A filha de Orson Welles pede à Netflix que deixe The Other Side of the Wind estrear em Cannes

Num email, que a Vanity Fair reproduz, Beatrice Welles dirige-se ao director da Netflix: “Fui testemunha de como as grandes companhias de produção destruíram a vida dele, o seu trabalho, e dessa forma um pouco do homem que tanto amava. Odiaria que a Netflix fosse outra dessas companhias”.

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The Other Side of the Wind era um falso documentário sobre um realizador lendário que regressava a Hollywood, depois de um exílio europeu, para realizar, enfim, a sua obra máxima

Beatrice Welles, a filha de Orson Welles, pede à Netflix que “reconsidere” a sua decisão de retirar The Other Side of the Wind da programação do Festival de Cannes – para que a plataforma de streaming não seja mais uma entidade a “destruir” a obra do pai. A decisão da Neflix de retirar as suas produções do festival (programação ontem anunciada em Paris) é reacção à regra criada pelos programadores segundo a qual filmes sem distribuição comercial assegurada em sala não podem competir para a Palma de Ouro.

The Other Side of the Wind era um filme que Welles começou a rodar em 1970, escrito por ele e pela companheira Oja Kodar: um falso documentário sobre um realizador lendário que regressava a Hollywood, depois de um exílio europeu, para realizar, enfim, a sua obra máxima. Tinha John Huston como intérprete. Nunca foi concluído - algumas cenas apareceram em documentários, fragmentos foram exibidos em festivais. A Netfix, o realizador, e amigo de Welles, Peter Bogdanovich (também intérprete do filme) e o produtor Frank Marshall juntaram esforços para nos mostrar como seria The Other Side of the Wind. Era esse restauro que tinha estreia mundial na secção Cannes Classics. O que não seria invalidado pelas novas regras do festival porque o filme não seria exibido em competição. Mas o Director de Conteúdos da Netflix Ted Sarandos considera que a regra tem objectivo específico de atingir a sua companhia e por isso retirou todas as suas produções da Croisette – foram abrangidos pela decisão, para além do trabalho de restauro do filme de Welles, Roma, de Alfonso Cuarón, Hold the Dark, de Jeremy Saulnier, Norway, de Paul Greengrass e, ainda sobre Welles, o documentário de Morgan Neville They’ll Love Me When I’m Dead.

“O festival escolheu celebrar a distribuição em vez de celebrar a arte cinematográfica. Estamos comprometidos a 100 por cento com a arte cinematográfica. Aliás, todos os outros festivais de cinema do mundo também estão”, justificou-se Sarandos, citado pela IndieWire, o que é mais do que uma indirecta: quer ele dizer que se não estreia em Cannes, estreará noutro festival.

A Vanity Fair publicou parte de um email de Beatrice Welles dirigido a Sarandos: “Fiquei muito perturbada e inquieta ao ler nos jornais da indústria sobre o conflito com o Festival de Cannes. Tenho de defender o meu pai. Fui testemunha de como as grandes companhias de produção destruíram a vida dele, o seu trabalho, e dessa forma um pouco do homem que tanto amava. Odiaria que a Netflix fosse outra dessas companhias.” Nesse email, segundo a IndieWire, Beatrice lembrava que Welles sempre teve boas relações com Cannes. O seu Othelo foi premiado em 1952 com o Grand Prix. Em 1959 recebeu o prémio de melhor actor por Compulsion - recebeu ele e receberam os outros intérpretes do filme de Richard Flescher, Bradford Dillman e Dean Stockwell, que interpretam personagens baseadas nos assassinos Leopold e Loeb (Welles interpreta o advogado que os defendeu).

“Por favor reconsiderem e deixem que o filme do meu pai seja a ponte entre Netflix e Cannes”, escreve Beatrice, filha de Orson e da actriz e aristocrata Paola Mori.

Há mais vozes a pressionarem a Netflix. O produtor de The Other Side of the Wind, Filip Jan Rymsza, dá conta da “decepção” e confirma que toda a equipa por trás do esforço de trazer o filme incompleto de Welles aos espectadores de hoje “lutou muito e persistentemente” para convencer a Netflix a mostrar o filme no festival. “O que é triste e mais difícil de aceitar é que toda a gente perde nesta decisão – Cannes, a Netflix, os cinéfilos e todos nós que trabalharam neste esforço histórico.” E continuou: se bem que saiba que “não haveria The Other Side of the Wind sem Netflix” isso não diminui o seu "desapontamento" e "desgosto".