Filipe Sambado

A liberdade está a passar por aqui

Ao segundo álbum, Filipe Sambado parte de dentro para olhar para fora. Ouçamos o que tem para cantar, com os seus Acompanhantes de Luxo, dia 19 no Teatro Aveirense, depois no Porto, Guimarães e Lisboa.

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Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo fica disponível online esta sexta-feira e chega às lojas a 20, edição da Valentim de Carvalho Rui Palma

Indumentária começa com guitarra bem torneada, numa volúpia a cheirar a anos 90. Vai trepando, com viço, vai-se desviando, sem se perder, até entrar nos seguintes versos, sangue a ferver: “Gosto de pintar as unhas/ O que é que tens a dizer/ Gosto de dormir na cama/ O que é que tens a dizer /Gosto de andar descalço/ O que é que tens a dizer/ Gosto de vestir saia, de pintar os lábios e a boca/ Gosto que estejas calado/ Quando não tens nada pra dizer/ Parece que a liberdade tem um catálogo por escrever.”

Indumentária é a canção, a canção certa, que fecha o novo e segundo álbum de Filipe Sambado, Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo. Funciona quase como uma síntese do lugar onde estava a cabeça dele quando partiu para este disco, que fica disponível online esta sexta-feira e chega às lojas no dia 20, numa edição da Valentim de Carvalho. “Estamos habituados a estar numa bolha privilegiada de amigos que estão confortáveis com a maneira como és. Depois vais para o trabalho e acabas por ter que lidar com uma realidade que é muito mais real do que aquela em que estás”, introduz o músico, compositor e produtor português de 32 anos, também perchista em televisão. “Se eu chegar a um trabalho mais normal e as pessoas começarem a ter um olhar pejorativo relativamente a certas escolhas elementares que eu possa fazer, isso põe-me em confronto com essas escolhas e o que isso representa. Por isso é que falo tanto em roupa ao longo do disco”, observa o ainda membro da Maternidade, colectivo lisboeta que o agencia.

Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo é, assumidamente, o disco de banda de Sambado – a banda que tem vindo a tocar com ele ao vivo, com Alexandre Rendeiro, vulgo Alek Rein, na guitarra, Adriano Fernandes, ou C de Crochê, no baixo, Luís Barros na bateria (toca com Alek Rein e Sun Blossoms) e Manuel Lourenço (Primeira Dama, Migas) nas teclas e vozes, os quatro acompanhantes de luxo. Mas também é, assumidamente, o disco mais dele. São dez canções que partem de dentro para olhar para fora, numa inquietude virada para o mundo. Aconteceu muita coisa depois de ter lançado o primeiro álbum, Vida Salgada (2016), e tudo isso acabou por ditar o tom deste novo registo.

“Na altura em que tinha acabado o outro disco morreram-me familiares, fiquei sem trabalho, separei-me da minha namorada de então”, conta Sambado. “Estava naquela: ou faço outro disco inteiro sobre emoções, sobre um lado mais angustiante, ou tento fazer um disco sobre o que tenho de fazer para tentar sentir-me sempre bem comigo próprio e tentar aproximar-me de um sentimento de desapego e liberdade”. Para ele, essa liberdade passa por coisas tão simples – mas que foram sendo tão diabolizadas por um sistema patriarcal, normativo e sexista – como ser um homem que pinta as unhas, que veste saias, que usa vestidos. “Há pessoas que mudam de cores de calças, há outras que vestem uma saia. Fui ganhando à-vontade para fazer uma série de escolhas e a questão da indumentária tem sido um caminho importante para mim.” Fora e dentro do palco. “Uso saias no dia-a-dia, não é só nos concertos. Claro que na rua levo com olhares e bocas que antes não levava. Não o faço na premissa de querer ser disruptivo, mas de me sentir bem comigo.”

Esse desmantelar de construções sociais normativas ligadas às expressões de género não é uma novidade em Filipe Sambado – ouçamos Moda, de Vida Salgada, ou olhemos para a capa do EP Ups… Fiz Isto Outra Vez, de 2014, onde ele já aparecia de unhas pintadas. Contudo, nunca o pôs em canções de forma tão politizada, admite. “Muitas das coisas se deveram ao facto de o Vida Salgada ter sido mediático. Eu nunca levantei nenhuma bandeira, mas de repente colocam-te uma nas mãos e tu tens de pensar sobre o que queres fazer de bem com isso, porque é uma responsabilidade. É uma questão de perceber de que lado da luta é que estás, porque não podes ter um lado neutro quando as coisas são importantes.”

Isso fica bem claro no single Deixem Lá, em que se questiona a (hetero)normatividade perpetuada também por homens gay, bem como os espartilhos binários ligados ao género (“E se eu parecer uma mulher/ Eu nem pareço uma mulher/ E o que é que isso quer dizer”). “A Deixem Lá aconteceu porque a certa altura comecei a receber muitas mensagens bastante agressivas e machistas de homossexuais que me diziam que se eu não era gay parecia e que devia ser”, recorda Sambado. “Depois ganhou outras dimensões, como a ideia do ‘e se eu parecer uma mulher, o que é que isso quer dizer’. Ao longo do disco fui percebendo que queria abrir mais leituras, tentar ser contemplativo com os pensamentos em vez de os fechar, para não estar a criar mais normas.”

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Do vaporwave à música portuguesa

Não foi só nas letras que procurou verter essas múltiplas leituras e desconstruções. Também na própria formatação – ou melhor, na desformatação – das canções, aqui menos redondas e lineares do que as de Vida Salgada. A culpa, diz-nos, foi do vaporwave, um subgénero da música electrónica nascido das cinzas do chillwave e do hypnagogic pop que, à primeira vista, pouco ou nada tem a ver com a música de Sambado. “Tive uma fase em que andei a ouvir bué vaporwave, então ao nível da construção musical há várias coisas influenciadas por isso. Não é algo directo, mas por exemplo o Eccojams [álbum de Chuck Person, pseudónimo de Oneohtrix Point Never] há muito a repetição das partes, que de repente podem aparecer em qualquer lado”, explica o músico.

O que nos leva até É Tu, sétima paragem do disco. Arranca com um granulado de guitarra a circular entre uma linha de teclado oblíqua, e quando a canção parece estar aproximar-se da pop onírica, aqui em versão HD, de Vida Salgada, entra numa zona embaciada de psicadelismo hipnagógico muito Ariel Pink e os seus Haunted Graffiti. É aí que a canção se eleva, que se irradia. Mais estranha é a fuga de Em Paz, no lance alucinado de voz manipulada que desestabiliza aquilo que poderia ser uma canção mais clássica de travo sixties. “Nas partes mais conceptuais é onde acaba por se notar a teimosia dos músicos em vez de se notar apenas o momento criativo. Há certas coisas que roçam o conceptual irritante”, graceja Sambado. “O disco está muito maximal, tem muito pouco espaço”, analisa. “Estivemos os cinco fechados num sítio, cada um a querer mandar as suas ideias.”

Há de facto um som cheio, vitaminado, esculpido que não se ouvia em Vida Salgada. Mas que mantém o calibre melódico, e que resulta. Cada músico consegue mostrar a sua assinatura, sem ser invasivo. Ouçamos o teclado ametista de Primeira Dama na pop sacarina de Mentol e na forma deslumbrante como pigmenta, com várias nuances, Deixem Lá. Ou a bateria magistral de Luís Barros na enorme Dono da Bola: ouvem-se ali tantos vestígios, tantos murmúrios, da música popular portuguesa. Uma das melhores canções de sempre de Filipe Sambado, que atesta não só a sua maior aproximação à música portuguesa mas também o seu devir político. “A Dono da Bola é muito política”, aponta. “É sobre como há vozes que falam por toda a gente e o facto de se aceitar isso”.

Faz boa companhia a Onda, rebuçado de pop-rock contagiante e celebratório contra o individualismo e pela liberdade de escolha, de ser. E a Dá Jeitinho, onde Sambado canta sobre classismo, gentrificação e especulação imobiliária em Lisboa (mais os danos colaterais), com uma modulação de voz que nos atira imediatamente para José Afonso, apoiada na guitarra entre Portugal e os EUA de Alek Rein. Também a voz de Sambado mudou. É agora menos sussurrada e contida, mais matizada. “Estou a ficar cada vez mais confortável com nuances vocais que vou fazendo e acho que algumas delas vão ganhando alguma portugalidade natural”, considera. “Comecei a cantar mais agudo, talvez daí essa aproximação.”

De resto, foi a vida a acontecer. “A maturação emocional a que me vi obrigado levou-me a algo que acaba por ter a ver com o meu crescimento político, a maneira como tenho de me colocar no dia-a-dia”, resume o músico, que vê esta estreia na Valentim de Carvalho como uma oportunidade para chegar a públicos mais alargados, mais além dos circuitos da música independente. “Chega uma altura em que sentes que estás a pregar aos convertidos. Isto da Valentim pode ser positivo a nível de promoção e alcance.” Também nos concertos de apresentação do disco a ideia passa por “tentar descentralizar”. O primeiro é dia 19 no Teatro Aveirense, em Aveiro. Segue-se o Maus Hábitos, no Porto, dia 20, o Convívio, em Guimarães, a 21, e o Lux, em Lisboa, a 26, este último com primeira parte das Ninaz, cujo primeiro álbum chega em Maio, produzido pelo próprio Filipe Sambado.

“Puxo-te a ti e tu puxas o de trás/ Vamos fazer como a onda faz”, canta ele em Onda. Em várias direcções, Sambado puxa por nós. E, por agora, não perdemos nada em ir com ele.