Crítica

O canto de Gomorra

Ammore e Malavita é um filme semi-falhado mas que guarda uma reserva de singularidade suficientemente forte para ser um objecto singular, que não se vê todos os dias.

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A mitologia e o folclore napolitanos estão em força em Ammore e Malavita, filme que foi este ano o grande vencedor dos David di Donatello, os prémios institucionais do cinema italiano. A atmosfera é bastante especial. O sanguíneo submundo da camorra, com todos os seus códigos de conduta, honra e sobrevivência, em articulação com uma tentativa de reencontro da dimensão popular da ópera, com o canto e as canções a tomarem conta dos procedimentos. Numa das primeiras cenas, o guia de um autocarro de turistas informa os passageiros de que estão a passar pelo sítio onde foi filmado Gomorra, o filme de Matteo Garrone (baseado no livro de Roberto Saviano) que há anos deu um retrato impressionantemente realista do mundo da mafia napolitano. No filme dos Manetti, a referência surge quase como uma declaração de intenções para ser entendida “a contrario” – aqui, a visão será romântica, operática, “encantada” (como os filmes de Jacques Demy).

O que não exclui a violência, seja a violência dos sentimentos (o “ammore”) seja a violência física da “malavita”. Vê-se Ammore e Malavita como uma reminiscência daquela vaga do cinema napolitano dos anos 90 (embora, diga-se, os irmãos Manetti sejam romanos) que deu Mario Martone ou os inícios de Sorrentino, cruzada com a tendência liricamente coreográfica dos românticos do “gangsterismo” de Hong Kong, como Johnnie To (que também fez as suas vénias explicitas a Demy). E isto, de certa forma, em cima de Gomorra, quer dizer, em cima do “realismo”, como se fosse uma ocupação. E é aquilo em que Ammore e Malavita funciona melhor, a sua instalação em ruas e cenários reais da zona de Nápoles (mais algumas cenas nas ruas de Nova Iorque), tirando bom partido expressivo das paisagens urbanas populares, das estruturas industriais, e da proximidade com a natureza, sobretudo a praia e o azul daquele mar muito mediterrânico. Isto é sempre mais forte, mais apelativo, do que a narrativa, e mesmo do que a sua musicalidade: os Manetti não parecem tão hábeis a calibrar o ponto de fronteira entre “arquétipos” e “caricaturas” (o Don Vincenzo de Carlo Buccirosso, a matriarca Donna Maria de Claudia Gerini), e as personagens parecem ficar a pairar, suspensas num “excesso” (de figuração, de maneirismo) que o filme não encontra maneira de fazer voltar ao chão. Provavelmente faz parte do jogo que os Manetti querem jogar, mas o filme — sobretudo a sua dimensão melodramática — perde algo com isso, é o carácter sanguíneo daqueles temperamentos e daqueles relacionamentos que fica em “panne” de crença. Impossível não ver Ammore e Malavita, então, como um filme semi-falhado, que guarda, não obstante, uma reserva de singularidade suficientemente forte para ser um objecto singular, que não se vê todos os dias.