanos”, conta, manifestado alguma reserva em falar das suas motivações.

Central Europa projectou Vollmann fora de um circuito de culto. Se há um tema, é a Europa e o conflito que a marcou no século XX. Mas o livro entende-se para lá do período do conflito e questiona a identidade europeia a partir de algumas das suas figuras. Todas as personagens são reais, mas adquirem uma aura fantasiosa. Há Hitler, Estaline, Franco. E há o compositor Shostakovski, o realizador Roman Karmen e a sua mulher Elena Konstantinovskaya com quem Vollman compõe um triângulo amoroso que assume como resultado da sua imaginação. São só algumas das muitas, muitas personagens que cruzam as 32 histórias, ou parábolas, de que é feito este livro, obra também acerca do sofrimento, da circunstância pessoal em que acontece o Mal colectivo. Depois de Central Europa, Vollmann não foi mais olhado da mesma forma, mas nem isso o demoveu do seu estilo de vida, longe dos circuitos convencionais.

Como Vollmann, também Manuel Neto prefere ficar longe das atenções. E porque há Vollmann custa-lhe a entender o interesse no seu trabalho. “Eu?!”

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Ele é Manuel Neto, que mudou a vida nos últimos cinco anos para traduzir e editar cerca de duas mil páginas do norte-americano Nelson garrido

Ele traduziu quase duas mil páginas de um autor hiperactivo e tagarela que quer abarcar o universo e a sua complexidade em cada texto de imaginação hiperbólica, que gosta da escritora e poeta japonesa Lady Murasaki Shikibu e de John Dos Passos, que comparam a Thomas Pynchon ou a David Foster Wallace — de quem foi amigo.

“Vollmann é um autor multifacetado e dificilmente categorizável, uma espécie de anarquista literário”, diz Manuel Neto que se considera longe de uma apreciação global à obra vasta do escritor. “Não tenho a vocação académica para a análise obsessiva de um autor, porque a literatura interessa-me sobretudo pelos seus temas, pelas ressonâncias de sentido que criam, pelo seu pensamento no fundo. O Vollmann tem muitos livros publicados, livros muito exigentes e longos, pelo que teria de lhe dedicar ainda mais tempo para o conhecer a fundo enquanto autor, mas não tenho essa a ambição.”

Foram cinco anos para traduzir dois livros. Não um tempo total, porque não daria para viver — não dá para viver —, mas uma dedicação completa para que ficasse o mais fiel possível ao tom de Vollmann. Com algumas cautelas, atreve-se a avançar notas distintivas na obra do autor de Central Europa como “a obsessão pelo tema da violência, a atracção por lugares de marginalidade e exclusão, a tendência para a parábola”. E salienta: “Mas ele escreve em registos muito diversos e sem um estilo muito definido. Formalmente, não é nem demasiado clássico nem demasiado experimental, é um híbrido, uma voz própria. Seja como for, penso que a questão formal na arte e na literatura se tornou irrelevante com o tempo e não é o vocabulário literário do Vollmann aquilo que mais me interessa. Todas as fórmulas literárias foram já testadas até ao limite, pelo que não acho que seja essa a dimensão fundamental de determinação do valor da obra. O importante é a visão do autor, a sua capacidade para criar mitologias. No caso do Vollmann atrai-me sobretudo o seu esforço extremo por preservar uma relação de empatia com o mundo e o facto de ele se implicar pessoalmente na sua escrita, de não existir uma separação estanque entre vida e obra. Acho isso muito importante.”

Criou-se uma mitologia acerca do envolvimento de Vollmann com o seu trabalho. O ponto de partida é sempre o real, talvez contaminado pela sua experiência enquanto jornalista onde publicou reportagens em alguns dos meios mais prestigiados, como a New Yorker, a Esquire ou a Harper’s. Com pouco mas de vinte anos em 1982, esteve no Afeganistão, ao lado dos mujahideen na guerra contra a então URSS. Foi cliente para escrever sobre prostituição. Usou crack e frequentou o submundo do crime para um ensaio sobre violência. Nunca escreve apenas um livro ao mesmo tempo. Cada volume leva-lhe anos de trabalho, de pesquisa, de confronto com as palavras até tudo soar natural, próximo do real.

A música com que escreve

São milhares e milhares de páginas publicadas em mais de 30 títulos entre ficção, não-ficção, híbridos difíceis de arrumar num género, por isso Manuel Neto vai dizendo que está longe de ter lido tudo o que Vollmann escreveu, mas já leu o suficiente para lhe apanhar o tom na difícil tarefa de o traduzir. Em cinco anos, foram quase duas mil páginas de dois livros muito diferentes. “Para mim, a tradução é sobretudo uma questão de escuta, da capacidade para ouvir a melodia interior das palavras”, compara. “O desafio que me coloco quando traduzo é simplesmente o de defender o livro o melhor possível, captar a intenção do autor, as suas diferentes tonalidades emocionais e os sentidos ocultos do texto. Central Europa é um livro complexo porque exige do tradutor o mesmo rigor terminológico, quase maníaco, que o autor aplicou na escrita. Vós, Luminosos e Elevados Anjos não teve essa exigência específica, embora tenha sido um livro difícil de traduzir por causa da sua assombrosa, e em certos momentos até descontrolada, inventividade linguística e narrativa.”

Manuel Neto recorre justamente à linguagem musical para classificar um e outro livro. “Central Europa é um livro sinfónico, com diferentes andamentos e movimentos, enquanto Vós, Luminosos e Elevados Anjos [título inspirado em Lautréamont e no seu Maldoror] é uma obra selvagem, espécie de free jazz narrativo, escrito por um Vollmann muito novo, vinte e poucos anos. No primeiro, senti-me mais próximo do autor, quase dentro da cabeça dele, e no caso do Central Europa é evidente que o escritor está mais distante porque, de certa forma, se esconde por detrás das suas personagens, descrevendo vidas reais, vidas que não foi ele a imaginar. É essa, aliás, uma das razões pelas quais considero o livro tão brilhante, porque consegue dramatizar o mundo interior das personagens a tal ponto que elas se toram parte de um inconsciente colectivo.”

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Manuel Neto vai dizendo que está longe de ter lido tudo o que Vollmann escreveu, mas já leu o suficiente para lhe apanhar o tom na difícil tarefa de o traduzir Nelson Garrido

Central Europa é um livro que toca áreas tão distintas como a arte, a política, estratégia militar, filosofia, música, ciências. O autor  faz muita pesquisa. E o tradutor, como se aproximou destes temas?

“Para ser sincero, não fiz pesquisa específica. Todos esses temas são-me próximos na medida em que me fazem parte do meu campo de interesses, embora não seja especialista em nenhum deles. Em todo o caso, não creio que não seja exigível ao tradutor que seja um especialista nos temas dos livros que traduz, embora, como é óbvio, neste caso dificilmente a tradução resultasse caso fosse feita por alguém sem conhecimento mínimo sobre a II Guerra Mundial. Tive apenas algumas dificuldades na terminologia militar. De resto, fiz sobretudo pesquisa acerca das personagens do livro. Vi filmes de Roman Karmen, ouvi a música e vi documentários sobre Shostakovich, li sobre alguns eventos históricos mencionados no livro... Esse foi o trabalho de pesquisa mais importante. No fundo, tentei aproximar-me o mais possível do livro e do autor.”

Em síntese, e para explicar o que o move, Manuel Neto arrisca dizer que Central Europa é “talvez o último grande romance do século XX”, no sentido de um tipo de romance que talvez já não possa voltar a ser escrito, de pertença a uma tradição que possa ter sido extinguida com o fim do século, e um “dos grandes do terceiro milénio”. A tal sinfonia. Nele, afirma, “estão presentes, embora formulados de uma forma particular, alguns dos grandes temas do Vollmann: a ideologia, o questionamento moral da violência, a História, a empatia extrema, até excessiva, pelo Outro. O livro expressa também, tal como o Vós..., uma das características fundamentais da obra do Vollmann, a relação da escrita com a paisagem”, traço que o leva a considerar que este, ao contrário do que muitos afirmam, “não é um livro à parte em relação à restante obra” embora, reconheça, seja dos seus grandes livros.

Porquê então só agora em Portugal, 13 anos depois da edição original? São os mistérios da edição, é o que se percebe do discurso de Manuel Neto que tomou este projecto de editar Vollmann como aposta pessoal. Como teria sido o primeiro de todos os seus projectos nesta área: traduzir Thomas Pynchon.

“Estava a ler Gravity’s Rainbow e por brincadeira comecei a traduzir. Achei graça ao exercício e continuei.” Foi assim que se aproximou da 7 Nós, a editora fundada no Porto em 2008 por Júlio Gomes. “Propus-lhe publicar o livro do Pynchon, mas quando fomos ver os direitos percebemos que já estava vendido”. Foi antes da publicação em Portugal de O Arco Íris da Gravidade, pela Bertrand, em 2012. A atenção de Neto virou-se então para Vollmann. Outro interesse pessoal, e com os direitos de toda a sua obra livres para Portugal. E nem mesmo depois do desaire comercial do primeiro livro, recuou na intenção de continuar a publicar W. T. Vollmann.

“Sempre acreditei que o Vollmann acabaria por encontrar os seus leitores, caso contrário não teria tido a energia para o traduzir. Traduzir o Vollmann faz parte de um trabalho editorial que é simultaneamente muito pessoal e, por isso, desfasado das regras económicas vigentes, uma espécie de economia paralela. Perder dinheiro é o único risco, e aceitamo-lo com resignação porque estamos conscientes de que o ambiente geral não é favorável a projectos com estas características.”

Fala de um plural, a 7 Nós, onde se inclui com mais duas pessoas e que já publicou Joseph Beuys, Witold Gombrowicz, Robert Louis Stevenson, Alberto Pimenta ou Mikhail Bulgakov. Neste momento, dedica-se apenas a Vollmann. “Por estranho que possa parecer, este plano editorial dificilmente teria sido concretizável em circunstâncias diferentes: [se não fosse] com uma editora pequena mas criteriosa como a 7 Nós, com total liberdade, com grande cumplicidade entre as pessoas envolvidas. Traduzir o Vollmann faz parte de um trabalho editorial que é simultaneamente muito pessoal e, por isso, desfasado das regras económicas vigentes, uma espécie de economia paralela. Perder dinheiro é o único risco, e esse aceitamo-lo com relativa resignação porque estamos conscientes de que o ambiente geral não é muito favorável a projectos com estas características.”

Mas depois de Central Europa, livro que está com duas edições diferentes no mercado — um de distribuição reduzida que se faz acompanhar de uma serigrafia —, segue-se The Atlas, original de 1996, outro título de Vollmann, mistura de ficção e não-ficção que resulta de experiências de viagem do escritor pelo mundo. Ainda não tem data de publicação e que Manuel Neto gostaria, talvez, de traduzir a quatro mãos. “Vollmann é um projecto importante para mim, e é importante que este autor seja divulgado. Por isso investi tanto. Pessoalmente e também financeiramente. Implica dedicação. A minha vida foi diferente nos últimos cinco anos.”